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Entrevista: Maurício Funes
Tempo estimado
Três aulas
Conteúdos
História e Geografia da América Central
Habilidades
Identificar alguns aspectos da evolução histórica dos países centro-americanos

7 de setembro de 2009

Ciências Humanas e suas Tecnologias - História e Geografia

Golpes, guerrilhas e bananas

Examine com a turma a trajetória da América Central, tão próxima, porém tão desconhecida dos brasileiros

A entrevista das Páginas Amarelas de VEJA com o jornalista Mauricio Funes, presidente de El Salvador, revela um governante lúcido, consciente da necessidade de conciliar justiça social e estabilidade econômica. Casado com a brasileira Vanda Pignato, uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores, Funes parece inspirar-se no governo Lula – apesar de os adversários o terem comparado, durante a campanha eleitoral, ao "bolivariano" Hugo Chávez.

O presidente salvadorenho expõe na entrevista um ambicioso programa de estabelecimento de laços econômicos com o Brasil. No entanto, faz poucas referências à integração regional, que nos tempos de Bolívar resultou no projeto das Províncias Unidas da América Central, república federativa constituída em 1823 (pelas atuais repúblicas da Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua e Costa Rica) e dissolvida em 1840. Será que ao menos essa parte do legado bolivariano não mereceria ser resgatada? Use a entrevista como base para examinar com seus alunos um pouco da trajetória da América Central.


Atividades
1ª aula – Peça que os estudantes verifiquem num mapa a situação da América Central, ponte entre a América do Norte e a América do Sul, banhada pelo Atlântico e pelo Pacífico. A ligação entre os oceanos é feita pelo Canal do Panamá, mas houve outros projetos para alcançar esse objetivo. Sugira pesquisas sobre o Canal da Nicarágua – uma alternativa que de tempos em tempos volta a ser considerada. Proponha também investigações sobre a abertura do Canal do Panamá e a organização do próprio país.

Para orientar a turma, informe que o Panamá nasceu durante o governo de Theodore Roosevelt, presidente dos EUA (1901-1909), depois que os colombianos recusaram-se a ratificar um tratado que permitiria o aluguel pelos norte-americanos da área onde seria aberto o canal. Roosevelt incentivou e financiou o movimento independentista panamenho, vitorioso em 1903. A Colômbia perdeu parte de seu território, enquanto os EUA ganharam o controle de uma ligação estratégica entre o Atlântico e o Pacífico.

Conte que por muito tempo os estados centro-americanos ficaram conhecidos como "repúblicas de bananas". Avalie com a moçada o que esse termo sugere. Apesar de poder dar a idéia de algo sem valor, comprado ou vendido a "preço de banana", ensine que a expressão tem uma origem histórica definida. Os países da América Central e do Caribe foram influenciados pela americana United Fruit Company, que produzia e comercializava produtos tropicais, principalmente abacaxis e bananas. Essa empresa contribuiu para derrubar governos legitimamente eleitos e colocar em seu lugar ditadores que favoreciam seus interesses. Um caso emblemático aconteceu na Guatemala, em 1954, quando o presidente Jacobo Arbenz tentou desapropriar as grandes propriedades rurais. Diretamente atingida, a United Fruit Company teve papel ativo na derrubada de Arbenz e ajudou a colocar no poder Carlos Castilho Armas, com o apoio do governo dos EUA.

Ressalte que a área de influência da United Fruit não se limitava à América Central. Na Colômbia, em 1928, diante de manifestações de trabalhadores que exigiam melhores salários e condições de vida, a companhia incitou as autoridades locais a reprimirem o movimento. O resultado foi o assassinato de diversos manifestantes, episódio que passou para a história com o nome de “o massacre das bananeiras”.

Em Cuba, a United Fruit foi uma das primeiras empresas a ser nacionalizada pelo governo de Fidel Castro. Ela praticamente controlava a produção de cana-de-açúcar, uma das principais riquezas da ilha.

Em 1969 a United Fruit Company foi comprada pela Zapata Corporation, uma das empresas relacionadas à família Bush, e mudou sua razão social para Chiquita Brands, operando até hoje com esse nome.

Encomende pesquisas sobre a atuação da United Fruit em outros países além dos mencionados nesta aula.


Para seus alunos

A segunda via

Robles/Pingado


Desde o começo do século XX, os projetos para a abertura de um canal na Nicarágua ligando os oceanos Atlântico e Pacífico vêm e vão. Em 2007, o assunto voltou a ser discutido quando o diretor do Instituto Nacional Florestal, Wiliams Schwart, apresentou seus planos e estratégias para defender as florestas do país. Schwart previu a perda total da cobertura florestal nicaraguense em 50 anos, pelo ritmo atual de desmatamento.

Para ele, a construção do canal ajudaria a resolver o problema, porque a empresa responsável se comprometeria a investir em planos de reflorestamento. O presidente Daniel Ortega, no entanto, se posicionou contra a ideia. Ortega alega que o Grande Lago da Nicarágua, maior reserva de água doce do continente, pode ser comprometido pelo tráfego de grandes embarcações.



2ª aula – Comece com um rápido debate sobre o material trazido pelos alunos sobre a United Fruit. Depois, retome a questão salvadorenha. Lembre que Mauricio Funes pertence à Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional, movimento guerrilheiro transformado em partido político em 1992 – após um acordo de paz intermediado pela ONU que pôs fim a 12 anos de guerra civil.

Lembre que, além do atual dirigente de El Salvador, outro chefe de Estado centro-americano foi acusado de "simpatias bolivarianas": o hondurenho Manuel Zelaya, derrubado do poder em 2009. Divida a classe em grupos que pesquisarão a crise hondurenha e as posições dos demais países latino-americanos e dos Estados Unidos sobre a questão. Os resultados da investigação podem ser apresentados na forma de cartazes ou como um seminário.

Explique que o mandato de Manuel Zelaya deveria se estender até 26 de janeiro de 2010. Nessa ocasião, tomaria posse o candidato eleito no final de 2009. Mas Zelaya foi acusado de forçar, no final de junho, a realização de um plebiscito ilegal para encaminhar reformas socioeconômicas e eleitorais. Segundo seus adversários políticos, seria uma mostra da influência do venezuelano Hugo Chávez sobre ele. Grupos conservadores e legalistas recorreram ao Exército, que derrubou Zelaya e o expulsou do país. A maioria dos estados latino-americanos repudiou o golpe militar. Mas o papel dos EUA na questão parece ser vacilante. Ora apoia Zelaya, ora dá sustentação tácita aos golpistas. Não podemos esquecer que o principal investidor em Honduras e maior comprador de produtos hondurenhos são os EUA.

Nos cartazes e no seminário, os jovens podem discutir os prós e contras da recondução de Zelaya ao governo. O dirigente eleito em 2009 terá legitimidade se o presidente constitucional permanecer afastado?

3ª aula – Encarregue os estudantes de investigar os projetos de integração política e econômica da América Central. O ponto de partida deve ser a república federativa formada em 1823 e os fatores que contribuíram para a sua dissolução. Que outros projetos de integração desse período expressaram a ideia de unidade americana defendida por Bolívar? O que aconteceu com eles?

Em seguida, os grupos podem examinar organismos supranacionais como a Organização dos Estados Centro-Americanos, criada em 1951, e o Mercado Comum Centro-Americano, organizado em 1960. Esse órgão tem um dinamismo comparável ao do Mercosul? Também devem ser focalizadas as principais características econômicas da região. Algumas questões instigantes: a existência de economias pouco industrializadas, produtoras de bens primários na maioria dos países centro-americanos atenua ou intensifica a concorrência dentro da região? Quais os efeitos desse fenômeno nos projetos de integração? Qual a variação do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da América Central? Os Estados Unidos ainda exercem grande influência nas ex-repúblicas de bananas? Os resultados dessas pesquisas podem ser debatidos na forma de um seminário.



Aula elaborada por Ricardo Barros, professor do Colégio Paulista, em São Paulo.



 
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