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VEJA NA SALA DE AULA
     
 


Edição 1912, 6 de julho de 2005

Ciências Humanas e suas Tecnologias – História e Cultura

Discuta os múltiplos aspectos
associados ao atraso do país

Mostre à turma que o nosso subdesenvolvimento é histórico e tem raízes no processo de colonização


“O Desafio da Complexidade”, pág. 24 de VEJA

Duas aulas de 50 minutos


Sociedade brasileira e seu desenvolvimento


Relacionar informações e conhecimentos disponíveis em situações concretas para construir argumentação consistente


Construir uma compreensão mais rica a respeito das diferenças culturais entre o Brasil e os chamados países desenvolvidos

Quando os colonos portugueses começaram a chegar ao Brasil, traziam consigo um único tipo de machado. Em contrapartida, desembarcava com eles, montada em seu imaginário, uma representação completa dos privilégios da Coroa, continuamente reforçada pela atuação de funcionários civis e religiosos. Mais ainda, esses imigrantes haviam viajado em navios construídos para um empreendimento real – as navegações ultramarinas – e se dedicavam, em terra firme, a ampliar o patrimônio do monarca, finalidade básica da colonização. Ou seja, a presença do rei permanecia dominante.

Essas observações servem de contraponto ao instigante artigo “O Desafio da Complexidade”. Nele, Claudio de Moura Castro enfatiza que uma sociedade capaz de lidar com situações complexas e com a sofisticação tecnológica tem maiores chances de desenvolvimento. É uma afirmação pertinente, mas que não pretende resumir as causas de nosso atraso. Macunaíma, o anti-herói de Mário de Andrade, diagnosticava: “Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são”. Será que teremos de atualizar esse ditado, dizendo “Pouca saúde, muita saúva e um só tipo de machado, os males do Brasil são” ou algo do gênero? Discuta essas questões com os adolescentes, com base no artigo de VEJA e neste plano de aula. É importante perceber que o tipo de machado trazido para cá pode ter sido único, mas as causas do subdesenvolvimento brasileiro são múltiplas e complexas.

Construção naval na Ribeira das Naus: as navegações ultramarinas eram um projeto da Coroa portuguesa

 

Para começo de conversa

Desafie a moçada a dizer o que pensa do atraso nacional. Sugira que cada um escreva um parágrafo sobre o que, na própria opinião, causou essa situação. Cite personagens conhecidos para estimular a conversa, como Caco Antibes, do extinto show televisivo Sai de Baixo. Mostre como essas opiniões fazem parte do nosso dia-a-dia e que, muitas vezes sem perceber, compramos uma versão do Brasil que expressa a crença de estarmos eternamente condenados ao subdesenvolvimento.

Na verdade, as teorias sobre as razões do nosso atraso cultural e econômico diante dos países do Primeiro Mundo fazem parte do nosso imaginário social. Elas estão presentes desde os livros didáticos, quando aprendemos sobre a História do Brasil, até os programas de televisão que tentam fazer graça explorando a situação desigual da nossa população e do nosso país. Tornou-se quase um lugar comum dizer que somos atrasados por esse ou aquele motivo, mas pouco se pensa criticamente sobre as raízes culturais dessas razões.
Procure passar para os jovens o perigo das explicações simplistas para o atraso nacional. Esta aula vai ajudá-los a notar que as explicações para a nossa diferença cultural e de progresso econômico são muitas e partem das mais variadas perspectivas.

Biblioteca Municipal de São Paulo
Personagens da elite no Brasil de dom João VI: os escravos estão integrados ao grupo familiar

Para debater

Discuta com os estudantes como a forma de colonização do país determinou em grande parte as nossas possibilidades de desenvolvimento, tanto sociocultural quanto econômico. Um bom ponto de partida consiste em apresentar mapas históricos dos séculos XVI e XVII. Qual era a situação das principais potências européias? A turma vai perceber que os reinos ibéricos iniciaram o projeto dos grandes descobrimentos no século XV e no século seguinte já dominavam impérios mundiais, enquanto a Inglaterra e a Holanda só iniciaram sua expansão ultramarina no século XVII.

Lembre que a colonização do Brasil não foi realizada por pioneiros, como ocorreu em muitas colônias inglesas da América do Norte, mas sim por uma empreitada da Coroa portuguesa para a produção de açúcar. Como observa Raymundo Faoro, no livro Os Donos do Poder, aqui o Estado precede a sociedade civil. O Brasil colônia fazia parte do patrimônio do rei, sendo dirigido por uma burocracia dotada de numerosos privilégios e de uma larga dose de autonomia. Em tais condições, a própria burguesia mercantil contava pouco e o povo “não contou nunca”.

Ao contrário, nos núcleos da Nova Inglaterra, no nordeste dos Estados Unidos, a colonização foi feita por grupos que fugiam da perseguição religiosa que ocorria na metrópole e tinham, portanto, poucos compromissos com a Coroa. Retome os mapas históricos e aponte a complexa rede de trocas entre os países ibéricos e suas colônias na América e na África, envolvendo até povos asiáticos – caso do comércio de especiarias com a Índia. Nesse mesmo período, as colônias inglesas na América do Norte comercializavam basicamente peles e poucos produtos manufaturados com a Europa. Explique que, na ausência de produtos lucrativos como o açúcar, eles se preocuparam menos em garantir a prosperidade da metrópole e mais em estabelecer uma sociedade autônoma, burguesa e mercantil em sua essência. Enquanto as colônias portuguesas e espanholas enriqueciam suas cortes, tornando esses impérios os principais atores políticos e econômicos do século XVI e boa parte do século XVII, a ascensão da Inglaterra se deu depois disso, com base em uma economia mais voltada à manufatura e ao comércio.

Explore as análises de Gilberto Freyre sobre a sociedade escravocrata, que contribuiu para tornar o Brasil desigual e elitista desde sua origem. Freyre contraria a tese de Claudio de Moura Castro de que a América Latina foi colonizada por povos tecnologicamente atrasados. Portugal, por exemplo, dominava tecnologias de navegação e desenho de mapas que lhe permitiram formar um gigantesco império colonial. Freyre mostra ainda que os escravos trazidos para cá apresentavam, por vezes, excelente formação, em especial aqueles originários de regiões muçulmanas. Alguns sabiam ler e escrever árabe e tinham, possivelmente, mais acesso aos textos da Antiguidade clássica do que muita gente na Europa, pois lá esses escritos começavam a ser redescobertos.

A questão da complexidade social, discutida no artigo de VEJA, pode render mais debates interessantes. Será que, no Brasil, não conseguimos lidar com isso? Quando pensamos, por exemplo, nas dificuldades que enfrentamos todos os dias, como uma montanha de exigências burocráticas para tirar documentos ou fazer uma simples matrícula na escola – herança da colonização portuguesa –, não detectamos um excesso de complicações que tornam a nossa situação menos competitiva? Ou seja, muitas vezes precisamos lidar com situações mais complexas até do que uma pessoa de um país “desenvolvido”, que pode se concentrar mais em trabalhar e produzir.

Biblioteca Municipal Mário de Andrade – SP/ Reprodução/ Frederic Jean
Negros cortando tábuas: o domínio de ferramentas e ofícios não era privilégio dos homens livres

 

Exercícios e outras atividades

Muitos textos da imprensa analisam atualmente os percalços do brasileiro para abrir uma empresa. Encomende uma pesquisa sobre o tema em revistas, jornais e na internet. Em outros países, as exigências burocráticas são menores? Que dificuldades abundam aqui? Quem vive no exterior precisa enfrentá-las? Esse fator ajuda a explicar o nosso atraso?

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Aula sugerida pelo antropólogo Marko Synésio A. Monteiro, professor do Senac, de São Paulo

 
 
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