| |

Edição
1946, 8 de março de
2006
Ciências
Humanas e suas Tecnologias História e Cultura
Um
exame dos cinco séculos de judaísmo no país
Acompanhe com os jovens as sucessivas ondas
imigratórias de hebreus, dos cristãos-novos
aos azkenazis ortodoxos
|
Nellie
Solitrenick
|
 |
|
Casaco e chapéu
escuros: judeus azkenazis ortodoxos passeiam pelas ruas
da capital paulista
|

|
|
 |

Judeus
no Brasil e sincretismo cultural


Identificar
aspectos das ondas de migração
judaica para o Brasil |
|
|
Que
imagem seus alunos fazem de um judeu? Alguém vestindo
casaco pesado de lã, chapéu, com barba e cabelos
encaracolados, tais como os religiosos ortodoxos encontrados
em vários bairros da capital paulista? Um soldado israelense,
de solidéu e metralhadora, rezando junto ao Muro das
Lamentações? O texto de VEJA amplia esse leque,
oferecendo o perfil do comerciante semita que desliza em seu
barco pelo coração da Amazônia, reza em
palhoças e utiliza a cachaça em lugar do vinho
nos rituais sagrados.
Na
verdade, os registros da presença judaica no país
são bem anteriores à chegada dos comerciantes
sefarditas focalizados pela revista e mesmo à fundação
da primeira sinagoga das Américas. Em 1503, o cristão-novo
(judeu convertido) Fernando de Noronha enviou barcos para
extrair pau-brasil da terra descoberta por Cabral. Nas décadas
seguintes, a colônia serviu de refúgio para milhares
de cristãos-novos, perseguidos na metrópole
por praticar um catolicismo duvidoso. Siga com os alunos a
trajetória desses imigrantes que contribuíram
com seus genes e sua cultura para a formação
do povo brasileiro.
|
Leo Caldas
|
 |
|
Primeira sinagoga
das Américas: construída no Recife, nos
tempos de Nassau, ela fica na rua do Bom Jesus, antiga
rua dos Judeus
|
Para
começo de conversa
Conte que, em Raízes do
Brasil, o historiador Sérgio Buarque de Holanda escreveu:
"Nosso velho catolicismo (...) nos permite tratar os
santos com uma intimidade quase desrespeitosa". Ele observou
também que "os que assistiram às festas
do Senhor de Bom Jesus de Pirapora, em São Paulo, conhecem
a história de Cristo que desce do altar para sambar
com o povo". Como se vê, além da intimidade
e familiaridade com os ritos religiosos, a passagem indica
a existência de uma incrível mistura entre elementos
dos universos sagrado e profano, público e privado,
mais as culturas européia e africana. Esses cruzamentos
não são novidade no processo de formação
da identidade nacional. Eles já foram e ainda
são bastante debatidos. Mas parece que a variedade
e multiplicação de tais misturas não
cessam e a cada momento surgem histórias inéditas
e inusitadas. É o que revela a reportagem de VEJA.
No lugar do tradicional catolicismo, a revista mostra como
a religião judaica é que passa por processos
de amalgamento, resistência e transformação
cultural. Gilberto Freyre, outro importante e criativo intérprete
da realidade brasileira e contemporâneo de Sérgio
Buarque, já havia apontado em Sobrados e Mocambos essas
misturas que ocorriam nos tempos do Recife de Maurício
de Nassau, "que deixou papistas, judeus e até
negros abusar da liberdade que lhes era concedida. Foi abusando
dessa liberdade que as parteiras da terra deram para batizar
os meninos dos protestantes segundo rito católico e
os judeus, para se reunir publicamente no mercado até
seduzirem cristãos para o judaísmo, os mais
afoitos chegando a circuncidar filhos cristãos".
Portanto, a revista oferece uma
boa oportunidade para você discutir com a garotada,
partindo de outra perspectiva cultural e religiosa, essa dinâmica
da nossa sociedade tão bem retratada por Sérgio
Buarque e Gilberto Freyre.
|
SBT/ Divulgação
|
 |
|
Silvio Santos, nascido
Senor Abravanel: ilustre membro da comunidade sefardita
|
Atividades
O quadro "As
Ondas de Imigração Judaica" menciona
judeus marroquinos, russos e da Europa Oriental. Proponha
que a turma formalize estudos para relacionar esses grupos
às duas grandes divisões étnicas e culturais
do judaísmo: os sefarditas focalizados na reportagem
e os azkenazis. Vale a pena pesquisar as origens e
características dos dois agrupamentos e seus percursos
migratórios na América e no Brasil. A elaboração
de um mapa com esses trajetos pode ser útil. Sugira
a identificação de figuras de destaque das duas
comunidades (o apresentador Silvio Santos, por exemplo, nascido
Senor Abravanel, é judeu sefardita).
Os eventos descritos por VEJA
ocorreram apenas na Amazônia? Encaminhe pesquisas que
ajudem os jovens a responder à questão. Eles
podem se fundamentar no documentário A Estrela Oculta
do Sertão, que focaliza a sobrevivência de costumes
judaizantes em comunidades do sertão nordestino muito
provavelmente criadas por hebreus convertidos. Aqui cabe explicar
que, no período colonial, a presença (ou ausência)
de certos hábitos era utilizada, pelas autoridades
da Inquisição Católica, como traço
identificador de cristãos-novos que retornavam ao judaísmo.
Não comer carne de porco e tomar banho às sextas-feiras
e depois vestir roupa branca eram, entre outras, atitudes
suspeitíssimas... capazes de conduzir alguém
à fogueira.
|
Divulgação
|
 |
|
Cena
de A Estrela Oculta do Sertão, de Elaine Eiger
e Luize Valente: documentário focaliza a sobrevivência
de costumes judaizantes em comunidades do sertão
nordestino
|
Para
debater
Proponha uma discussão
sobre o problema básico do sincretismo. Para isso,
peça que a classe identifique no texto os eventos que
indicam misturas de tradições diversas. Algumas
delas produziram eventos inusitados, como a transformação
do rabino Muyal num milagreiro versão amazônica
do "Padim Ciço". Ao mesmo tempo, nesse quadro
de alternâncias culturais, várias comunidades
procuravam preservar seus hábitos consagrados havia
longa data. De que modo elas atuaram? Procure deixar bem claro
que todo esse jogo de resistências, rupturas, tradições,
conservações e transformações
faz parte do universo cultural, que no Brasil tem dinâmica
muito própria. No final, estimule um debate sobre a
postura da professora Meryam Benessuly, citada na reportagem.
De origem judaica, ela se converteu ao catolicismo. No entanto,
mantém vivos em sua família costumes sefarditas
porque se diz orgulhosa de "pertencer a uma cultura milenar".
Essa posição pode ser aproximada das atitudes
de descendentes de cristãos-novos nordestinos apresentados
em A Estrela Oculta do Sertão, que vêm
redescobrindo sua herança mosaica?
Bibliografia
Imigração:
Cortes e Continuidades, Boris Fausto, em História
da Vida Privada vol. 4, Cia. das Letras, tel. 0800-142829
Filmografia
A
Estrela Oculta do Sertão, Elaine Eiger e Luize
Valente, produção independente, tel. (11) 3032-9231

Aula sugerida
por José Geraldo Vinci de Moraes, professor de História
da USP
|
|