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Edição 2009, 23 de maio de 2007

Ciências Humanas e suas Tecnologias - Política, História e Geografia

O americano perplexo

Explique por que "Yankee, go home!" é hoje
uma expressão presente em todas as línguas


Jay Kopelman

Três aulas de 50 minutos


Luta contra o terror e situação política mundial


Perceber os desdobramentos externos e internos da campanha dos Estados Unidos contra o terrorismo

A seção Auto-Retrato de VEJA traz esta semana uma entrevista com Jay Kopelman, ex-tenente-coronel dos fuzileiros navais dos Estados Unidos. Ele fala do cotidiano dos soldados e sobre a adoção de um cãozinho, de nome Lava, nos campos de batalha do Iraque. Suas palavras transmitem uma dimensão mais humana do conflito - aspecto reforçado quando declara que as tropas americanas gostariam de ser apreciadas pelos iraquianos: "Se pudéssemos dar segurança às pessoas, elas gostariam de nós novamente". Será que o protetor de Lava não viu as fotos de seus compatriotas rindo das torturas e humilhações de prisioneiros nativos? Use a entrevista como base para trabalhar com os alunos os desdobramentos externos e internos da campanha antiterrorista dos EUA, que, nos dois casos, envolvem a restrição das liberdades individuais.

AFP
Tortura e desrespeito: casal de militares americanos ri da humilhação de iraquianos na prisão de Abu Ghraib

Atividades

1ª aula - Pergunte o que os adolescentes sabem a respeito dos ataques do Tio Sam ao Afeganistão e ao Iraque. Localize esses eventos como fruto da política externa americana após o 11 de Setembro, quando terroristas ligados ao grupo muçulmano Al Qaeda seqüestraram aviões comerciais e os lançaram contra alvos civis e militares em Nova York e Washington. Logo em seguida, o presidente George W. Bush decretou uma ofensiva militar contra nações que supostamente amparavam esses extremistas.
Conte que o primeiro alvo, ainda em 2001, foi o Afeganistão - na época, governado pelo Talibã. Essa facção fundamentalista islâmica de fato mantinha laços com a Al Qaeda. Denunciando o governo afegão por abrigar Osama bin Laden, responsável pelos atentados contra as Torres Gêmeas e o Pentágono, forças americanas entraram no país. O regime do Talibã desabou, mas Bin Laden não foi encontrado.

No caso do Iraque, invadido em 2003, o governo de Saddam Hussein era acusado de estocar grandes quantidades de armas de destruição em massa e também de apoiar organizações terroristas. Mais tarde comprovou-se que as alegações eram falsas.

Levante algumas questões para debate. Faz sentido invadir e ocupar dois países em decorrência de atos praticados por um grupo que não estava ligado a nenhum estado? E o que o presidente Bush devia fazer quando ficou patente que não havia no Iraque armas de destruição em massa? Retirar as forças de ocupação? Pedir desculpas ao povo local?

Encaminhe pesquisas sobre as ações americanas no Afeganistão e no Iraque. Proponha a montagem de cartazes com imagens dos confrontos e legendas que expliquem a evolução dos acontecimentos. Esse material pode ser apresentado nas duas aulas seguintes.
Paul J. Richards / AFP
Base naval de Guantanamo, em Cuba: cárcere para 385 suspeitos capturados na guerra contra o terror

2ª aula – Ressalte que a campanha antiterror comandada por George W. Bush também golpeou as liberdades individuais em sua terra. Um bom exemplo disso foi a aprovação do Ato Patriótico pelo Congresso. Trata-se de um conjunto de medidas formuladas pela Casa Branca para combater atos extremistas logo depois dos atentados de setembro de 2001. Entre as medidas mais controversas adotadas estão a permissão para que o governo prender pessoas sem culpa formada, realizar escutas telefônicas e confiscar documentos de empresas e outras entidades.
Discuta com a moçada até que ponto as autoridades podem controlar a vida das pessoas em nome do combate ao terrorismo. Ensine que essa postura não é novidade na história americana. Durante a II Guerra Mundial, foram criados campos de concentração para a detenção de imigrantes japoneses e seus filhos nascidos nos EUA, suspeitos de espionagem por causa da inimizade entre os ianques e a Terra do Sol Nascente.

Corbis / Latinstock
Passado sombrio: nipo-americanos presos num campo de concentração na Califórnia em 1942



Informe que os Estados Unidos mantêm em Cuba a prisão de Guantanamo, numa área de 117,6 quilômetros quadrados arrendada ao governo da ilha em 1903 por menos de 5000 dólares anuais. Estão encarcerados ali, desde 2002, sem julgamento, 385 indivíduos acusados de ligação com organizações como o Talibã e a Al Qaeda. Segundo a Cruz Vermelha Internacional, esses prisioneiros são vítimas de torturas, em desrespeito aos diversos acordos supranacionais que versam sobre direitos humanos, em especial a Convenção de Genebra. Lembre que a esmagadora maioria dos presos vem do mundo árabe e é muçulmana. Em tais condições, faz sentido a declaração do ex-fuzileiro ouvido por VEJA de que é possível levar os iraquianos a “gostar novamente” das tropas de ocupação?
Incentive a garotada a examinar as origens do sentimento antiamericano, expresso nas palavras de ordem "Yankee, go home!". Para enriquecer o debate, mostre uma passagem das Páginas Amarelas. O entrevistado, um fotógrafo de beldades, conta que, ao dizer que nasceu no Peru, as pessoas pensam que sua mãe “tem uma lhama e mora na montanha”. Por mais que ele explique que vem da costa, onde nem existem lhamas, "quem nunca esteve no Peru não consegue imaginar como é". Será que esse tipo de imagem estereotipada está presente nas relações entre os americanos e outros povos? Será que prevalece o desconhecimento das respectivas culturas? Como lidar com uma gente que, além de ser respeitada e temida, quer ser amada? É provável - ou soa plausível - gostar do ocupante de seu país?

Divulgação
Kiefer Sutherland, o agente Jack Bauer da série 24 Horas: confinamento de cidadãos de origem árabe

3ª aula – De posse das informações pesquisadas sobre os conflitos no Afeganistão e no Iraque, organize a classe em dois grandes grupos. O primeiro deve simular a edição de um telejornal sobre acontecimentos recentes nesses países e realizar entrevistas com os colegas sobre os seguintes temas:

  • A diminuição das liberdades individuais nos Estados Unidos em conseqüência da campanha contra o terror;

  • O papel político, econômico, cultural e militar dos americanos no cenário internacional; e

  • A situação das tropas dos EUA em relação aos afegãos e iraquianos.


  • A outra equipe será incumbida de elaborar pequenos roteiros para seriados de TV como, por exemplo, 24 horas - que aborda aspectos da campanha contra o terrorismo. Conte que a narrativa é dividida em temporadas, cada uma das quais apresenta os eventos de um período de 24 horas na vida do agente Jack Bauer, ligado à CTU (Counter Terrorist Unit, ou Unidade Contraterrorista). Na atual temporada, cidadãos de origem árabe são levados para campos de concentração. Na opinião dos estudantes, um novo atentado de alto impacto em território americano pode levar o governo de Washington a adotar uma medida similar?

    Para encerrar, peça que os grupos exibam o resultado de seus trabalhos a outras turmas.

    Aula elaborada por Ricardo Barros, professor de História do Colégio Paulista, de São Paulo


     
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