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VEJA NA SALA DE AULA
     
 


Edição 1908, 8 de junho de 2005

Interdisciplinar – Literatura e Cultura

Ensine que nem todo texto
picante precisa ser pornográfico

Explore trechos de escritos eróticos de Machado de Assis e Gregório de Matos. A moçada não vai ficar indiferente

Divulgação
Dominique Swain e Jeremy Irons no filme Lolita, de Adrian Lyne, inspirado no romance de Vladimir Nabokov: erotismo polêmico


“O Sexo e as Letras”, págs. 104 e 105 de VEJA

Duas aulas de 50 minutos


Literatura erótica


Dominar a norma culta da Língua Portuguesa e fazer uso da linguagem literária


Analisar as características do gênero literário erótico em diferentes épocas

Safo, Aristófanes, Petrônio, La Fontaine, Baudelaire, Paul Valéry, Marquês de Sade, Henry Miller, Boccaccio, D. H. Lawrence, Nabokov, Gregório de Matos, Machado de Assis, Caio Fernando Abreu, Hilda Hist. É mesmo longa e estrelada a lista de escritores que recorreram ao erotismo para deixar seus textos deliciosos – e muitas vezes quase impublicáveis. VEJA revela que 38 obras picantes de alguns desses mestres, todas ricamente ilustradas, foram selecionadas entre o acervo da biblioteca do Museu Castro Maya, no Rio de Janeiro. Elas vão compor uma mostra sobre a relação entre arte e erotismo ao longo do tempo. A resenha sobre a exposição dá o mote para você listar características marcantes da chamada literatura erótica e explicar o que a torna diferente dos escritos pornográficos. A discussão ainda pode ser enriquecida com textos lascivos. Este plano de aula inclui diversos exemplos.

 

Preparação da aula

Providencie um exemplar da Bíblia e leve para a classe. Faça cópias dos quadros abaixo e distribua para os estudantes. Deixe disponível um computador ligado à internet para a turma realizar as pesquisas aqui sugeridas.

 

Para debater

Oriente a leitura da reportagem e explique à moçada que o erotismo é um tema universal tão antigo quanto a própria humanidade. Destaque as obras e os autores citados no primeiro parágrafo do texto. No caso da Bíblia, lembre como termina a história de Adão e Eva. Será que a nudez dos personagens pode ser considerada um elemento erótico? Por quê? Ressalte que, inspirados nesses escritos, pintores, escultores, dramaturgos, coreógrafos e cineastas elaboraram suas obras e, com isso, cristalizaram no imaginário universal histórias de amor tórridas, como a vivida pela ninfeta Lolita, criação do russo Vladimir Nabokov. Mesmo censurado, o romance conquistou o mundo e foi adaptado para o cinema duas vezes.

Conte que 15 séculos antes de Cristo, num poema religioso indiano intitulado Rig Veda, era possível ler: “E o homem deseja a mulher / Tão naturalmente / Quanto a rã sedenta deseja a chuva”. O que os jovens pensam desse trecho? Ouça os comentários e investigue o que eles sabem sobre erotismo. Explique que a expressão tem origem na palavra grega Eros, nome do deus alado do amor, representado freqüentemente com os olhos vendados e munido de arco, flechas e carcás.

Pergunte se erotismo e pornografia podem ser considerados sinônimos. Conte que para o escritor francês André Breton pornografia nada mais é do que o erotismo dos outros. Deixe que os alunos pensem nesse conceito e estimule a leitura da entrevista que a escritora brasileira Betty Milan concedeu sobre o tema. A conversa foi reproduzida no site indicado no final deste roteiro.

Pica-Flor
(Gregório de Matos)

A uma freira que satirizando
a delgada fisionomia do poeta
lhe chamou "Pica-Flor"

Se Pica-Flor me chamais,
Pica-Flor aceito ser,
Mas resta agora saber
Se no nome que me dais,
Meteis a flor que guardais
No passarinho melhor!
Se me dais este favor,
Sendo só de mim o Pica,
E o mais vosso, claro fica,
Que fico então Pica-Flor.


Extraído de Obras Completas, Ed. Record, tel. (0_ _21) 2585-2000

 

Exercícios e outras atividades

Lance mão da Bíblia e peça que a turma compare as seguintes metáforas, extraídas do livro Cântico dos Cânticos.

Descrição da amada:

“Teus cabelos são como um rebanho de cabras,
esparramando-se pelas encostas do Monte Galaad
Teus dentes são como um rebanho de ovelhas tosquiadas,
recém-saído do lavadouro:
cada um com seu par, sem perda alguma”.

Descrição do amado:

“O meu amado é franco e corado
Inconfundível entre milhares:
a cabeleira é como leques de palmeira
Seus lábios são como lírios
Seu corpo é marfim lavrado,
recoberto de safiras
Suas pernas são colunas de alabastro”.

Explore o erotismo das duas passagens e compare-as com a que o famoso conquistador e escritor italiano Giácomo Casanova fez no século XVIII de Madame Baret, uma de suas personagens: “Os olhos eram grandes e luminosos. As longas pestanas caídas dando-lhe um ar de recato e, ao mesmo tempo, de volúpia; aquela boca, de dentes esplêndidos, sempre sorridente, a estonteante brancura da pele; a agradável expressão atenta com que sabia ouvir o que lhe diziam; a voz límpida”.

Apresente alguns exemplos da literatura erótica produzida no Brasil. Primeiro, leia e analise com os jovens a décima de Gregório de Matos e o trecho do conto de Machado de Assis, transcritos neste plano de aula. Ressalte que o poema do Boca do Inferno foi produzido no período barroco. Já o conto, considerado um dos mais eróticos do autor de Dom Casmurro, é da passagem da escola romântica para a realista. Incentive os adolescentes a buscar na internet a íntegra de Missa do Galo e depois ambientar a trama nos dias de hoje. Que figurino teria a balzaquiana Conceição? Será que o jovem narrador seria tão ingênuo?

 

Missa do Galo
(Machado de Assis)

Pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas, as mangas caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muitos claros, e menos magros do que se poderiam supor. (...) A impressão que tive foi grande. (...) Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:

— Mais baixo! Mamãe pode acordar.

E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido; cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais (...). Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me, e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Conceição disse baixinho:

— Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.

— Eu também sou assim.

— O quê? Perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.

Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.

— Há ocasiões em que sou como mamãe: acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me, e nada.

— Foi o que lhe aconteceu hoje.

— Não, não, atalhou ela.


Extraído de Histórias da Meia-Noite,
Cia. Editora Nacional, tel. 0800-175678

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Bibliografia
História da Literatura Erótica, Alexandrian,
Ed. Rocco, tel. (0_ _21) 2507-2000

Internet
Encontros e Desencontros, Sofia Coppola,
Universal Pictures, tel. (0_ _11) 4689-8789

Internet
O site www2.uol.com.br/bettymilan/entrevistas/08paixao.htm traz as opiniões da escritora brasileira sobre literatura erótica


Roteiro sugerido por Heloísa Cerri Ramos, assessora de Língua Portuguesa do Colégio Sidarta, de Cotia (SP)

 
 
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