Publicidade


 

* Conteúdo exclusivo
para assinantes de
VEJA NA SALA DE AULA
     
 


Edição 1908, 8 de junho de 2005

Ciências Humanas e suas Tecnologias – Antropologia e História

Discuta com a garotada como a
ciência interpreta nosso passado

Conte que o Homo neanderthalensis e o Homo sapiens disputaram a mesma vaga no vestibular da evolução

Ricardo Breda
Pinturas da gruta francesa de Lascaux: criadas
há menos de 20000 anos pelo Homo sapiens


“A Sobrevivência do Melhor Comerciante”, págs. 74 e 75 de VEJA

Duas aulas de 50 minutos


Teorias da evolução humana e pesquisas arqueológicas


Relacionar informações e conhecimentos disponíveis em situações concretas para construir argumentação consistente


Compreender de forma crítica o que são a arqueologia, a antropologia e o debate das descobertas científicas pela sociedade

A reportagem sobre a extinção do Homo neanderthalensis informa que um grupo de economistas propôs a existência do livre comércio e da divisão do trabalho como explicação evolutiva para o sucesso do Homo sapiens. Será que algum ancestral remoto do escocês Adam Smith, autor da bíblia liberal A Riqueza das Nações, imaginou algo semelhante, uma espécie de A Riqueza das Cavernas? Basta essa provocação para apontar o risco em se imputar ao passado remoto categorias de pensamento que sequer existiam no início da Idade Moderna. Além disso, não faltam realizações culturais próprias desse longo período, como as magníficas pinturas rupestres realizadas pelo Homo sapiens, o costume de enterrar os mortos – prática introduzida pelo homem de Neandertal – e as ferramentas de pedra criadas pelo Homo habilis, provável antepassado dessas duas espécies, que surgiu na África há cerca de 2 milhões de anos. Seja como for, o texto de VEJA oferece uma excelente oportunidade para você retomar, na sala de aula, a discussão das teorias sobre a evolução humana, enfatizando a necessidade de examinar criticamente esse gênero de material.

Para começo de conversa

Fale que muitas vezes nos deparamos com revelações científicas bombásticas publicadas em revistas e jornais – que depois de algum tempo são contestadas, rejeitadas ou aprimoradas com base no debate em âmbito acadêmico e com a sociedade. Por exemplo, quando uma pesquisa sustenta que comer gordura não é tão ruim quanto outrora se pensava, tal “verdade científica” tem impacto sobre nossas expectativas, podendo até mudar hábitos de consumo. No entanto, depois surgem outros estudos que contrariam essas conclusões e conduzem os leitores a uma opinião mais equilibrada. Será que a pesquisa sobre os méritos evolutivos do livre comércio tem esse caráter de certeza fugaz? Alerte para o risco de tomar como verdade absoluta as teorias científicas divulgadas pela mídia, quando estas ainda são hipóteses sujeitas a desacordo e a polêmica. No caso, o livre comércio e a divisão de tarefas, categorias próprias do Ocidente capitalista, fazem parte da nossa sociedade e do nosso tempo – logo, não são totalmente adequados para analisar a Pré-História.

Para debater

Conte que, ao endossarmos teorias em louvor das vantagens do livre comércio para a evolução, estamos validando uma determinada maneira de viver em detrimento de outras. Coloque em discussão o significado do livre comércio e das diferentes culturas presentes em nosso país. Será que os grupos indígenas são menos evoluídos porque as trocas de objetos entre eles não se realizam do mesmo modo que entre os “brancos”? Ensine que uma pesquisa como a mencionada por VEJA, se não for avaliada com cuidado, reforçará preconceitos em relação a culturas e formas de organização social diferentes.

National Geographic Channels International/ Divulgação
Círculo de Stonehenge, na Inglaterra:
construção megalítica de cerca de 5000 anos

Exercícios e outras atividades

DUm jeito de conduzir a turma à compreensão da diversidade de teorias sobre a evolução humana consiste em organizar um exercício com revistas, jornais e conteúdos da internet. Reúna um bom número de materiais sobre o tema da aula e encarregue a moçada de buscar informações tendo como base essas notícias. Por exemplo, leve-os a identificar os diferentes sítios arqueológicos no mundo, distinguindo aqueles referentes ao Homo habilis, os dos neandertais, os do Homo sapiens etc. Fundamentado nesses materiais, tente reconstruir uma ou mais versões da evolução do homem, atentando para as diferenças entre cada teoria noticiada. Explore como a arqueologia funciona como um quebra-cabeça e sugira que os estudantes tentem juntar as peças das diferentes notícias.

Proponha o traçado de uma linha do tempo com os diferentes grupos considerados ancestrais do homem moderno, tais como Homo habilis, Homo erectus e Homo sapiens neanderthalensis. Peça que seja enfatizado o significado desses nomes, de acordo com as características de cada grupo: o andar ereto, a capacidade de manipular ferramentas etc. Sugira ainda o traçado de um esquema da difusão dos grupos humanos, originários da África.

Organize uma visita virtual a sítios arqueológicos brasileiros – como os de Lagoa Santa, em Minas Gerais, os de São Raimundo Nonato, no Piauí, e os sambaquis do litoral sul de São Paulo. Explique que, em geral, as teorias são elaboradas com base nos artefatos encontrados e mostre os objetos em suas condições iniciais. Qual a ligação entre os artefatos? Como são feitas inferências a partir deles? Como inserir os objetos numa teoria mais abrangente? Todas essas são questões importantes a ser levantadas.

Lembre que muitas hipóteses científicas, quando divulgadas e tornadas públicas, podem facilmente tomar o ar de verdades absolutas. Proponha o exame desse papel que a ciência possui, de formadora de opiniões e convicções. Peça que os alunos, à medida do possível, tragam para a escola vários tipos de polêmica em torno de determinada teoria ou notícia de descoberta científica, para mostrar que há debate e desacordo a respeito da “verdade”, mesmo entre os cientistas.

Os jovens podem examinar, por exemplo, a controvérsia entre os criacionistas, que defendem a explicação bíblica para o nascimento da humanidade, os evolucionistas, que defendem a teoria de Darwin da evolução humana no decorrer de milhões de anos, e os partidários do “desenho inteligente”, que tentam aplicar um verniz sofisticado e “científico” ao velho criacionismo. Procure levar os estudantes a perceber como essa disputa é repleta de matizes políticos e tem a capacidade de interferir na forma como nós consideramos a história do mundo e do homem.

Para saber mais

Evolução tecnológica

Ao longo de centenas de milhares de anos, foram usados pontas de lança, raspadores e machados de mão feitos de pedra lascada. Depois esses instrumentos deram lugar a outros mais elaborados, como os martelos de pedra polida e cabo de madeira.

Período paleolítico
Ponta
de lança
Raspador
Machado
de mão

 

Período neolítico
Cabeça de martelo

topo


Aula desenvolvida pelo antropólogo Marko Synésio A. Monteiro, professor do Senac-SP

 
 
menu
copyright © 2008. Editora Abril S.A. Todos os direitos reservados.