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Edição 1959, 07 de junho de 2006

Linguagens e Códigos e suas Tecnologias - Literatura e Língua Estrangeira

Até a geração dos ficantes sente ciúme

Leve para a classe o monstro que inspirou Shakespeare, Caetano e Machado de Assis


Manual para Entender o Ciúme

Três aulas de 50 minutos


O ciúme em diversas manifestações artísticas


Perceber como literatos, cineastas e compositores exploram em suas obras as expressões do ciúme

A geração dos ficantes, das azarações e dos rolos – das relações transitórias, enfim – sente ciúme? Com certeza. Seus alunos que o digam. Mesmo numa fase da vida em que envolvimentos sucessivos e, em geral, pouco duradouros contribuem para o desenvolvimento emocional e o conhecimento da própria sexualidade, costuma manifestar-se um sentimento de posse em relação ao parceiro. Esse é mais um motivo para utilizar o texto “Manual para Entender o Ciúme” como ponto de partida para focalizar um dos sentimentos mais antigos, sempre presente na literatura e nas demais artes – e até na sala de aula. As atividades propostas a seguir, de caráter interdisciplinar, podem colaborar para o entendimento de produções emblemáticas, criadas por autores tão diferentes quanto William Shakespeare e Sting, Machado de Assis e Caetano Veloso, Chico Buarque e Lupicínio Rodrigues.

Divulgação
O triângulo amoroso do filme Cidade Baixa: da amizade à violência

Atividades

1ª aula - Após a leitura do texto, disponha os estudantes num círculo e pergunte a eles o que é ciúme. Como se manifesta esse sentimento nos envolvimentos muitas vezes fugazes entre adolescentes e jovens? Ficantes sentem ciúme, como se fossem namorados “oficiais”? Isso tem relação com amor?

Solicite que os alunos formem duplas, escrevam e depois comentem frases indicadoras de ciúme. Por exemplo:

  • Onde você estava até agora?

  • Com quem você saiu ontem à noite?

  • Por que você não atendeu o telefone celular?

  • Coloque em discussão as idéias do texto. Duas delas podem ser resumidas nas perguntas:
  • Você concorda que homens e mulheres sentem ciúme, mas reagem a ele de modo diferente?

  • Você admite que um pouquinho de ciúme pode fazer bem?


  • Pergunte a todos o que significa ciberciúme, expressão usada na revista. Verifique se a moçada assistiu aos filmes Proposta Indecente, Harry e Sally e Atração Fatal, citados no questionário de VEJA, ou à fita brasileira Cidade Baixa, lançada em 2005, sobre dois amigos que brigam pelo amor de uma prostituta. Na opinião da turma, qual dessas produções reflete melhor a paixão avassaladora do ciúme? Solicite ainda pesquisas sobre a origem do termo “monstro dos olhos verdes”, empregada para designar esse sentimento tão controverso.

    2ª aula – Proponha um levantamento das referências ao ciúme nas diversas produções artísticas. Conte que, no cinema, os filmes citados neste plano de aula constituem um bom fio condutor. Já na literatura, um destaque é William Shakespeare, que em Otelo enredou uma de suas tramas mais conhecidas. Ressalte como as palavras insidiosas de Iago, invejoso do prestígio militar de Otelo e decidido a substituí-lo como comandante, envenenam o espírito do guerreiro mouro, levando-o a assassinar a mulher, Desdêmona. Outra referência obrigatória é Machado de Assis, autor de Dom Casmurro, um verdadeiro tratado de ciúme. No romance, o autor apresenta o célebre triângulo amoroso formado por Bentinho, o marido; Capitu, a esposa; e Escobar, o amante. Também no conto A Cartomante, Machado descreve o ciúme em seu aspecto mais selvagem: o crime passional.

    No âmbito da música popular brasileira e de outros países, o ciúme tem uma forte presença. Para comprovar isso, distribua cópias dos quadros ao lado, que transcrevem letras de canções de Sting e Caetano Veloso. Lembre que há sentimentos de posse de todas as espécies, manifestos sobre pessoas, lugares e coisas. Debata o tipo de ciúme presente na composição de Caetano.

    Ainda no caso brasileiro, ressalte algumas obras musicais de menção obrigatória, tais como o ícone brega Tenho Ciúme de Tudo, de Orlando Silva – com os versos famosos: “Tenho ciúme do sol, do luar, do mar / Tenho ciúme de tudo / Tenho ciúme até / Da roupa que tu vestes”. Cite Nervos de Aço, do apóstolo da dor-de-cotovelo Lupicínio Rodrigues: “Você sabe o que é ter um amor, meu senhor? / Ter loucura por uma mulher / E depois encontrar esse amor, meu senhor / Nos braços de um outro qualquer”. Também merece destaque Atire a Primeira Pedra, de Ataulfo Alves e Mário Lago: “Atire a primeira pedra, ai, ai, ai / Aquele que não sofreu por amor”. E não deixe de falar de Olhos nos Olhos, de Chico Buarque: “Quando você me deixou, meu bem / Me disse pra ser feliz e passar bem / Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci / Mas depois, como era de costume, obedeci”. A lista é longa, comprovando que o tal monstro dos olhos verdes é hóspede freqüente do cancioneiro popular de nosso país.

    3ª aula – Sob a orientação do professor de Inglês, convide os alunos a traduzir a letra de Every Breath You Take, composta por Sting quando ainda fazia parte do grupo The Police. A versão em português conserva a força e a poesia do texto original? Peça, em seguida, que a garotada relacione a obra estrangeira às canções nacionais listadas acima. Qual delas se aproxima mais dos sentimentos expressos pelo músico britânico? É possível identificar a vigilância obsessiva explicitada por Sting com o ciúme amplo, geral e irrestrito do clássico brega de Orlando Silva?

    Lembre que o noticiário policial está sempre repleto de crimes passionais. Alguns ficaram famosos, como o assassinato da repórter Sandra Gomide pelo ex-namorado e também jornalista Antônio Marcos Pimenta Neves. Sugira que a turma discuta se a possessividade sobre a pessoa amada, presente na canção de Sting, pode conduzir a esse gênero de tragédia. Na opinião dos jovens, é plausível ligar tais homicídios à manifestação de ciúme patológico conhecida como “Síndrome de Otelo”, em referência ao personagem shakespeariano? Conte que, segundo estudiosos, a exacerbação do ciúme pode levar um indivíduo a cometer atos de extrema agressividade física, configurando os episódios que recheiam a crônica policial. “Cena de sangue num bar da avenida São João”, verso de Ronda, de Paulo Vanzolini, é um bom exemplo.

    Para seus alunos

    Polygram
    Sting
    Every Breath You Take

    Every breath you take / Every move you make / Every bond you break / Every step you take / I’ll be watching you / Every single day / Every word you say / Every game you play /Every night you stay / I’ll be watching you / Oh, can’t you see? / You belong to me / How my poor heart aches / With every step you take / Every move you make / Every vow you break / Every smile you fake / Every claim you stake / I’ll be watching you / Since you’ve gone I’ve been lost without a trace / I dream at night I can only see your face / I look around but it’s you I can’t replace / I feel so cold and I long for your embrace / I keep crying baby, baby, please...

    Para seus alunos

    Bob Paulino
    Caetano Veloso
    O Ciúme

    Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia / Tudo esbarra embriagado de seu lume / Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia / Só vigia um ponto negro: o meu ciúme / O ciúme lançou sua flecha preta / E se viu ferido justo na garganta / Quem nem alegre, nem triste, nem poeta / Entre Petrolina e Juazeiro canta / Velho Chico, vens de Minas / De onde o oculto do mistério se escondeu / Sei que o levas todo em ti, não me ensinas / E eu sou só, eu só, eu só, eu / Juazeiro, nem te lembras desta tarde / Petrolina, nem chegaste a perceber / Mas, na voz que canta, tudo ainda arde / Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê / Tanta gente canta, tanta gente cala / Tantas almas esticadas no curtume / Sobre toda estrada, sobre toda sala / Paira, monstruosa, a sombra do ciúme


    Bibliografia
    Dom Casmurro, Machado de Assis, Ed. Ática, tel. (11) 3990-2100

    Filmografia
    Cidade Baixa, Sérgio Machado, Videofilmes, tel. (21) 2556-0810

    Aula sugerida por Heloísa Ramos, professora e consultora de Língua Portuguesa, de São Paulo

     
     
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