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VEJA NA SALA DE AULA
     
 


Edição 1930, 9 de novembro de 2005

Ética e Cidadania

Explique como fazer compras
com responsabilidade social

O consumo consciente mudou a postura das empresas. A turma precisa saber por que isso faz bem ao planeta


“O Salto do Comércio Justo”, pág. 70 de VEJA

Duas aulas de 50 minutos

Responsabilidade social e empresarial. Eis a bola da vez nestes tempos politicamente corretos. Está em xeque aquela velha idéia de desenvolvimento econômico obtido a qualquer preço, bastante comum num passado não muito distante – quando era impensável o uso do poder de compra para interferir nos modelos de produção. Cabia então ao consumidor adquirir o máximo possível de bens, pois todos pensavam que assim estavam garantidas a sustentação da economia e a impulsão do progresso. VEJA informa que uma nova modalidade de compra e venda vem crescendo no Brasil desde 1998: o chamado comércio justo. De acordo com esse conceito, que mistura uma postura ética e uma declaração de amor ao planeta, o consumidor não se importa em desembolsar um dinheirinho a mais por mercadorias cujos fabricantes não cometem abusos trabalhistas ou ambientais. Hoje, por exemplo, alguns selos de qualidade garantem a origem idônea de várias mercadorias: móveis construídos com madeira certificada, sucos de frutas colhidas em plantações que não se valem de mão-de-obra infantil, cosméticos fabricados com sementes cultivadas sem agredir as florestas, bolsas e sapatos de couro vegetal etc. Apresente a novidade aos estudantes e aproveite as dicas deste roteiro de aula para analisar como é possível cobrar – por força do poder aquisitivo – que as empresas obedeçam ao pé da letra à cartilha do sistema fair trade. Não é difícil perceber que todos ganham com isso.

 

Preparação da aula

Com uma semana de antecedência, peça que os alunos providenciem embalagens e rótulos de produtos que incluam mensagens ou selos relacionados aos cuidados ambientais ou trabalhistas. Acesse com a moçada os sites indicados no final desta aula, onde é possível conhecer instituições internacionais que distribuem selos de qualidade e empresas e produtos ligados ao chamado consumo consciente. Faça cópias do quadro da página ao lado e distribua entre os adolescentes.

 

Antes da leitura de VEJA pelos alunos

Lance algumas questões para identificar a postura da garotada sobre o tema. Quem presta atenção nas mínimas informações apresentadas nas embalagens das mercadorias? Isso é levado em conta na hora de decidir uma compra? Alguém deixaria de adquirir um tênis, por exemplo, se soubesse que seu preço só é mais baixo que o dos demais porque o calçado é resultado de trabalho escravo? Se levar o tênis mesmo tendo conhecimento do problema, o consumidor também passa a ser responsável pela exploração ilegal de mão-de-obra? Ou, por não se envolver diretamente no processo, ele não tem nada com isso? Alguém da classe utiliza cadernos feitos com papel reciclado? Anote os comentários no quadro-negro e passe em seguida à análise da reportagem.

 

Para debater

Observe a reação de todos ao concluir a leitura do texto. Comente que a discussão sobre responsabilidade social e empresarial começou quando nos demos conta de que os padrões de produção e consumo mundiais atuais são insustentáveis. É o que mostra a reflexão da primeira-ministra norueguesa, reproduzida no quadro ao lado. Informe que a ONU, em documento de 1998, diz que a vida humana é fundamentalmente alimentada e sustentada pelo consumo. A abundância desse, ao contrário do que reza o senso comum, não é crime. O maior percalço são seus padrões e efeitos atuais, que obrigatoriamente devem ser alterados para fazer progredir e garantir o desenvolvimento no futuro. Pergunte se alguém vê ligação entre o nível de consumo atual e as catástrofes que têm assolado o planeta nos últimos meses. Será que o aquecimento global, por exemplo, é fruto da euforia com a qual as pessoas vão às lojas sempre que surge uma novidade nas prateleiras? Ou essa relação é pura especulação dos engajadíssimos ecochatos?

Ouça os comentários e conte que é nesse contexto de mudanças que surgiu, por parte de produtores e consumidores, a discussão sobre os chamados produtos politicamente corretos, abordados pelo fragmento da Agenda 21, aprovada na Conferência Rio 92 e citada ao lado. Empresas mais conscientes do próprio papel perceberam que existe um mercado ávido por produtos certificados. Elas procuram suprir rapidamente tal demanda. Organizações internacionais, por seu turno, trataram de conceder selos de qualidade que as associam aos “itens do bem” nas gôndolas de supermercados. Mas uma dúvida paira no ar: a distribuição e o uso dos selos configuram uma estratégia de marketing e uma busca de novos mercados ou estamos diante de uma mudança real de posturas e práticas por parte do setor empresarial? Um fato é inegável: iniciativas como a distribuição de chancelas da Fairtrade Labelling Organization, mencionada por VEJA, e do Forest Stewardship Council, estampadas em produtos como papel, móveis e carvão, fabricados com madeira certificada, já são um grande passo na defesa do meio ambiente. Incentive a turma a pensar seriamente nessa atitude e fazer dela uma rotina na hora de ir às compras.

 

Para ler e pensar

Consumo e recursos naturais

“Uma pessoa comum na América do Norte consome quase 20 vezes mais que uma na Índia ou China; e 60 ou 70 vezes mais que uma pessoa de Bangladesh. É simplesmente impossível para o mundo sustentar um padrão ocidental de consumo para todos. De fato, se 7 bilhões de pessoas fossem consumir tanta energia e recursos como nós do Ocidente fazemos hoje, necessitaríamos de dez mundos e não apenas de um para satisfazer todas as nossas necessidades.”

Gro Harlem Brundtland, primeira- ministra da Noruega, na reunião da Comissão de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas em 1994


“O surgimento de um público consumidor mais consciente do ponto de vista ecológico em vários países, associado a um maior interesse de algumas indústrias em fornecer bens de consumo mais saudáveis ambientalmente, constitui acontecimento significativo que deve ser estimulado. Os governos e as organizações internacionais, junto com o setor privado, devem desenvolver critérios e metodologias de avaliação dos impactos de suas ações sobre o meio ambiente e das exigências de recursos durante todo o ciclo de vida dos produtos. Os resultados das avaliações devem ser transformados em indicadores para informar o consumidor na hora da decisão.”

Trecho da Agenda 21, documento aprovado na Conferência Rio 92


O site www.negocios.org.br apresenta ações para viabilizar o desenvolvimento sustentável em organizações comunitárias, micro, pequenas e médias empresas
O endereço www.akatu.org.br traz informações sobre o consumo consciente


Aula desenvolvida por Marcelo Gomes Sodré, professor de Direito das Relações de Consumo da Faculdade de Direito da PUC-SP

 
 
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