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Edição
1924, 28 de setembro de 2005
Interdisciplinar
História e Literatura
Ensine
que a corrupção tem uma
trajetória secular em nosso país
Conte que o entrelaçamento das esferas
pública e privada marca a vida brasileira desde o desembarque
de Cabral
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Pilhagem
e busca de privilégios: práticas generalizadas
desde o início da colonização portuguesa
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Corrupção
e estrutura sociopolítica brasileira


Relacionar
informações e conhecimentos
disponíveis em situações
concretas para construir argumentação
consistente


Identificar
manifestações literárias
e políticas acerca do fenômeno
da corrupção na vida brasileira |
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Na composição Profissionalismo É Isso
Aí, retrato impiedoso e bem-humorado do Brasil atual,
Aldir Blanc e João Bosco afirmam: Domingo numa
solenidade/ Uma otoridade me abraçou/ Bati-lhe a carteira,
nem notou,/ Levou meu relógio e eu nem vi/ Já
não há mais lugar pra amador.
Esses versos poderiam servir de epígrafe para o texto
Por Falar em Pizza, de Claudio de Moura Castro.
No artigo, ele explora as contradições daqueles
que se dizem indignados com os episódios de corrupção
na esfera pública, mas, na vida particular, recorrem
ao famoso jeitinho na tentativa de levar vantagem em tudo.
Mostre aos estudantes que essa espécie de relativismo
moral está presente ao longo de cinco séculos
de vida nacional. Investigue com a classe as suas raízes.
Preparação
da aula
Tire
cópias dos trechos de textos literários reproduzidos
no quadro abaixo e distribua entre os alunos.
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Sermões
pregados no Brasil
Padre
Antonio Vieira
Perde-se
o Brasil, Senhor (digamo-lo em uma palavra), porque
alguns ministros de Sua Majestade não vêm
cá buscar o nosso bem, vem buscar nossos bens...
El-Rei manda-os tomar Pernambuco, e eles contentam-se
com o tomar... Este tomar o alheio, ou seja o do Rei
ou o dos povos, é a origem da doença;
e as várias artes e modos e instrumentos de tomar
são os sintomas (...). E senão, pergunto,
para que as causas dos sintomas se conheçam melhor:
Toma nesta terra o ministro da Justiça?
Sim, toma.
Toma o ministro da fazenda?
Sim, toma (...).
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Cartas
chilenas
Tomás Antonio
Gonzaga
Um
pede, Doroteu, que lhe dispense
Casar com uma irmã da sua amásia;
Pede outro que lhe queime o mau processo,
Onde está criminoso, por ter feito
Cumprir exatamente um seu despacho;
Diz este que os herdeiros não lhe entregam
Os bens, que lhe deixou, em testamento,
Um filho de Noé; aquele ralha
Contra os mortos, juízes, que lhe deram,
Por empenhos e peitas, a sentença
Em que toda a fazenda lhe tiraram;
Um quer que o devedor lhe pague logo;
Outro, para pagar, pertende espera;
Todos, enfim, concluem que não podem
Demandas conservar; por serem pobres
E grandes as despesas, que se fazem
Nas casas dos letrados e cartórios.
Então o grande chefe, sem demora,
Decide os casos todos que lhe ocorrem
Ou sejam de moral, ou de direito,
Ou pertençam, também, à medicina,
Sem botar (que ainda é mais), abaixo um livro
Da sua sempre virgem livraria.
Lá vai uma sentença revogada
Que já pudera ter cabelos brancos;
Lá se manda que entreguem os ausentes
Os bens ao sucessor, que não lhes mostra
Sentença que lhe julgue a grossa herança.
A muitos, de palavra, se decreta
Que em pedir os seus bens, não mais prossigam;
A outros se concedem breves horas
Para pagarem somas que não devem (...).
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Para
debater
Discuta
as seguintes questões:
Na
carta em que anuncia ao rei lusitano o achamento
da Ilha de Vera Cruz, Pero Vaz de Caminha aproveita para pedir
a volta a Portugal de seu genro, enviado para a África
por ter roubado uma igreja e espancado seu padre. Será
que a certidão de nascimento do Brasil também
pode ser vista como um registro da troca de favores, aspecto
marcante da vida nacional e não apenas na esfera
pública?
A
quem se dirige o padre Antônio Vieira em seu sermão
sobre os delitos das autoridades? O que significam frases
como El-Rei manda-os tomar Pernambuco? Lembre
que, por essa época, Portugal havia restabelecido sua
independência, após 60 anos de União Ibérica,
e os luso-brasileiros tentavam expulsar os holandeses do Nordeste.
Diga
que a fase da mineração, no século XVIII,
foi um período de grande desvio do dinheiro público.
O Estado procurou exercer um rígido controle sobre
a produção de ouro. A vigilância fiscal
e burocrática excessiva, entretanto, abriu brechas
para os casos de corrupção, narrados em documentos
e também na literatura da época. Tomás
Antonio Gonzaga, nas Cartas Chilenas, descreve o nepotismo
e os abusos de poder no governo da capitania. São treze
epístolas escritas por Critilo (pseudônimo do
autor), sempre dirigidas a Doroteu (provavelmente Cláudio
Manuel da Costa), que versam sobre os desmandos do Fanfarrão
Minésio (o governador Luís Cunha Meneses).
Que aspectos sobressaem no texto selecionado? As pressões
dos particulares para alcançar seus objetivos, mesmo
sem amparo legal? A incompetência autoritária
do governante? Esse quadro é muito diferente da atuação
dos lobistas e da tomada de decisões nos dias de hoje?
Informe
que a Independência do Brasil não significou
uma grande mudança na tocante ao entrelaçamento
questionável das esferas pública e privada.
Durante o Primeiro Reinado (1822 a 1831), foi notória
a presença de Francisco Gomes da Silva, o Chalaça,
como notório articulador e facilitador
do contato da elite com o governo. Chalaça obtinha
os mais diversos tipos de vantagens junto ao imperador, nomeava
e demitia quem queria.
Será
que o Segundo Reinado (1840 a 1889) mudou esse estado de coisas?
Antes das respostas, coloque em discussão a frase de
Machado de Assis: Corrupção escondida
vale tanto como a pública; a diferença é
que não fede. As palavras desse arguto cronista
do Brasil de Pedro II sugerem que a situação
basicamente continuava a mesma. Cite também a frase
de Joaquim Nabuco sobre a vida política do Império:
É o traço saliente do nosso sistema político
essa onipotência do Executivo, de fato o Poder único
do regime. Essa observação vai evidenciar
que a hegemonia do poder que controla verbas, nomeia e demite
etc. é bem anterior à instituição
da República presidencialista, proclamada em 1889.
Explique
que a implantação do regime presidencialista
trouxe poucas mudanças quanto à prática
do desvio do dinheiro público. A Primeira República,
também conhecida como República Velha ou Oligárquica,
tinha entre suas características o voto de cabresto,
pelo qual, especialmente nas áreas rurais, o eleitor
escolhia o candidato do chamado coronel o chefe político
municipal em troca de favores ou objetos, como sapatos,
roupas e até dentaduras.
A
República brasileira, a partir daí, caracterizou-se
pela não-separação entre os interesses
públicos e particulares. O resultado transparece, na
atualidade, nas notícias de escândalos na esfera
política, em textos de jornais e revistas, como o ensaio
de Claudio de Moura Castro, e em pesquisas como a realizada
em outubro de 2004 pela organização não-governamental
Transparência Internacional. Essa entidade listou os
países de acordo com o grau de corrupção
de cada um. Foram investigadas 149 nações de
todo o planeta e o Brasil ocupou, naquele momento, o 59ä lugar.
Ensine
que Raymundo Faoro, em seu livro Os Donos do Poder, enfatiza
a presença do estamento burocrático no Estado
e na sociedade brasileira. Essa camada, transplantada de Portugal,
dependia de favores da Coroa e reivindicava privilégios,
e não direitos. Também defendia basicamente
os seus interesses, e só depois as reivindicações
dos diferentes setores sociais que de algum modo representava.
Na opinião dos jovens, a influência desse segmento
contribuiu para a arrogância e o sentimento de impunidade
que parecem predominar entre os nossos homens públicos
e burocratas?
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Não
há lugar para amador: quem denuncia a corrupção
também busca vantagem em tudo
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Exercícios
e outras atividades
Conte
que a vinda da Família Real representou um aumento
da desonestidade no país. De uma hora para outra, o
Rio de Janeiro tornou-se a sede de um império. A cidade
passou a abrigar uma máquina pública extremamente
burocratizada, sem um efetivo controle central; houve um aumento
considerável da inflação e o descontrole
dos preços das mercadorias. Isso tudo teria incentivado
práticas questionáveis na população,
que perdeu seus referenciais políticos e econômicos.
Convide a moçada a assistir ao filme Carlota Joaquina,
de Carla Camurati, e analise as mudanças provocadas
pela vinda de Dom João VI e seu séquito. Divididos
em grupos, os alunos podem assinalar cenas e diálogos
referentes a desvios do dinheiro público presentes
na película.
Sugira
a elaboração de uma linha do tempo, baseada
nesta aula, destacando os principais períodos históricos
e os casos de corrupção mais notórios.
Encomende
o exame de obras literárias que contenham análises
ou reflexões sobre essas práticas delituosas
no Brasil. Vale a pena ler, por exemplo, poemas de Gregório
de Matos Guerra sobre os costumes dissolutos, nos campos público
e particular, na cidade de Salvador no século XVII.

Aula
sugerida por Ricardo Barros, professor de História
do Colégio Paulista e coordenador da Escola Estadual
Rodrigues Alves, em São Paulo
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