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Edição 1946, 8 de março de 2006

Linguagens e Códigos e suas Tecnologias – Literatura

Caio Abreu: leitura obrigatória

O autor de Morangos Mofados foi um rebelde dentro e fora do âmbito literário. Investigue suas motivações

Nellie Solitrenick
Casaco e chapéu escuros: judeus azkenazis ortodoxos passeiam pelas ruas da capital paulista

 


"Caio, Amado Amigo", pág. 20 de VEJA

Duas aulas de 50 minutos


Literatura contemporânea brasileira; Caio Fernando Abreu


Conhecer a importância literária de Caio Fernando Abreu

Num depoimento comovente, a escritora Lya Luft homenageia o colega de ofício Caio Fernando Abreu, "justamente celebrado nestes dez anos de sua morte". Seus alunos conhecem os textos desse contista, cronista e dramaturgo gaúcho? Explore o artigo de VEJA como estímulo para a garotada descobrir de que forma o autor de Morangos Mofados rompeu com padrões temáticos e estilísticos.

 

Para começo de conversa

Depois de partilhar com a moçada o conteúdo do quadro abaixo, que tal convidá-la a pesquisar, na internet, detalhes sobre a vida e a obra de Caio Fernando Abreu? É oportuno que o levantamento inclua sua bibliografia completa. E, para que ocorra uma contextualização histórica, a busca pode se estender a outros escritores significativos que despontaram nos anos 1980 — caso de Marcelo Rubens Paiva.

 

Para debater

Concluída a leitura do artigo, discuta o último parágrafo, síntese da tese de Lya Luft: "Mas está comigo, como outros seres amados que se foram sem realmente partir". Na frase, a ensaísta se refere ao amigo perdido ou ao contista falecido? Em que medida o Caio escritor é revelado no texto?

Comente a biografia do autor. Sob que aspectos ele manifestou seu inconformismo dentro e fora do âmbito literário? Suas atitudes na vida pessoal eram coerentes com aquilo que Caio escrevia? Que assuntos abordou com ineditismo? O que mais chama a atenção em seu vocabulário e no modo como encadeia idéias? Por que a repressão da ditadura militar o perseguiu? Onde ele se refugiou? Com a ajuda de quem?

Divulgação
Contos, crônicas e peças teatrais
Caio Fernando Abreu faz parte de uma geração de escritores que despontou na década de 1980, propondo temas inéditos e novas linguagens. Levante com a classe a obra completa do autor e pergunte em que seu texto é inovador

 

Atividades

O texto a seguir, em destaque, foi extraído de uma carta de Caio Fernando Abreu. Nela, o contista dá conselhos a um amigo. Um voluntário entre os estudantes pode ler o material para os colegas. Feito isso, peça que a turma ressalte o que o autor fala sobre o ato de escrever e depois analise o processo de criação de Morangos Mofados.

Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente. (...)

E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. (...)

Passei os dias falando sozinho, mergulhado num texto, consegui arrancá-lo. Era um farrapo que tinha me nascido em setembro, em Sampa. Aí nasceu, sem que eu planejasse. Estava pronto na minha cabeça. Chama-se Morangos Mofados, vai levar uma epígrafe de Lennon & McCartney, tô aqui com a letra de Strawberry Fields Forever pra traduzir. Zézim, eu acho que tá tão bom. Fiquei completamente cego enquanto escrevia, a personagem (um publicitário, ex-hippie, que cisma que tem câncer na alma, ou uma lesão no cérebro provocada por excessos de drogas, em velhos carnavais, e o sintoma – real – é um persistente gosto de morangos mofados na boca) tomou o freio nos dentes e se recusou a morrer ou a enlouquecer no fim. Tem um fim lindo, positivo, alegre. Eu fiquei besta. O fim se meteu no texto e não admitiu que eu interferisse. Tão estranho. Às vezes penso que, quando escrevo, sou apenas um canal transmissor, digamos assim, entre duas coisas totalmente alheias a mim, não sei se você entende. Um canal transmissor com um certo poder, ou capacidade, seletivo, sei lá. Hoje pela manhã não fui à praia e dei o conto por concluído, já acho que na quarta versão. Mas vou deixá-lo dormir pelo menos um mês, aí releio – porque sempre posso estar enganado, e os meus olhos de agora serem incapazes de verem certas coisas. (...) Quando terminei Morangos Mofados, escrevi embaixo, sem querer, "criação é coisa sagrada". (...) É misterioso, sagrado, maravilhoso.

Para saber mais

Fora dos padrões

Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu em 12 de setembro de 1948 em Santiago (RS). Mudou-se ainda jovem para Porto Alegre, onde publicou seus primeiros textos. Estudou Arte Dramática e Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Não completou nenhum dos cursos: preferiu dedicar-se ao jornalismo. Ao longo da carreira, colaborou com as revistas VEJA, Nova, Pop e Manchete, editou o jornal de resenhas Leia Livros e tornou-se colunista dos diários Correio do Povo, Zero Hora, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. Considerado um dos principais contistas nacionais, fugiu dos clichês, buscando uma temática própria e uma linguagem fora dos padrões ditos normais.Em 1968, durante a ditadura militar, foi perseguido pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops).

Em 1973, desiludido com os rumos políticos do país, perambulou pela Europa. Esteve em várias cidades da Espanha, então mudou-se para Estocolmo, Amsterdã, Londres — onde escreveu Ovelhas Negras — e Paris. Retornou a Porto Alegre no final de 1974, sem parecer caber na rotina do Brasil dos generais: tingiu os cabelos de vermelho, pendurou brincos imensos nas duas orelhas e passou a vestir batas de veludo cobertas de espelhos. Transferiu-se para o Rio de Janeiro em 1983 e fixou-se em São Paulo dois anos depois. Voltou à França em 1994 a convite da Casa dos Escritores Estrangeiros. Lá escreveu Bien Loin de Marienbad. Em setembro daquele ano, ao saber que contraíra aids, voltou a viver com os pais na capital gaúcha. Morreu em 25 de fevereiro de 1996.

Adaptado do site caio.itgo.com

 

Bibliografia
Morangos Mofados, Caio Fernando Abreu, Ed. Brasiliense. O livro foi posteriormente relançado pela Cia. das Letras e pela Ed. Agir

 

Roteiro sugerido por Heloisa Cerri Ramos, professora e consultora de Língua Portuguesa, de São Paulo

 
 
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