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Edição 1998, 7 de março de 2007

Linguagens e Códigos e suas Tecnologias - Literatura

Hipogrifos e poodogálmatas

Mostre por que os homens usaram atributos
de seres conhecidos para explicar o desconhecido


Que Cachorro É Este?

Duas aulas de 50 minutos


Símbolos, antropomorfismo,
zoomorfismo e antropozoomorfismo


Identificar os atributos de diferentes entidades míticas

Na mitologia grega, Cérbero era um terrível cão de três cabeças, que impedia a saída das almas do Hades, o reino subterrâneo dos mortos, e despedaçava os curiosos que se aventuravam por ali. Se ele fosse um poodogálmata (poodle + buldogue + dálmata), um ancestral do bicho mostrado na capa deste Guia do Professor, talvez se chamasse totó e recebesse afagos nos vários focinhos.

Essa imagem, que provavelmente faria Hesíodo, um dos pais da mitologia grega, se revirar no túmulo, foi baseada na reportagem sobre os cães inusitados, resultantes da mistura de duas raças definidas, e os nomes ainda mais exóticos que eles recebem. É verdade que a seleção natural também serve de inspiração, ao gerar espécies à primeira vista improváveis, como o ornitorrinco. E também é fato que, bem antes de surgirem os labradoodles e puggles mencionados por VEJA, as mais diferentes culturas já reuniam os atributos de seres de espécies distintas para criar entidades míticas, dotadas de poderes sobrenaturais. Proponha um exame dessas figuras híbridas, que em muitos casos foram reverenciados como divindades. Os estudantes vão perceber que os resultados do antropozoomorfismo - característica atribuída aos seres cujo corpo é parte humana, parte animal - são mais estrambóticos do que a versão caricata do temível Cérbero.

Shin Yoshino / Minden Pictures / Latinstock
Ornitorrinco, mamífero australiano que põe ovos, tem
bico de pato e rabo de castor: esse bicho existe?


Atividades

1ª aula
- Lembre que a realidade pode superar a ficção em termos de esquisitice. Ou igualá-la. Exemplo disso é o ornitorrinco, um dos raros mamíferos que põem ovos. Marsupial, ele parece ter bico de pato e rabo de castor. É tão bizarro que, quando o primeiro exemplar foi levado para a Inglaterra, os pesquisadores o consideraram uma fraude! Por que a moçada não apresenta outras designações para o bicho? Que tal pastor, por causa do bico de pato e da cauda de castor? Ele soa mais “viável” do que o grifo, símbolo do poder supremo que soma os atributos da águia e do leão? A discussão a respeito tem tudo para ser divertida.
Depois desse aquecimento, distribua cópias do quadro da página ao lado e oriente a realização das atividades sugeridas - tanto a discussão sobre o porquê do surgimento desses seres míticos quanto a brincadeira das novas designações. Vale a pena pesquisar alguns relatos sobre essas entidades. Para encaminhar a tarefa, verifique de antemão com os alunos o significado dos termos antropomorfismo, zoomorfismo e antropozoomorfismo. Eles podem apontar representantes de cada uma dessas categorias? Esclareça que muitas divindades aparecem com qualidades humanas, animais ou mesmo com misturas pouco prováveis. É o caso de Quetzalcoatl, representado nos mitos, murais e códices maias, toltecas e astecas como uma serpente - ícone da fertilidade - e como homem - iniciador das artes e de todo o conhecimento.
Ressalte que tais figuras híbridas existiram nas mais diversas culturas. A universalidade fornece uma pista sobre os motivos do advento dessas criaturas: por toda parte, na tentativa de apaziguar entidades desconhecidas ou pouco conhecidas, potencialmente perigosas, os grupos humanos recorreram aos atributos de seres conhecidos. Nesse processo, nasceram mitos que, mais tarde, estruturaram valiosas produções literárias. Conhecemos mais de perto as mitologias grega e egípcia, mas os mitos maias e astecas são igualmente ricos.

Essa perspectiva fornece uma nova abordagem para a compreensão de personagens quase antropomórficos. Os anjos, por exemplo, têm uma conformação bem próxima da nossa, mas recebem asas, em referência à origem celeste. Por sua vez, muitos deuses do hinduísmo mostram traços de gente. Porém, a profusão de braços, cada um deles correspondendo a um atributo, evidencia que são entidades de poderes sobre-humanos.

2ª aula – Encarregue os adolescentes de construir o próprio panteão, ou conjunto de deuses. Cada um vai se descrever, por escrito e de maneira detalhada, como um deus ou uma deusa, com suas qualidades inatas, as características antropozoomórficas, o espaço que preside (os bosques, os mares, os campos cultivados etc.), as relações humanas nas quais intervém (a guerra, o amor, a política...) e assim por diante. Deve também indicar seu domínio - o céu, o mar, o plano dos mortos. Além disso, precisa designar, com base em seus atributos, uma entidade de que se sinta próximo e outra que considere rival, sem saber se elas foram criadas por algum colega da sala. Opções não faltam nos textos mitológicos. Por exemplo, a oposição entre Quetzalcoatl e Tezcatlipoca, seu irmão gêmeo e inimigo, pode ser comparada ao conflito entre Seth, assassino do deus egípcio Osíris, e Hórus, decidido a vingar a morte do pai. No final, as aproximações e desavenças entre as “divindades” da classe serão evidenciadas, como supostamente fizeram, no século VIII a.C., Homero, com seus poemas épicos Ilíada e Odisséia, e Hesíodo, com a Teogonia e Os Trabalhos e os Dias.

Esse exercício pode ser desdobrado, em outras aulas, num role playing game - RPG, ou jogo de interpretação de papéis -, com a dramatização, pela garotada, do comportamento das entidades inventadas.
Para saber mais

Em todas as culturas

Examine com seus colegas as imagens deste quadro, que representam deuses e seres híbridos das mais diversas culturas. O hipogrifo (1), que transporta pelos ares Harry Potter e Hermione Granger, é um misto de cavalo e grifo, presente nas lendas medievais; seu ancestral alado, resultante do cruzamento de uma águia e um leão, é encontrado nas mitologias babilônica, suméria e grega. A sereia (2), mescla de mulher e peixe, também tem origem grega. Os dois deuses são o egípcio Hórus (3), de cabeça de falcão, e Quetzalcoatl (4), a serpente emplumada, venerada por astecas, toltecas e maias. Discuta o que levou os diferentes grupos humanos a reunir os atributos de seres de espécies distintas em figuras de poderes sobre-humanos. Vocês podem, ainda, brincar com os nomes dessas entidades, como faz a reportagem de VEJA com as designações dos "cães inusitados". A sereia, por exemplo, poderia ser chamada de mulheixe.


Fotos Warner Bros / Divulgação; Cynthia Hart Designer e Christine Osborne / Corbis / LatinStock; Bridgman Art Lybrary / Getty Images

 

Aula sugerida por Angelo Masson Neto, professor de Lingüística das FIAM, de São Paulo


 
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