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VEJA NA SALA DE AULA
     
 


Edição 1998, 7 de março de 2007

Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias - Biologia

Nem tudo que late é cão

Examine com a classe os percursos evolutivos
do nosso melhor amigo


Que Cachorro É Este?

Duas aulas de 50 minutos


Filogenética e novas raças caninas


Examinar e discutir a evolução
natural e artificial dos cães

Por que o cão é o melhor amigo do homem? A resposta é porque o fizemos assim. Nós, humanos, criamos e misturamos seres vivos desde quando ainda não éramos sedentários nem havíamos desenvolvido a agricultura, mais de 10000 anos atrás. Muito antes de Charles Darwin explicar os mecanismos da seleção natural, em 1859, já se sabia, intuitivamente, da possibilidade de interferir na evolução das espécies. A seleção induzida nos permitiu escolher as características das criaturas resultantes e, hoje, quase tudo o que comemos foi introduzido na natureza por nossos antepassados ou contemporâneos. A nova prática de produção de cães híbridos, anunciada por VEJA, pode ser o trampolim para a classe mergulhar nos mecanismos evolutivos naturais e naqueles que decorrem da nossa interferência.

Norbert Rosing / National Geographic / Getty Images
CANIS LUPUS
Ancestral do cachorro doméstico, o lobo possui outras 13 subespécies, entre as quais o dingo,
e mais duas extintas


Atividades
1ª aula - Tome o cão como exemplo para explicar o mecanismo evolutivo descrito pelo neodarwinismo, enfatizando a importância desse conhecimento para a compreensão dos seres vivos - em Biologia, cada pergunta tem uma resposta evolutiva. Por que as aves voam? Por que os morcegos são dotados de “sonar”? Por que o homem possui um grande cérebro? Registre as alegações da garotada. Analise-as em busca de idéias lamarckistas, tais como herança das características adquiridas em vida, uso e desuso ou evolução em virtude da necessidade de certo organismo. Comente que essas idéias não fazem parte do pensamento evolutivo atual, embora ainda estejam presentes em nosso senso comum. Lembre que até biólogos podem cometer determinados lapsos por economia de discurso, visto que uma justificativa neodarwinista requer algumas frases a mais do que a lamarckista. Depois, se for o caso, proponha que reformulem as respostas, com base nos requisitos de uma explicação neodarwinista:

  • Existência de diversidade genética dentro da espécie, gerada principalmente pelas mutações neutras acumuladas ao longo do tempo;

  • Seleção natural (a maior reprodução dos mais aptos), em que as condições do meio selecionam os genes a cada nova geração; e

  • Renovação da diversidade genética - constantemente reduzida pela seleção natural - feita pelas mutações neutras e secundariamente pela reprodução sexuada e conjugação bacteriana. (Diga que o único modo de genes de uma espécie migrarem para outra, até agora, era por meio de bactérias, na chamada transferência horizontal.)

  • Pergunte, em seguida, por que o cão é o melhor amigo do homem. Caso a classe não compreenda a questão, oriente-a a buscar uma resposta evolutiva. Reproduza e distribua o quadro da página ao lado e estimule a participação de todos, realçando os discursos que remetem, direta ou indiretamente, à seleção artificial. Como seria o cão perfeito para cada um? Conte que agora há mais opções caninas, tema a ser explorado na aula seguinte.

    2ª aula – Leia a reportagem com a turma. Indague se é possível selecionar artificialmente aspectos de personalidade, além dos físicos. Relacione isso com as tendências “psicológicas” encontradas em certas raças, como VEJA assinala. Destaque do texto a idéia de que a personalidade é um critério importante na seleção artificial de cães - deriva, portanto, de um fator genético. Pergunte se os genes determinam nossa personalidade. Ouça os comentários e, caso necessário, explique a noção de que o fenótipo é determinado tanto pelo genótipo quanto pelas interações com o meio. Para exemplificar, observe que não basta ter um animal de raça dócil: é preciso cuidar bem dele.

    Como lição de casa, oriente a elaboração de uma árvore filogenética que descreva as relações evolutivas entre o cachorro, o lobo, o jacaré, o tubarão e o golfinho. Enumere os princípios para a construção dessas árvores.

    3ª aula – Examine as respostas dos adolescentes e verifique se em alguma delas o golfinho está posicionado mais próximo do tubarão do que do cachorro. Aponte as semelhanças entre golfinhos e cães, e as diferenças desses em relação aos tubarões, separando mamíferos de peixes. Revele que o modo de nadar dos golfinhos e das baleias é parecido com a forma de correr dos cães e distingue-se dos movimentos dos peixes. Identifique, no quadro-negro, a árvore filogenética correta.

    Volte, então, à questão da interferência do homem na evolução por intermédio da mistura de organismos diferentes. Brinque, sugerindo cruzamentos absurdos, como rato com elefante, girafa com porco etc., a fim de demonstrar o impedimento pela incompatibilidade física. No entanto, o acasalamento de zebra com girafa ou hipopótamo com rinoceronte seria viável nesse aspecto. Use esse exemplo para explicar que as espécies não se misturam porque existe incompatibilidade genética entre elas. O caso da mula pode valer como referência e oferece um bom gancho para explorar a diferença entre raça e espécie. Os cachorros híbridos configuram raças? A resposta está na reportagem. E as raças humanas, são realmente isso ou somente pequenas diferenças de aparência? Comente as implicações éticas da questão, remetendo a casos extremos como a eugenia desejada pelos nazistas. Para encerrar, esclareça que, em termos genéticos, o que separa as chamadas raças humanas é insignificante.

    Amos Nachooum / The Image Bank / Getty Images
    Stuart Westmorland / Corbis / LatinStock
    PARECIDOS? NEM TANTO
    Tubarões e golfinhos possuem semelhanças,
    mas nadam de forma bem diferente: o movimento dos
    mamíferos marinhos lembra a corrida dos cães

    Para seus alunos

    Longa amizade

    Acredita-se que a domesticação dos caninos pelo homem começou por interesse mútuo. Animais selvagens que se aproximavam dos grupos humanos tinham mais disponibilidade de alimento. Desses, os mais amigáveis aumentavam suas chances de sobrevivência, ao passo que os ameaçadores e ferozes eram espantados ou mortos, como sugere a ilustração ao lado.

    De sua parte, o homem se beneficiava da proteção dos canídeos, que o defendiam do ataque de outros animais e guardavam a caça duramente conquistada. Esse laço entre ambos está em registros que datam de 14000 anos. O cão doméstico descende dos lobos, conforme evidências genéticas mais ou menos recentes. Por isso, sua designação taxonômica inicial, Canis familiaris - baseada em características fenotípicas que incluíam também chacais e coiotes -, mudou para Canis lupus familiaris. A rigor, o cão é um lobo, ou uma raça de lobo. Ambos podem cruzar entre si e produzir descendência fértil. Logo, constituem uma só espécie.


    Mauricio Anton / SPL / Latinstock

     

    Roteiro proposto por Rodrigo Travitzki, professor de Biologia do Colégio Equipe, de São Paulo


     
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