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Edição 1946, 8 de março de 2006

Ciências Humanas e suas Tecnologias – Sociologia

Casamento, relação banalizada

Duas reportagens ajudam a debater por que o até-que-a-morte-os-separe está virando mera retórica

The Bridgeman Art Library/Getty Images
Casamento de Tristão e Isolda: vitral inglês retrata história mitológica de um rompimento das regras matrimoniais ligadas aos interesses de poder e conveniências financeiras

 


"Vale a Pena Consertar" págs. 104 a 107 de VEJA

Duas aulas de 50 minutos


Comportamento social e casamento


Relacionar aspectos históricos da instituição do casamento com elementos da vida social contemporânea

Na história de Tristão e Isolda, um mito celta de grande popularidade na Europa medieval, os protagonistas se apaixonam perdidamente um pelo outro após beber um filtro do amor preparado pela mãe da jovem. Seria apenas mais um caso de amor não fosse o fato de Tristão, príncipe bretão, estar escoltando Isolda, princesa irlandesa, em viagem à Cornualha — onde o rei Marcos a esperava para desposá-la. Contribuiu para que o trágico enredo se tornasse conhecido o agravante de que o envolvimento dos jovens nobres quebrava regras dos casamentos de então, mais ligadas a poder e conveniência do que a amor e prazer. Rupturas das normas ganharam notoriedade também na dissolução dos vínculos conjugais. Um caso marcante é o de Henrique VIII, que criou a Igreja Anglicana para poder casar-se com Ana Bolena, em segundas núpcias. Hoje, os casais têm liberdade bem maior para escolher os parceiros. Muitos, no entanto, trocam alianças e depois tomam rumos diversos por motivos banais, frutos das pequenas tiranias cotidianas. É o que mostram as reportagens de VEJA. Elas destacam alguns dos principais motivos que levam os cônjuges a separar as escovas de dentes. Convide a garotada a analisar esses pontos e relacioná-los com valores contemporâneos.

Reprodução Enciclopédia Abril
Henrique VIII: quebra dos preceitos católicos e criação da Igreja Anglicana

 

Para debater

Após a leitura da revista, verifique o que a turma sabe a respeito da história do casamento. Quando, aproximadamente, tal doutrina foi instituída? Que elementos de ordem social e cultural levaram a isso? Que lições podemos tirar dessa trajetória para compreender o casamento no contexto da vida moderna?

Explique que o matrimônio é, fundamentalmente, uma invenção da era cristã. Por volta do século IV, o cristianismo foi declarado religião oficial em inúmeras áreas da Europa. A medida converteu culturas pagãs que praticavam a poligamia — como a germânica e a dos povos escandinavos. Porém, como lembra o historiador Michel Rouche, a doutrina do casamento deparou-se também com tradições que previam uniões consanguíneas e de afinidade (muitas vezes de ordem política). Tal como na tragédia de Tristão e Isolda, o amor e o sentimento eram subversivos a essa ordem. De outro lado, aos olhos dos eclesiásticos, a libido feminina era considerada perigosa e deveria ser reprimida duramente. Os ventos da mudança começaram a soprar por volta do ano 1000, com a proibição do incesto e a definição de matrimônios apenas a partir do quarto grau de parentesco. Isso favoreceu a formação da família nuclear, de tipo conjugal. Fora da Europa, a extrema diversidade cultural revelou uma variedade nos rituais e nas regras para o matrimônio e também no modo de organização social em torno da aliança. Entre povos indígenas no Brasil, por exemplo, é comum a mobilização de todo o grupo para a cerimônia de enlace de um casal. Vale ainda mencionar o concubinato, que se manteve em muitas sociedades — como no regime escravista colonial brasileiro.

Provoque a classe com questões do nosso tempo: por que mudou a visão sobre a doutrina do casamento monogâmico? Quais fatores estão por trás da insatisfação constante de muitos casais? Mostre que, sobretudo no período imediatamente após a II Guerra, verificou-se uma forte mudança nos costumes sociais, que resultaram, entre outras coisas, na instituição dos regimes de separação legal. No Brasil, o desquite, já estabelecido no Código Civil de 1916, só foi dar lugar ao divórcio em 1977, após 26 anos de luta do senador Nelson Carneiro — autor da lei ainda em vigor. Antes, porém, em toda parte ecoou a liberação sexual pregada por movimentos de juventude, em especial na década de 1960. A inserção crescente da mulher no mercado de trabalho e sua maior independência em relação a figuras como o pai e o marido também contribuíram para as transformações. Acrescenta-se a isso a constituição de um modo de vida urbano em que, bem ou mal, as pessoas passaram a ter mais acesso a informações e inovações, caso dos métodos anticoncepcionais.

Mas os fatores geradores das mudanças não pararam aí. Lembre que as relações sociais foram afetadas ainda pelo estabelecimento de um modelo de consumo que estimula o desejo insaciável por novos bens. De alguma forma, esses valores invadem as relações pessoais, reforçando o individualismo e mitos em torno do homem e da mulher ideais, amplamente abordados na literatura, na televisão e no cinema. Prova disso são os casamentos relâmpagos de celebridades, que trocam de par a cada pequena desavença, geralmente desencadeada por motivos fúteis. Essa verdadeira indústria da felicidade instantânea, própria dos mais abonados, desaba no momento em que os pombinhos se confrontam com o desafio cotidiano de construir uma vida a dois. A classe está de acordo com isso? Peça que todos aprofundem a questão.

Fotos Art Films e United Artists
Em Cenas de um Casamento (acima), de Ingmar Bergman, um casal redescobre o amor após a separação. Em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (abaixo), o diretor e ator Woody Allen revela as crises conjugais de um matrimônio moderno

 

Atividades

Você pode propor e encaminhar a execução de uma pesquisa de opinião sobre o casamento. Resta definir se o público a ser consultado é a comunidade escolar, do bairro ou de uma circunscrição mais ampliada. Ajude os alunos a elaborar um roteiro de questões para explorar itens como a idade dos cônjuges, as razões que os levaram à união, as condições socioeconômicas dos pares e os eventuais motivos que os conduzem à separação. Auxilie a turma no tratamento dos dados, procurando verificar pontos como o tempo médio de duração das uniões. Discuta as conclusões e encomende uma dissertação sobre o tema, com base nos contextos da vida urbana moderna.

Darcy Trigo
Nelson Carneiro: 26 anos em campanha pela aprovação da lei do divórcio no país

 

Bibliografia
Casamento, uma Invenção Cristã, ensaio publicado na revista História Viva em novembro de 2005, Ed. Duetto, tel. (11) 3038-6300

 

Roteiro proposto pelo geógrafo Roberto Giansanti, autor de livros didáticos

 
 
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