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Tempo estimado
Três aulas
Conteúdos
Literatura, resenha crítica, regionalismo e estereótipos
Habilidades
Conhecer a estrutura do gênero resenha e produzir resenhas críticas

23 de fevereiro de 2009

Linguagens, Códigos e suas Tecnologias - Língua Portuguesa
Jabuticabas literárias

Mostre aos estudantes que categorias como "literatura regionalista" e "literatura universal" não têm contornos precisos

A resenha sobre o lançamento de A Cidade Ilhada, livro de contos do amazonense Milton Hatoum, põe em xeque o conceito de regionalismo, visto como pejorativo pelo autor, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria romance. VEJA admite a existência do gênero – e faz observações ácidas à mediocridade da “nova literatura regional”. A verdade é que existem escritores tão brasileiros quanto a jabuticaba (ou algum outro fruto regional), embora nem sempre suas produções sejam saborosas. Use o texto como ponto de partida para um exame da resenha enquanto gênero textual argumentativo. Ele também pode fundamentar a análise de algumas características da literatura regional e dos estereótipos que envolvem o homem brasileiro.

Atividades
1ª aula – Motive a aula com a canção Seque o Seco, do baiano Carlinhos Brown, conhecida na voz de Marisa Monte. Nela é retomado o tema da seca, já cantado por Luís Gonzaga, em Asa Branca, por João do Vale, em Carcará, e por Djavan, em Seca. Se dispuser de mais de uma delas, apresente aos jovens e estimule-os a apontar diferenças e semelhanças entre elas.

Antes de apresentar a resenha, peça que os alunos listem nomes de autores brasileiros considerados regionalistas e suas obras. Sugira que visitem rapidamente a internet e construam as imagens das personagens presentes nos romances chamados regionais. Não interfira nesse ponto. Deixe valer o imaginário da turma. Estereótipos podem surgir.

2ª Aula Após a leitura da resenha, chame a atenção para a discussão em torno do termo "regionalismo". Organize a sala em grupos e encomende a construção do conceito de resenha. Disponibilize cópias do texto e peça que observem os seguintes aspectos:
• Quais trechos contêm informações objetivas sobre os livros e autores resenhados?
• Quais são as partes que trazem as opiniões do autor? Estão contextualizadas e justificadas?
• Os comentários são positivos, negativos ou neutros?
• Há marcas de ironia no texto?
• Quais são os trechos que citam as opiniões de outras pessoas?

Sugira que socializem as descobertas sobre o gênero textual, em especial acerca da liberdade do resenhista para expor opiniões subjetivas, ainda que justificadas e contextualizadas. Em seguida, faça-os observar na resenha os autores regionalistas citados como consagrados e proponha a comparação com a lista produzida por eles na primeira aula.

Explique que o regionalismo atravessou décadas e regiões. Faça um resumo do quadro socioeconômico e político brasileiro e internacional nos anos 1930. Na esfera mundial, ele foi marcado por reflexos da crise de 1929 na Bolsa de Valores de Nova York, estopim de uma depressão econômica mundial; pela ascensão do nazismo e do fascismo, na Europa; e por conflitos como mobilizações operárias na França, a Guerra Civil Espanhola e a II Guerra Mundial. No Brasil, destacam-se a crise cafeeira, a Revolução de 30, a Intentona Comunista (1935) e o Estado Novo (1937-1945). Na literatura, a geração modernista já era vitoriosa em suas conquistas e exigia-se de artistas e intelectuais uma tomada de posição ideológica. Surgiram escritores engajados politicamente, como Jorge Amado.

Com o romance regionalista não é diferente. Obras consideradas ícones do gênero, como O Quinze, de Rachel de Queiroz, e Vidas Secas, de Graciliano Ramos, trazem a denúncia das agruras da seca e da migração, dos problemas do trabalhador rural, da miséria e da ignorância. Mostre que o regionalismo não se manifesta apenas no sertão nordestino. No Sul do Brasil, a ficção histórica e épica de Erico Verissimo, em O Tempo e o Vento, apresenta o homem hostilizado pelo ambiente, pela terra, pela cidade e pelos poderosos.

Na telinha e na telona: literatura regional universalizada

Convide a garotada a viajar para 1945, quando termina a II Guerra Mundial. É o início da renovação do regionalismo, tão explorado pela geração da década anterior, com Guimarães Rosa e Mário Palmério.

3ª Aula Retome a resenha e questione a turma:
• Há receitas para a produção de um romance regional? Os alunos assistiram, no cinema ou na telinha, a produções medíocres baseadas na fórmula "junte um coronel, alguns retirantes, um ou outro jagunço, embale tudo em uma linguagem 'oral', e está pronto um romance nordestino"?
• Por que personagens como o Capitão Rodrigo, de O Tempo e o Vento, e Riobaldo, de Grande Sertão: Veredas, não se desgastam e transcendem aos tempos, aos espaços e aos estereótipos? Vale a pena explorar com os jovens a construção psicológica das personagens.
• Por que cenários como o Rio de Janeiro ou Curitiba não fazem parte do regionalismo?
• A revista afirma que o conceito de "literatura regional" costuma ser contraposto aos de "literatura urbana" e "literatura universal". Solicite exemplos dessas duas categorias. Essa oposição tem fundamento? Por quê?

Leve, para a apreciação da turma, exemplares dos romances listados abaixo e solicite que cada grupo escolha um deles para leitura. Após o prazo combinado, avalie a leitura dos livros escolhidos, desafiando os jovens a produzirem resenhas. Encarregue os grupos de comparar a imagem dos personagens dos romances lidos com aquelas (estereotipadas ou não) construídas por eles na primeira aula.

Encomende aos estudantes nova dissertação sobre o tema. Peça que introduzam no texto dados e informações gerais sobre o sistema penitenciário brasileiro e de outros países e formulem considerações sobre os benefícios sociais das ações educacionais nos presídios. Discuta os trabalhos com toda a turma e prepare uma exposição na escola com os resultados



Para seus alunos

Seque o Seco

Carlinhos Brown

A boiada seca
Na enxurrada seca
A trovoada seca
Na enxada seca

Segue o seco sem sacar que o caminho é seco
Sem sacar que o espinho é seco
Sem sacar que seco é o Ser Sol
Sem sacar que algum espinho seco secará
E a água que sacar será um tiro seco
E secará o seu destino secará

Ô chuva, vem me dizer
Se posso ir lá em cima prá derramar você
Ô chuva, preste atenção
Se o povo lá de cima vive na solidão

Se acabar não acostumando
Se acabar parado calado
Se acabar baixinho chorando
Se acabar meio abandonado
Pode ser lágrimas de São Pedro
Ou talvez um grande amor chorando
Pode ser o desabotoado céu
Pode ser coco derramando



Veja também:

Bibliografia

O Quinze, Rachel de Queiroz, José Olympio Editora, tel. (21) 2585-2000

Vidas Secas, Graciliano Ramos, Ed. Record, tel. (21) 2585-2000

Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa, Ed. Nova Fronteira, tel. (21) 2131-1180

O Tempo e o Vento, Erico Verissimo, Ed. Globo, tel. (11) 3362-2000

Aula sugerida por Gizele Caparroz de Almeida, professora de Língua Portuguesa do Colégio Sidarta de Cotia, SP



 
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