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Cirurgias contra obesidade em adolescentes ainda suscitam dúvidas

Nova York – Apesar de ser importunada desde a quarta série por ser gorda, Shani Gofman aprendeu a lidar com isso. Ela tirava boas notas e participava do clube de teatro na escola. Tinha bons amigos e um namorado que conheceu pelo Facebook. Ela até mostrava suas curvas vestindo leggings de lycra e camisas apertadas. Quando sua pediatra, Dra. Senya Vayner, mencionou pela primeira vez a cirurgia para perda de peso, Gofman tinha 17 anos, ainda morava com os pais e seu quarto era decorado com estrelas que brilham no escuro, porque ela tinha medo da escuridão. Sem dúvida, com cerca de 1,5 metro de altura e mais de 113 kg, ela estava com sobrepeso. No entanto, disse que não estava interessada e que poderia fazer uma dieta. “Eu vou perder peso”, disse Gofman a sua médica. Profeticamente, Vayner afirmou: “Não é culpa sua, mas você não vai conseguir”. Junto com a epidemia de obesidade nos Estados Unidos, as cirurgias de perda de peso explodiram, com cerca de 220 mil operações por ano – tendo se multiplicado por sete em uma década, segundo dados do setor – custando mais de 6 bilhões de dólares por ano. E o grupo que começou a se submeter a elas mais recentemente são pacientes jovens como Gofman, que permitiu que o New York Times a acompanhasse durante um ano, período em que ela se submeteu à operação e embarcou em uma jornada para perder peso, envolvendo desafios a seu moral, sua autoimagem e a suas relações com a família e amigos. No entanto, a eficácia a longo prazo da cirurgia de perda de peso, incluindo aquela que envolve colocar uma banda ao redor do estômago, o procedimento pelo qual passou Gofman, ainda é questionada. E a tendência a realizar essas cirurgias em jovens tem levado a uma certa resistência dos médicos, que dizem que operar pacientes cujo corpo ainda está em desenvolvimento e que ainda não tiveram muito tempo para perder peso por si mesmos é algo muito drástico. “Eu acho que é bastante extremo mudar a anatomia de uma criança quando nem sequer se tentou outras alternativas”, disse a Dra. Wendy M. Scinto, médica de família de Manlius, Nova York, que é especializada em endocrinologia pediátrica. Ao contrário dos pacientes mais velhos, “não existe uma grande urgência em operar, pois eles não correm risco de vida”, advertiu. Um a dois por cento das cirurgias para perda de peso, também conhecidas como bariátricas, são praticadas em pacientes com menos de 21 anos, mas há pesquisas que estão avaliando os resultados da intervenção em crianças até 12 anos. A Allergan, fabricante do popular Lap-Band, uma banda de silicone que é inserida cirurgicamente e constringe o estômago para que o paciente se sinta satisfeito rapidamente, solicitou autorização da Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) dos EUA para promover a banda entre pacientes até 14 anos, quatro anos mais jovens do que o permitido atualmente. Hospitais de todo o país inauguraram centros bariátricos para adolescentes nos últimos anos. Os médicos que estão abertos a operar pacientes mais jovens acham que há evidências consideráveis de que fazer dieta muitas vezes não dá certo. “A maioria de nós testemunhou a medicina consagrada dar o mesmo conselho repetidamente às crianças obesas – elas continuam a ouvir que precisam seguir uma dieta e brincar mais ao ar livre”, disse o Dr. Thomas Inge, professor de cirurgia e pediatria da Universidade de Cincinnati, que está participando de um estudo sobre a cirurgia para perda de peso em adolescentes dos Institutos Nacionais de Saúde. “Eu gostaria que fosse assim tão simples.” Em dezembro de 2010, Gofman, que tinha acabado de fazer 19 anos, chegou acompanhada de sua mãe ao consultório do Dr. Danny Sherwinter, o atlético e loquaz chefe de cirurgia bariátrica do Centro Médico Maimonides, no Brooklyn. Gofman estava nervosa, mas animada. Ela tinha decidido fazer a cirurgia da banda gástrica, a única que Sherwinter faz, porque é reversível e tem um risco relativamente baixo. Ela pesava 123 kg, com índice de massa corporal de 51, bem acima do mínimo de 40 ou 35 para pessoas com pelo menos um outro problema de saúde relacionado à obesidade, que era necessário para o uso da banda (em fevereiro, o FDA se recusou a estabelecer 30 como o índice de massa corporal mínimo – isto é, o limiar da obesidade – para os pacientes com outros problemas de saúde). Sherwinter disse a Gofman que, de acordo com a média, ela poderia esperar perder cerca de 40 por cento de excesso de peso, isto é, de 32 a 36 kg. “O que é melhor do que qualquer dieta que existe por aí”, disse ele. “A nossa expectativa é de que você chegue a cerca de 90 quilos.” A operação demorou cerca de 25 minutos. O Child Health Plus, um plano estadual popular de saúde, cobriu o custo de 21,369 dólares. Atualmente, o Medicaid, na maioria dos estados, e muitos seguros privados, cobrem a cirurgia bariátrica, muitas vezes mais facilmente do que planos de dieta e exercício. Dúvidas a longo prazo A cirurgia à qual Gofman foi submetida, chamada de banda gástrica ajustável por laparoscopia, representa cerca de 39 por cento de todas as cirurgias bariátricas. Os outros dois principais tipos são o bypass gástrico em Y de Roux, que implica grampear o estômago para fazer um saco e rearranjar o intestino, e a gastrectomia vertical, que consiste em remover a maior parte do estômago, transformando o que resta dele em um tubo fino. A Allergan, que também fabrica o Botox, domina o mercado de bandas gástricas, a tal ponto que o Lap-Band é frequentemente mencionado como um nome genérico, tal como Kleenex e Band-aid. No entanto, os esforços para obter aprovação do FDA para vendê-lo a pacientes mais jovens surgiram em meio à observação dos primeiros indícios de que a banda gástrica pode produzir resultados ruins a longo prazo. Uma pesquisa belga, realizada em pacientes adultos, descobriu que aproximadamente metade deles removeu a banda até 12 anos após colocá-la, por diversas razões, de acordo com o autor principal, Dr. Jacques Himpens: eles não perderam muito peso; recuperaram o que tinham perdido; sofreram frequentemente com azia ou vômitos; e, em alguns casos, a banda escapou e penetrou o estômago. Outra pesquisa, realizada na Austrália, revelou que um terço das cirurgias realizadas em adolescentes exigiu que operações subsequentes fossem feitas nos dois anos seguintes à primeira intervenção, muitas vezes por “dilatação do saco”, quando o estômago, localizado acima da banda, acaba por se dilatar, o que pode acontecer se o paciente não seguir o regime e tentar comer demais. Cathy Taylor, porta-voz da Allergan, observou que tais estudos se basearam em pequenas amostragens. Taylor disse que os estudos realizados com adultos não refletem as recentes melhorias implementadas na banda e nas técnicas cirúrgicas. Ela afirmou ainda que as complicações que ocorreram na pesquisa desenvolvida junto a adolescentes não são graves. Observando resultados Gofman chegou para a sua primeira consulta pós-operatória 13 dias após a cirurgia. A balança marcou 114 kg, nove abaixo do seu último peso registrado. No entanto, seu ânimo não parecia corresponder à perda dos quilos. “Você disse que eu poderia comer um pouco de purê de batatas”, disse ela a Sherwinter. “Eu medi a quantidade. Eu não me senti nada satisfeita. Então, eu me senti mal. Comi um pouquinho e, depois, um pouquinho mais, e ainda não me sentia cheia. Mas eu parei.” Gofman queria um “enchimento” de banda, uma infusão de soro fisiológico para fazê-lo constringir ainda mais o estômago, apesar de Sherwinter ter dito a ela para esperar seis semanas. Em seguida, ela confessou que também tinha comido um guioza. Mais tarde, ao esperar o trem para o trabalho na plataforma do metrô, Gofman se queixou de como a cirurgia tinha mudado o ritmo da sua casa. “Minha mãe não cozinha tanto, já que não tem ninguém para comer”, disse ela. Três semanas depois, ela tinha perdido quatro quilos a mais e estava com 110. Passou a vestir 48 – antes, vestia 54 – e tinha comprado várias calças jeans. Ele havia se matriculado em uma academia e comprado um maiô. “Meus amigos me davam parabéns”, disse ela à médica assistente, Elana Guzman. “Agora eu saio mais. É mais fácil subir escadas. Não é tão difícil me exercitar. Eu posso vestir um monte de roupas que antes não me serviam.” Então veio o verão. Gofman ganhou uma viagem para Israel, para onde foi com outros adolescentes. Ela deixou de ir a consultas e começou a comer mais. Por volta do outono, ela tinha cancelado sua matrícula na academia porque era muito cara. Quando o hospital entrou em contato para pedir que ela fosse ao médico, ela disse que estava ocupada. No entanto, a verdade era que ela não tinha mais idade para se beneficiar do programa de seguro de saúde infantil e estava envergonhada por ter ganho peso. Finalmente, confessou ao hospital que não tinha como pagar pelo atendimento. A médica assistente disse que eles “dariam um jeito”. Gofman, que acaba de completar 20 anos, teve uma consulta com Sherwinter em novembro. Ela tinha recuperado quase a metade do peso que perdeu. Ele não a repreendeu, nem a culpou. Ele apertou a banda de modo que dois ovos mexidos levassem uma hora e meia para passar pelo estômago. Gofman não quer revelar quanto pesa, mas sente fome constantemente e progride lentamente. O seu namorado a conforta, contou ela. “Eu digo: ‘Não vejo a hora de ficar magra’, e ele diz: ‘Você é linda do jeito que é’.”