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Edição
1925, 5 de outubro de 2005
Interdisciplinar
Literatura e Filosofia
Investigue
com a moçada se
toda mentira tem perna curta
Mostre que, para alguns pensadores, a verdade
não pode ser dissociada dos conflitos de interesses
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Everton
Ballardin
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Erasmo
Carlos: receita para lidar com a inverdade na década
de 1980, com a composição Pega na Mentira
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Verdade,
mentira e argumentação


Relacionar
informações e conhecimentos
disponíveis em situações
concretas para construir argumentação
consistente


Compreender
noções sobre o que é
verdadeiro ou falso e como a Filosofia pensa
a questão |
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Mentira
recebe tratamento diferenciado. Erasmo Carlos, o Tremendão,
não deixa por menos: Pega na mentira, corta o
rabo dela, pisa em cima, bate nela.... Mais tolerante,
Caetano Veloso admite que a verdade pode ser o seu dom
de iludir. Por sua vez, Millôr Fernandes explora
as dimensões filosóficas e literárias
da impostura e mostra sua trajetória desde a
fase do flagrante, quando não passa de fraude deslavada,
até se transformar em fantasia, em ode, em épico,
quem sabe em conceito geral de eternidade filosófica.
Enquanto
mensalões e mensalinhos não se tornam matéria-prima
para epopéias, que tal usar o texto de VEJA para uma
investigação semelhante à de Millôr
escritor sem estilo e pensador irreverente sobre
as inverdades?
Preparação
da aula
Providencie
cópias do início da peça O Rei e o Bobo,
transcrito no quadro abaixo, e distribua entre os alunos.
Exercícios
e outras atividades
Leia
para a garotada os versos iniciais do poema Autopsicografia,
de Fernando Pessoa (abaixo).
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Autopsicografia
Fernando Pessoa
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

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A
seguir, divida a classe em dois grupos e proponha que um deles
rastreie referências à verdade e à mentira
na literatura. A outra equipe, por sua vez, deve investigar
menções a essas categorias na música
popular brasileira. No final, todos podem montar um grande
painel sobre o tema.
Apresente
um exercício lógico sobre verdade e mentira.
Os jovens devem imaginar que estão fechados numa sala
com duas portas: uma conduz à vida e outra à
morte. Cada porta está vigiada por um guarda. Um deles
só diz a verdade e o outro, apenas mentiras. Os estudantes
têm direito a apenas uma pergunta para descobrir qual
é a porta da vida. Qual tem de ser essa pergunta?
Depois
da discussão, revele a resposta. Indaga-se a um dos
guardas: Se eu perguntar ao outro qual é a porta
da vida, qual ele vai indicar?. A porta da vida será
a oposta.
Peça
que os adolescentes comparem o primeiro item do decálogo
de Millôr com as falas do Bobo na peça de Ricardo
Kubrusly. O personagem tenta decifrar se mente quando diz
para todo mundo que sempre mente. É possível
aproximar os dois textos? Ambos podem ser associados ao exercício
de lógica mostrado anteriormente?
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O Rei e o Bobo
Peça de Ricardo Kubrusly

Ato
1 O monólogo do Bobo
(Palco
escuro. Silêncio. Entra o Bobo tropeçando
e barulhento)
Se sempre minto como dizem, estaria, é claro,
mentindo agora quando me digo, como bobo que sou, minto
sempre, minto sempre, estou mentindo agora como o bobo
que sempre mente.
(Pausa
prolongada. A luz começa tênue, o bobo
colorido em roupas e expressão, agachado ao canto)
Ora, mas se a mentira que agora digo, de verdade mente
e se o que digo é mesmo que eu minto, então
não minto, pelo menos não minto agora,
pois a mentira da mentira deve trazer alguma verdade,
ou não?
(O
Bobo se agita, dá cambalhotas pelo palco. A luz
agora é plena e colorida. Alguma música
quase renascentista ao fundo, longe)
Se minto sempre e se digo e grito pelo palácio
e pelas ruas que sempre minto, pelo menos enquanto grito
que minto, não minto, pois se mentisse neste
instante em que grito MINTO SEMPRE nem sempre
mentiria. Esta seria uma frase verdadeira
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Para
debater
Será
que a verdade é algo eterno, fixo, universal? Lembre
que ela tem sido tema do pensamento desde o começo
dos tempos e o modo de concebê-la nem sempre
foi o mesmo. A Filosofia é uma das formas de encarar
esse problema, que tem ramificações em todas
as atividades humanas.
Diga
que hoje, após meses de notícias sobre parlamentares
acusados de corrupção, muita gente desconfia
de tudo o que ouve da boca de um deputado. Sugira uma discussão
a respeito desse ceticismo um sentimento que sempre
ocupou lugar de destaque na história do pensamento
rigoroso.
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Ricardo
Benichio
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Paulo
Maluf: caricaturado como Pinóquio nos anos 1980,
detido por suspeita de corrupção em 2005
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Conte
que, na década de 1980, o então governador Paulo
Maluf foi caricaturado pela imprensa como Pinóquio,
em conseqüência da falsa promessa de que descobriria
petróleo no Estado de São Paulo. O caso de Maluf
detido em setembro de 2005 por evidências de
corrupção pode ser aproximado do de Severino
Cavalcanti, Roberto Jefferson, José Dirceu e outros
políticos suspeitos de mentir e de se envolver em maracutaias?
Dizer
a verdade é mesmo complicado. Basta lembrar a fábula
A Roupa Nova do Rei. Acreditando em seu alfaiate, o
monarca vestiu um traje invisível, supostamente
de beleza inigualável, quando estava usando era nada.
Mas o povo nem notou: se o rei dizia que estava vestido, todos
deveriam acreditar nele e admirar a roupa nova. Afinal, quando
um garoto desavisado disse em voz alta que o rei estava nu,
todos se convenceram disso. Mas o governante só ficou
pelado depois que o menino falou ou esteve assim o tempo todo?
Seus súditos negaram a realidade ao admirar a sua roupa
nova ou estavam apenas acreditando na palavra daquele que
só poderia dizer a verdade?
Recorde
que Roberto Jefferson, ao ser cassado, disse que havia desnudado
o rei. O ex-deputado admitiu participação em
lances de corrupção, mas disse que merecia ser
ouvido porque estava denunciando o esquema. De novo a lógica
fica desafiada: ele mente quando abre o jogo ou falseava a
realidade antes, quando era corrupto sem denunciar ninguém?
Explique
que a retórica, um dos pilares da Filosofia ocidental,
se relaciona com a arte da persuasão. Em outras palavras,
uma argumentação pode ser verdadeira se aquele
que fala convence seus ouvintes de que diz a verdade. O alfaiate
da fábula, por exemplo, valeu-se da retórica
para convencer o rei. Essa arte da persuasão foi desenvolvida
a partir do século V a.C. por Protágoras e os
demais sofistas e também por Sócrates, o primeiro
dos filósofos. Vale a pena investigar as diferenças
entre os dois termos. Eles se mantêm ou a filosofia
se relativizou, aproximando-se das concepções
dos sofistas?
Explique
que alguns filósofos, como Nietzche, negam que se possa
falar em verdade absoluta, dissociada de jogos de poder ou
conflitos de interesses, em qualquer nível. Não
existe consenso, no pensamento, em torno do que qualifica
a verdade e a mentira de forma inegável e acima de
discussão. Afinal, trata-se de uma das questões
filosóficas fundamentais. O que existe? O que é
verdadeiro? O que é bom? Provavelmente, daqui a 5000
anos, estaremos ainda nos perguntando sobre isso. Como diz
Millôr, a vida é assim mesmo: hoje estamos aqui...
e amanhã também.

Aula sugerida
pelo antropólogo Marko Synésio A. Monteiro,
professor da PUC de Campinas (SP)
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