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A CRISE. Com a Bênção de Deus
Tempo estimado
Três aulas
Conteúdos
Reforma, pontificados de João XXIII e João Paulo II
Habilidades
Compreender alguns dilemas vividos pela Igreja Católica na época da Reforma e ao longo do século XX

Edição 2086, 12 de novembro de 2008

Ciências Humanas e suas Tecnologias - História
Em Deus confiamos

Mostre aos alunos que, ao longo de sua história, a Igreja Católica teve de conciliar uma atuação espiritual com a defesa de seus interesses materiais

A profissão de fé que dá título a esta aula é bem conhecida — especialmente porque sua versão em inglês, In God We Trust, está estampada nos dólares americanos. Esse é um aspecto que reforça a análise de Millôr Fernandes sobre os laços entre a religião e o capitalismo, agora mergulhado em séria crise. Use o texto como ponto de partida para resgatar junto aos alunos um pouco da história da Igreja Católica na época da Reforma Protestante e examinar alguns dilemas do catolicismo contemporâneo.

Atividades
1ª aula – Solicite aos estudantes uma pesquisa sobre a Reforma Protestante e seus principais líderes, Martinho Lutero e João Calvino. Eles devem, nesse trabalho, analisar a conjuntura da Europa no período da reformulação religiosa, destacando os aspectos políticos, econômicos e sociais que levaram àquele movimento. Após essa pesquisa, encarregue-os de elaborar um quadro comparativo abordando as idéias dos principais reformistas.

A moçada verificará que a Reforma teve início na Alemanha no século XVI e foi liderada por Martinho Lutero. Ao pregar 95 teses de sua autoria nas portas da catedral de Wittenberg, ele protestou contra diversos pontos da doutrina e da prática católicas. Lutero propôs, inicialmente, correções de rumo na Igreja de Roma. Um dos aspectos mais criticados era a venda de indulgências, que celebrizou personagens como o dominicano Johann Tetzel. Como era de se esperar, o teólogo alemão foi duramente perseguido pela Igreja Católica, que chegou a excomungá-lo.

Hulton Archive/GettyImages
O CONTESTADOR Lutero afixa suas teses sobre reforma religiosa na catedral de Wittenberg: a cristandade ocidental se divide

 

A transformação proposta por Lutero era baseada nos seguintes princípios: somente a fé levaria o homem à salvação de sua alma (o que descartava a entrada no paraíso pela compra de indulgências); a livre interpretação dos escritos sagrados (o que o fez traduzir a Bíblia do latim para o alemão); e a idéia de que a redenção ocorre exclusivamente por Cristo, e não por seus intermediários como pregavam os católicos.

Também líder da Reforma e fundador da Igreja Protestante na França, Calvino aceitava a teoria de que a salvação se dá pela fé, mas insistia em que existem sinais exteriores que podem dizer se alguém está predestinado a ser salvo ou não. Para Calvino, a idéia da predestinação está amparada no princípio agostiniano da onisciência divina: “Deus tudo sabe e tudo vê. Sendo assim, Deus sabe, desde sempre, quem vai ser destinado à salvação ou à condenação”.

Entre os indícios da predestinação estaria a riqueza acumulada como resultado do trabalho. Para Calvino, o capital, o crédito e o comércio são desejados por Deus. O comerciante que procura o lucro por meio das qualidades exigidas para o êxito econômico — trabalho, sobriedade, frugalidade e ordem — corresponde também ao apelo de Deus e, portanto, sua ação é santificada. Calvino justifica plenamente a moral burguesa, encorajando o trabalho e o lucro. Ou seja, naquele momento, era o protestantismo que tecia laços com o capitalismo nascente; a presença do In God We Trust nos dólares pode ser vista como uma herança dos puritanos, a versão inglesa dos calvinistas. Ao mesmo tempo, sendo moralmente muito rígido, quando organizou uma comunidade seguidora de seus princípios em Genebra, na Suíça, Calvino proibiu as festas, os bailes e os jogos de cartas, além de recomendar frugalidade nas refeições.

2ª e 3ª aulas – Proponha o exame do movimento conhecido como Contra-Reforma, reação do catolicismo à Reforma Protestante, e da grande assembléia católica do século XX, o Concílio Vaticano II. No final, os jovens podem produzir textos sobre as principais características da Igreja Católica durante a Contra-Reforma e na época contemporânea.

Para orientar as atividades, conte que o Vaticano lançou mão de uma série de medidas para conter o avanço da religião reformada, entre elas o reaparecimento do Tribunal do Santo Ofício, ou Santa Inquisição, para julgar e perseguir os que se colocavam contra a doutrina católica, e a criação de uma relação de livros proibidos aos devotos, o Index Librorum Prohibitorum. A Santa Sé convocou também um concílio, que se reuniu na cidade de Trento entre 1545 e 1563 e adotou medidas para corrigir alguns abusos. Mas a conseqüência mais importante do Concílio de Trento foi o fortalecimento da autoridade do papa, que, a partir de então, passou a ser visto como infalível em assuntos religiosos, tendo a palavra final sobre os dogmas da fé.

Hulton Archive/GettyImages

O VENDEDOR O padre dominicano Johann Tetzel foi autorizado pelo papa Leão X a vender indulgências destinadas a arrecadar recursos para a construção da Basílica de São Pedro, em Roma

 

Apresente uma questão: o Concílio Vaticano II tem ressonâncias da Contra-Reforma ou, de certa forma, aproxima-se do movimento de Lutero? Para conduzir a resposta, relate que a grande assembléia, convocada pelo papa João XXIII e realizada entre 1962 e 1965, aprofundou o diálogo da Igreja com o mundo contemporâneo, fundamentando iniciativas como a reforma da liturgia e o uso da língua local na missa, em vez do latim. Já os seus críticos sustentam que a reunião do clero católico pôs em xeque dogmas consagrados e preparou o terreno para doutrinas “perigosas” como a Teologia da Libertação. Seja como for, os sucessores de João XXIII, em especial o papa João Paulo II, conduziram a abertura religiosa em termos bem mais cautelosos e, sobretudo, cuidaram de reforçar a autoridade pontifícia nos planos espiritual e material. Não por acaso, o arcebispo Paul Marcinkus, citado por Millôr, atingiu o auge de seu poder como “banqueiro de Deus” durante o pontificado de João Paulo II. Sugira uma comparação do perfil dos papas João XXIII e João Paulo II e de suas realizações.

Lembre que depois dos escândalos financeiros protagonizados em 1982 por Marcinkus, então diretor do Instituto de Obras Religiosas (o Banco do Vaticano) — com a falência fraudulenta do Banco Ambrosiano, do qual o IOR era o principal acionista —, a Igreja Católica voltou a ter sua imagem maculada pelos casos de pedofilia envolvendo padres e membros do alto clero. Solicite que a garotada investigue quais medidas estão sendo adotadas pelo atual papa, Bento XVI, para evitar esses problemas. Na opinião da turma, essas denúncias atingindo os representantes do catolicismo prejudicam os esforços para conter o crescimento das igrejas neopentecostais no Brasil?

Fotos: AFP
O REFORMADOR O papa João XXIII, impulsionador do Concílio Vaticano II O CENTRALIZADOR João Paulo II reafirmou a autoridade pontifícia no mundo atual

Atividade elaborada por Ricardo Barros, professor do Colégio Paulista, de São Paulo



 
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