Publicidade


 

* Conteúdo exclusivo
para assinantes de
VEJA NA SALA DE AULA
     
 


Edição 1976, 4 de outubro de 2006

Ciências Humanas e suas Tecnologias - História e Cultura

Show sem bis

Mostre que a sociedade do espetáculo molda
tanto os rituais da vida quanto os da morte


A Apoteose do Adeus

Quatro aulas de 50 minutos


A morte na sociedade contemporânea e em diferentes culturas


Identificar os ritos que acompanham a morte em diversas culturas e suas
transformações no mundo atual

Nuvens de fumaça, efeitos especiais, chuva de pétalas de rosa - tudo isso costuma estar presente nas cerimônias de casamento de apresentadores de TV, cantores sertanejos e outros famosos brasileiros. Agora, porém, a reportagem informa que essa parafernália passou a acompanhar os mortos em sua última jornada. Saem de cena as carpideiras, entram em campo mestres-de-cerimônia de velórios. Em vez das cantadeiras, garçons circulam junto ao caixão. A cova “em palmos medida”, do poema Morte e Vida Severina, dá lugar a túmulos suntuosos que recebem caixões de formatos grotescos: répteis, guitarras e garrafas de Coca-Cola.

Por que, em setores do mundo ocidental contemporâneo, muitas vezes descrito como sociedade do espetáculo, a morte não apenas tende a perder a dimensão da dor, mas também a se transformar em show? Como as diferentes culturas e religiões lidam com a perda dos entes queridos? O texto de VEJA e este plano de aula vão ajudar os estudantes a responder.

Eric Martin/Gamma
Cremação de cadáver na Índia: prática seguida por milhões de
adeptos do hinduísmo


Atividades

1ª aula - Ensine que nem todas as sociedades tratam a morte como tabu. No México, no Día de los Muertos (2 de novembro, o Dia de Finados), as famílias vão aos cemitérios cear ao redor dos túmulos dos seus antepassados.

Consomem-se pães em formato de esqueletos e caveiras. Um tema para discussão: esses rituais se aproximam do espetáculo pop descrito na reportagem? Observe que os velórios mexicanos são rituais dolorosos; a lembrança dos falecidos é celebrada uma vez por ano. Já nos velórios à americana, o show começa antes mesmo de o corpo descer à sepultura. Qual o sentido disso? Atenuar a dor no próprio momento da perda? Em que medida a espetacularização impede a aceitação da morte, gerando o luto não resolvido? Os jovens prefeririam que seus avós e pais fossem enterrados com essa pompa ou que tivessem um funeral mais sóbrio?

Sugira a seguir o exame da cerimônia do Quarup, praticada entre os grupos do Parque Indígena do Xingu. Ressalte que, entre os nativos, o luto pela perda de um parente pode se estender por vários meses, até a realização do Quarup. Na ocasião, cada família chora seus mortos pela última vez. Depois, a tristeza dá lugar à alegria, pois, segundo as tradições, durante a festa a alma do falecido se afasta do plano terreno e ascende ao nível espiritual. Esse ritual pode ser comparado ao velório-espetáculo ou está mais próximo das celebrações do Día de los Muertos?

Proponha a organização de painéis com textos e imagens sobre o Quarup e o feriado mexicano de Finados.

R. Grillarde/Gamma
Día de los Muertos: a sociedade mexicana não vê a morte
como um tabu

2ª aula – Seus alunos já acompanharam algum velório? Como se desenrolou a cerimônia? Em que local? Quais foram as conversas e os comentários sobre o falecido? Como as pessoas estavam vestidas? Vale a pena obter informações com a família. Eles vão perceber de que modo as diferenças de classe se manifestam nos rituais da morte: os velórios de pobres são bem diferentes da “apoteose do adeus” descrita por VEJA.

As diferenças sociais também estão presentes nos enterros. Para comprovar isso, peça que a classe, dividida em grupos, pesquise quantos cemitérios existem na sua cidade e, se possível, levante o custo dos túmulos e do enterro. Os pobres costumam ser sepultados em grandes cemitérios (muitas vezes com milhares de jazigos) e as ossadas permanecem enterradas somente durante alguns anos. Depois de um curto período - geralmente cinco anos -, são exumadas e depositadas num ossário coletivo. Já nos cemitérios dos abastados, não é raro que os túmulos sejam demarcados por lápides num imenso gramado. Cada equipe deve apresentar os resultados para os colegas.

Manchete
Quarup dos indígenas do Alto Xingu: o espírito do morto se
liberta do plano terreno


3ª aula – Encarregue a moçada de pesquisar e debater as cerimônias da morte ligadas a diferentes religiões e culturas. O espetáculo descrito na reportagem tem a ver com as práticas de sepultamento de cristãos e judeus ou expressa mais a riqueza e o status da família do falecido? A cremação de cadáveres às margens do rio Ganges, prática dominante na Índia, pode ser associada à cremação luxuosa, ao som da música-tema de Titanic, citada por VEJA?

Existe crematório em sua cidade? Como os estudantes e suas famílias vêem a queima cerimonial de corpos? Conte que a Igreja Católica admite atualmente que a cremação não impede a “ressurreição da carne” anunciada nos Evangelhos. Após o debate na sala de aula, solicite que cada um exponha suas opiniões sobre o tema em forma de redação.
4ª aula – Conte que, no interior do Nordeste, ainda é comum nos velórios a presença de carpideiras vestidas de preto, contratadas para lamentar, com lágrimas e gritos, o falecimento. Distribua cópias do quadro acima e solicite que os adolescentes, novamente organizados em grupos, realizem a atividade apontada e procurem obter as letras de algumas incelenças. O resultado deve ser partilhado e examinado por todos.

 
Para seus alunos

Carpideiras e cantadeiras

Além da presença das carpideiras, mulheres contratadas para “chorar o defunto”, louvar, aos gritos, suas virtudes e lastimar seu desaparecimento, os ritos tradicionais da morte no interior do Brasil, especialmente no Nordeste, mobilizam as cantadeiras, que entoam cânticos à cabeceira dos mortos e moribundos. Esses cantos fúnebres são conhecidos como incelenças ou excelências. Até hoje, na saída do enterro, costuma ser entoada a Incelença da Despedida:

Lá vem uma alma,
Pisando no chão
Vai dizendo à outra:
Que buracão

Esse buracão
É a sepultura;
Essa terra fria
É a cobertura

Uma incelença
Que nos deu no paraíso
Adeus, irmão, adeus
Até o dia de juízo

Pesquise com seus colegas referências a carpideiras e cantadeiras de incelenças na música popular e na literatura brasileiras. Uma fonte interessante é o poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Chico Buarque, em Deus lhe Pague, também menciona a “mulher carpideira pra nos louvar e cuspir”.

Mario Rodrigues
Carpideira: mulher contratada para “chorar o defunto”
e louvar suas virtudes

 

Aula sugerida por Marco Antonio Villa, professor de História da Universidade Federal de São Carlos (SP)

 
 
menu
copyright © 2006. Editora Abril S.A. Todos os direitos reservados