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Edição 1893, 23 de fevereiro de 2005

Ciências Humanas e suas Tecnologias – Geografia

Uma plataforma não deixa o
Havaí ser aqui. Conte à turma

Ensine por que o litoral brasileiro não apresenta as ondas gigantes encontradas nas mecas do surfe

 

Divulgação Chris Van Hennep
Cena de Surf Adventures, o Filme: a “invenção da praia” popularizou o esporte


“Pablo Paulino”, pág. 89 de VEJA

Três aulas de 50 minutos


Ondas marinhas e surfe


Construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para compreender processos histórico-geográficos


Comparar e compreender as diferenças entre as ondas dos litorais brasileiro, australiano e havaiano

Na canção Menino do Rio, Caetano Veloso de certo modo resumiu a pauta de reivindicações da moçada do surfe: “O Havaí seja aqui”. Mas esse desejo, claro, não se realizou e os surfistas brasileiros devem seguir a trajetória de Pablo Paulino, que se sagrou campeão mundial na categoria júnior em águas distantes. Entrevistado na seção Auto-Retrato, o atleta de 17 anos narra o que significa praticar um esporte no qual os meninos do Rio, de Floripa, de Fortaleza e de outros trechos da costa brasileira têm pouca tradição. Esse quadro poderia ser diferente? Por que a terra das palmeiras não é, também, o litoral das ondas gigantes? Por que o Havaí e a Austrália, mecas do surfe, não são aqui? Use essas indagações, motivadas pela entrevista, para examinar com a turma a formação das ondas e sua relação com o relevo litorâneo e submarino.

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Pierre Tostee / Getty Images
Havaí, novembro de 2002: onda gigante na baía Waimea, no litoral da ilha de Oahu

Exercícios e outras atividades

Conte que no século XX ocorreu um fenômeno que alguns historiadores chamaram de “invenção da praia”. Esta passou a ser um ambiente especial e atraente, um espaço de lazer, de uso do tempo livre. É nessas áreas costeiras que vem se difundindo a prática do surfe, divulgada por Hollywood desde os anos 1960. Proponha que a moçada faça um levantamento e realize, na escola, um festival de filmes sobre surfe.

Sugira a montagem de um painel com aspectos de praias consideradas paraísos dos surfistas, com base nas informações apresentadas a seguir.

Temos no mundo 262.000 quilômetros de litoral, mas somente em alguns locais as ondas apresentam boas características para o surfe. Quais elementos agem sobre uma onda, definindo seu tamanho, sua força e sua intensidade?

Lembre que as ondas oceânicas são um fenômeno físico de transporte de energia, a qual se incorpora à massa liquida de formas diversas, sendo que a principal delas é o vento. As melhores condições para a prática do surfe incluem ventos constantes que soprem do continente para o mar, contribuindo para que as ondas sejam mais elevadas. Quanto maior a velocidade do vento que incide sobre as águas oceânicas, maior será, potencialmente, a altura das vagas. Mas o resultado final também depende de outros fatores. Por exemplo, o atrito das águas no soalho oceânico (o fundo do mar) – que por sua vez pode ter vários formatos e profundidades – interfere na natureza da onda.

Adam Pretty / Getty Images
Imagem comum no litoral australiano: a arrebentação parece perseguir o surfista

A onda boa para a prática do surfe é a da arrebentação, aquela que atrita com a costa litorânea. Em alto-mar, onde a profundidade é grande, as ondas são irregulares. No entanto, à medida que se aproximam da costa, ocorre um fenômeno chamado refração, que dá a elas forma e direção. Sabemos que a constituição de uma praia assim como o modelado da costa são em boa medida produto dessa “arrebentação” das ondas. Mas o modelado resultante vai por sua vez repercutir sobre a natureza das vagas. Na verdade, podemos até dizer que a linha da costa ajudará a definir como as ondas chegam até a praia. Uma costa articulada, com um grande número de baías e golfos, oferece locais para ancoradouros, mas suas praias não costumam agradar aos surfistas. Ao contrário, praias abertas para o oceano, mais retilíneas, permitem que as águas aproveitem melhor a energia eólica, pois há maiores espaços sem atritos superficiais e laterais que diminuam sua velocidade e seu porte. Isso explica em parte por que, numa mesma região litorânea, existem praias de “melhores” e de “piores” ondas. É o caso do litoral norte de São Paulo, com praias para famílias, mais calmas, e outras de surfistas.

Essas características são encontradas nas praias havaianas? Ensine que o berço do surfe é um arquipélago vulcânico distante das áreas continentais, fortemente atingido pelos ventos oceânicos. Suas praias são pequenas extensões das ilhas seguidas pela profundeza do alto oceano, diferentemente das praias que se constituem sobre a denominada plataforma continental, de baixa profundidade. Sem essa plataforma mais soerguida o avanço das ondas não encontra obstáculos importantes e elas quebram com toda força e velocidade no litoral e nas bancadas de corais.

Que tipo de soalho oceânico é encontrado nas áreas ideais para o surfe? De modo geral, no que se refere à sua formação submersa, as praias podem ter fundo de areia (mais comum), fundo de pedras (Silveira e Joaquina, em Santa Catarina, por exemplo) e fundo de corais, como várias praias da Austrália, do Nordeste brasileiro e do Havaí. Fundos de pedras e de corais são mais estáveis e modificam muito pouco com o movimento das águas. Desse modo, a estabilidade do asoalho oceânico permite que as ondas tenham uma formação constante, mais previsível, como as célebres ondas tubulares de Pipeline, no Havaí. No caso do Nordeste brasileiro, as áreas de fundo de coral, mais estáveis, aliadas à intensidade do vento, resultam em bons picos para o surfe. Só faltava não haver a plataforma continental para termos um Havaí por aqui.

Resta mencionar a inclinação do fundo submerso da praia. As praias preferidas por surfistas são as que têm o fundo pouco inclinado. Nelas, as ondas quebram longe e vêm perdendo força até se tornarem pequenas ondulações na beira. Já nas praias de fundo inclinado (as denominadas praias de tombo, comuns no litoral norte paulista), as vagas quebram perto da faixa de areia e com violência.

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Roberto Tanaka
Praia da Joaquina, na capital catarinense: paraíso do surfe no sul do Brasil

 

Para saber mais

Dos reis à galera da prancha

Quando os europeus chegaram ao Havaí, no século XVIII, surpreenderam-se com a imagem abaixo, dos nativos que cortavam as águas de pé, sobre grandes e pesadas pranchas de madeira. Essa versão original do surfe só podia ser praticada pelos reis e suas famílias, mas é bem provável que os plebeus das ilhas dessa época distante também dropassem.

No século XX, o surfe passou a injetar adrenalina nas praias de todo o mundo. Primeiro nos Estados Unidos e na Austrália, onde o esporte dos reis do arquipélago tornou-se esporte nacional. E, em seguida, no resto do planeta.

No Brasil, as primeiras pranchas, pesadíssimas, chegaram na década de 1930. Depois, os equipamentos e a galera se naturalizaram, embora a tribo das ondas utilize um idioma com fortes raízes no inglês (dropar, swell, hang loose, big rider são alguns exemplos). Hoje, embora o Havaí, a Austrália e a Califórnia definitivamente não sejam aqui, surfistas como Teco Padaratz, Pablo Paulino e Carlos Burle mostram que os brasileiros já são do ramo. Este último foi campeão mundial de ondas grandes em 1998, no México, e venceu o XX Big Wave Awards de 2002, ao surfar na Califórnia uma onda de 68 pés – cerca de 20 metros.

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Aula sugerida por Fernanda Padovesi Fonseca, professora de Cartografia e Geografia Física do Centro Universitário UniFieo, de Osasco (SP)

 
 
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