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Edição
1946, 8 de março de
2006
Ciências
Humanas e suas Tecnologias Sociologia
Casamento,
relação banalizada
Duas reportagens ajudam a debater por que
o até-que-a-morte-os-separe está virando mera
retórica
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The
Bridgeman Art Library/Getty Images
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Casamento de Tristão
e Isolda: vitral inglês retrata história
mitológica de um rompimento das regras matrimoniais
ligadas aos interesses de poder e conveniências
financeiras
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Comportamento
social e casamento


Relacionar
aspectos históricos da instituição
do casamento com elementos da vida social
contemporânea |
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Na
história de Tristão e Isolda, um mito celta
de grande popularidade na Europa medieval, os protagonistas
se apaixonam perdidamente um pelo outro após beber
um filtro do amor preparado pela mãe da jovem. Seria
apenas mais um caso de amor não fosse o fato de Tristão,
príncipe bretão, estar escoltando Isolda, princesa
irlandesa, em viagem à Cornualha onde o rei
Marcos a esperava para desposá-la. Contribuiu para
que o trágico enredo se tornasse conhecido o agravante
de que o envolvimento dos jovens nobres quebrava regras dos
casamentos de então, mais ligadas a poder e conveniência
do que a amor e prazer. Rupturas das normas ganharam notoriedade
também na dissolução dos vínculos
conjugais. Um caso marcante é o de Henrique VIII, que
criou a Igreja Anglicana para poder casar-se com Ana Bolena,
em segundas núpcias. Hoje, os casais têm liberdade
bem maior para escolher os parceiros. Muitos, no entanto,
trocam alianças e depois tomam rumos diversos por motivos
banais, frutos das pequenas tiranias cotidianas. É
o que mostram as reportagens de VEJA. Elas destacam alguns
dos principais motivos que levam os cônjuges a separar
as escovas de dentes. Convide a garotada a analisar esses
pontos e relacioná-los com valores contemporâneos.
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Reprodução
Enciclopédia Abril
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Henrique VIII: quebra
dos preceitos católicos e criação
da Igreja Anglicana
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Para
debater
Após a leitura da revista,
verifique o que a turma sabe a respeito da história
do casamento. Quando, aproximadamente, tal doutrina foi instituída?
Que elementos de ordem social e cultural levaram a isso? Que
lições podemos tirar dessa trajetória
para compreender o casamento no contexto da vida moderna?
Explique que o matrimônio
é, fundamentalmente, uma invenção da
era cristã. Por volta do século IV, o cristianismo
foi declarado religião oficial em inúmeras áreas
da Europa. A medida converteu culturas pagãs que praticavam
a poligamia como a germânica e a dos povos escandinavos.
Porém, como lembra o historiador Michel Rouche, a doutrina
do casamento deparou-se também com tradições
que previam uniões consanguíneas e de afinidade
(muitas vezes de ordem política). Tal como na tragédia
de Tristão e Isolda, o amor e o sentimento eram subversivos
a essa ordem. De outro lado, aos olhos dos eclesiásticos,
a libido feminina era considerada perigosa e deveria ser reprimida
duramente. Os ventos da mudança começaram a
soprar por volta do ano 1000, com a proibição
do incesto e a definição de matrimônios
apenas a partir do quarto grau de parentesco. Isso favoreceu
a formação da família nuclear, de tipo
conjugal. Fora da Europa, a extrema diversidade cultural revelou
uma variedade nos rituais e nas regras para o matrimônio
e também no modo de organização social
em torno da aliança. Entre povos indígenas no
Brasil, por exemplo, é comum a mobilização
de todo o grupo para a cerimônia de enlace de um casal.
Vale ainda mencionar o concubinato, que se manteve em muitas
sociedades como no regime escravista colonial brasileiro.
Provoque a classe com questões
do nosso tempo: por que mudou a visão sobre a doutrina
do casamento monogâmico? Quais fatores estão
por trás da insatisfação constante de
muitos casais? Mostre que, sobretudo no período imediatamente
após a II Guerra, verificou-se uma forte mudança
nos costumes sociais, que resultaram, entre outras coisas,
na instituição dos regimes de separação
legal. No Brasil, o desquite, já estabelecido no Código
Civil de 1916, só foi dar lugar ao divórcio
em 1977, após 26 anos de luta do senador Nelson Carneiro
autor da lei ainda em vigor. Antes, porém, em
toda parte ecoou a liberação sexual pregada
por movimentos de juventude, em especial na década
de 1960. A inserção crescente da mulher no mercado
de trabalho e sua maior independência em relação
a figuras como o pai e o marido também contribuíram
para as transformações. Acrescenta-se a isso
a constituição de um modo de vida urbano em
que, bem ou mal, as pessoas passaram a ter mais acesso a informações
e inovações, caso dos métodos anticoncepcionais.
Mas os fatores geradores das
mudanças não pararam aí. Lembre que as
relações sociais foram afetadas ainda pelo estabelecimento
de um modelo de consumo que estimula o desejo insaciável
por novos bens. De alguma forma, esses valores invadem as
relações pessoais, reforçando o individualismo
e mitos em torno do homem e da mulher ideais, amplamente abordados
na literatura, na televisão e no cinema. Prova disso
são os casamentos relâmpagos de celebridades,
que trocam de par a cada pequena desavença, geralmente
desencadeada por motivos fúteis. Essa verdadeira indústria
da felicidade instantânea, própria dos mais abonados,
desaba no momento em que os pombinhos se confrontam com o
desafio cotidiano de construir uma vida a dois. A classe está
de acordo com isso? Peça que todos aprofundem a questão.
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Fotos
Art Films e United Artists
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| Em
Cenas de um Casamento (acima), de Ingmar
Bergman, um casal redescobre o amor após
a separação. Em Noivo Neurótico,
Noiva Nervosa (abaixo), o diretor e ator Woody
Allen revela as crises conjugais de um matrimônio
moderno |
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Atividades
Você pode propor e encaminhar
a execução de uma pesquisa de opinião
sobre o casamento. Resta definir se o público a ser
consultado é a comunidade escolar, do bairro ou de
uma circunscrição mais ampliada. Ajude os alunos
a elaborar um roteiro de questões para explorar itens
como a idade dos cônjuges, as razões que os levaram
à união, as condições socioeconômicas
dos pares e os eventuais motivos que os conduzem à
separação. Auxilie a turma no tratamento dos
dados, procurando verificar pontos como o tempo médio
de duração das uniões. Discuta as conclusões
e encomende uma dissertação sobre o tema, com
base nos contextos da vida urbana moderna.
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Darcy
Trigo
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Nelson
Carneiro: 26 anos em campanha pela aprovação
da lei do divórcio no país
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Bibliografia
Casamento,
uma Invenção Cristã, ensaio publicado
na revista História Viva em novembro de 2005, Ed. Duetto,
tel. (11) 3038-6300

Roteiro proposto
pelo geógrafo Roberto Giansanti, autor de livros didáticos
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