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VEJA 1942, 8 de fevereiro de 2006

Ciências Humanas e suas Tecnologias – Geografia e Cultura

Até que ponto a liberdade
de expressão é absoluta?

Examine o efeito das charges de Maomé
nas estremecidas relações Islã-Ocidente


“Choque de Culturas”, págs. 64 a 70 de VEJA
“Nem Deus Salva”, págs. 72 e 73 de VEJA

Duas aulas de 50 minutos


Choque de civilizações: Islã e Ocidente


Examinar os limites da liberdade de expressão e os conflitos decorrentes da publicação das caricaturas de Maomé por jornais europeus

Quando o assunto envolve religião, a lei da ação e reação ganha um enorme multiplicador. Isso se evidenciou mais uma vez com as recentes manifestações no mundo islâmico em resposta às charges com caricaturas do profeta Maomé, publicadas por alguns jornais europeus. A análise de VEJA sobre o incidente traz informações importantes para uma boa reflexão sobre os possíveis desdobramentos de uma importante questão em jogo: a liberdade de expressão. Podemos simplesmente dizer, como o jornal France Soir, que “temos direito de fazer caricaturas de Deus”? Mais que um simples choque de opiniões e crenças, esses fatos podem esconder outros conflitos e interesses.

Para começo de conversa

Durante a leitura das reportagens com os alunos, enfatize alguns trechos e, se necessário, aprofunde a explicação:

1. As caricaturas foram originalmente publicadas na Dinamarca, em setembro de 2005, alguns meses antes, portanto, das reações no Islã.

2. No cerne da revolta islamita está supostamente o fato de os jornais reproduzirem imagens de Maomé, o que é proibido pelos preceitos islâmicos a fim de impedir a idolatria.

3. A fúria das ruas muçulmanas se virou contra o espantalho de sempre, Israel e o Ocidente em geral.

Assinale ainda as diferentes reações que ocorreram no mundo: grande parte dos jornais europeus saiu em defesa da liberdade de expressão e republicou as charges. Essa atitude, no entanto, não foi encampada pelas publicações e pelo governo norte-americanos, que consideraram o ato ofensivo. Lembre que a Europa vive hoje o conflito resultante da imigração, sobretudo de povos islâmicos, que vem suscitando questões polêmicas em diversos países e despertando até a xenofobia.

 

Para debater

Comece a discussão examinando duas questões:

1. A imprensa tem o direito de publicar tais charges?

2. A veiculação feita é uma afronta à religião islâmica?

É provável que as respostas girem em torno de “tem o direito, mas não deve, porque é um desrespeito”, o que relativiza a liberdade de expressão, tida como absoluta nas democracias. Mas é preciso ressalvar também o contexto em que ela ocorre. A publicação da imagem de Maomé por VEJA seria desrespeitosa ou, nesse caso, uma obrigação jornalística? Que diferença há entre veicular caricaturas e o exibir o filme Submissão, do holandês Theo van Gogh? Podemos classificar a película como ofensiva?

Comente a desproporção da reação provocada: boicote ao consumo de produtos dinamarqueses, depredação de embaixadas, sentença de morte ao autor das charges etc. Destaque a generalização absurda que ocorre nesse tipo de conflito, em que se estende a uma nação ou a um povo a responsabilidade por atos isolados. Esse exagero se dá apenas entre os muçulmanos? Peça que a classe levante exemplos de excessos ocorridos fora do Islã. Todo seguidor de Maomé carrega uma bomba no turbante, como uma das charges parece sugerir? Compare as conseqüências nefastas das caricaturas para o mundo árabe com as imagens divulgadas pela mídia que mostram seqüestradores degolando vítimas ou suicidas explodindo hotéis de turistas. Na cultura ocidental, as charges são aparentemente inofensivas, enquanto os ataques terroristas muitas vezes evocam sentimentos de revolta contra o que chamamos de fanatismo religioso. É interessante ressaltar que na base de tudo isso encontra-se, de ambos os lados, a não aceitação da diversidade – um paradoxo em tempos de globalização e também um desafio, como VEJA deixa entrever.

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