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Edição
1976, 4 de outubro de 2006
Linguagens e Códigos
e suas Tecnologias - Língua Portuguesa
Não
é mercadoria
Promova
o julgamento da publicidade. Acusações: crime
contra a linguagem, falsidade, racismo...

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Discursos
da persuasão e da sedução


Analisar
e compreender os usos e as estratégias
da publicidade e criar antipropagandas |
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A
publicidade se vale da fragilidade das instituições
tradicionais de socialização - família,
sistema educativo e religião - para ampliar a própria
capacidade de influência e doutrinação.
A ciência demonstra que esse recurso de comunicação
tem a capacidade de gerar aprendizagem em crianças
e adultos, no nível de comportamentos, atitudes, normas,
valores, ideologia política e até na visão
geral do mundo. A reportagem de VEJA evidencia essa questão
e nos remete a uma reflexão.
Refeição
em família
Papai, mamãe e filhinho
se reúnem em frente à televisão enquanto
saboreiam um jantar frugal. Na telinha, cenas de violência
explícita ganham tom banal e embalam as próximas
garfadas
| Ilustrações
Jardim |
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Atividades
1ª
aula - Ao preparar a aula, procure munir-se de anúncios
impressos, cartazes e reproduções de comerciais
de TV em que a manipulação esteja presente —
no texto verbal ou no visual —, travestida de mensagem
informativa sobre um produto ou serviço. Lembre-se
de que o material vai ajudar a turma a discutir a manipulação,
na maioria das vezes subliminar e inconsciente, a que se submete
diariamente o público-alvo. Até uma simples
propaganda humanitária pode conter conotações
mercantis.
De posse do texto de VEJA, abandone por um momento o foco
de bom senso e bom gosto aparentemente sugerido ali. Que tal
recortar seus conteúdos para compor um exame dos desdobramentos
do emprego da publicidade e suas estratégias? O objetivo
é mostrar que a mesma linguagem que nos torna consumidores
obedientes pode servir para o saudável exercício
da análise com distanciamento crítico.
Após a leitura da revista, peça que todos pesquisem
no dicionário e na internet os elementos que oferecem
dificuldade de compreensão. É imperativo distinguir
Marcel Duchamp de Oliviero Toscani e dadaísmo de Benetton.
Também é saudável conhecer as ideologias
da Klu Klux Kan e da agência TBWA\
Whybin...
Questione os estudantes sobre quanto confiam na publicidade.
Discuta a auréola de infalibilidade e os poderes mágicos
que são atribuídos a ela pela ingenuidade de
nosso papel de consumidores. Com o material previamente selecionado,
comprove a eficácia desses recursos e estimule a moçada
a mencionar outros exemplos.
Quantas coisas vistas em anúncios constituem os sonhos
de consumo dos jovens? Sugira que tentem explicar como passaram
a querer tais produtos ou serviços e que significado
pessoal tem essa posse. Aproveite os relatos para denunciar
a publicidade como triunfo da cultura da sedução.
Use o que ouvir para demonstrar a incitação
de desejos e temores (imagens e textos persuasivos, capazes
de representar ameaças e promessas) e como, a partir
deles, funciona o indutor de crenças, atitudes, valores
e pautas de comportamento. Conte que a publicidade não
oferece produtos. Ela vende valores e joga com a dualidade
carência–satisfação. Os anúncios
não comercializam argumentos, mas sensações
magistralmente representadas por imagens. Ao dar essa explicação,
evidencie que a venda de valores é menos consciente
e, por isso mesmo, ativa um número infinitamente menor
de defesas racionais. Ensine os adolescentes a ler nas entrelinhas
do visual as necessidades a que apelam. Ponha-os a refletir:
trata-se de itens básicos para a sobrevivência?
Mencione duas marcas concorrentes e as respectivas mensagens
comerciais. Chame a atenção para a promoção
dos produtos concorrentes. Diga que assim, contrapondo sua
eficácia, do ponto de vista da promoção
de valores, se reforçam e se potencializam mutuamente.
2ª
aula – A turma precisa saber que nas mãos
da publicidade está a informação. E quem
detém informação detém poder.
Nesse sentido, os anúncios televisivos merecem reflexão
à parte. No Brasil, as pessoas se informam quase exclusivamente
pela TV. É por intermédio do tubo catódico
que se conhece a realidade política, social e cultural.
Fica fácil enganar alguém ingênuo assim,
que não dispõe de dados para orientar suas decisões.
Mas, quando a publicidade e a televisão se juntam,
sobram ainda mais possibilidades de ludibriar o espectador
com informações errôneas - ou parciais,
que escamoteiam dados essenciais. A eficácia do logro
é diretamente proporcional à convicção
do público de estar informado.
Além disso, de tanto sermos submetidos a realidades
recortadas por interesses e a cenas que vão do terno
ao terror, acabamos insensíveis, vacinados contra aquilo
a que, conscientemente, não ficaríamos impassíveis:
as imagens de violência e morte, por exemplo. No entanto,
jantamos tranqüilamente diante delas, talvez resgatando,
de longe, o mundo mágico dos desenhos animados para
a realidade. Nos cartoons, os personagens morrem e “desmorrem”.
Então, por que lamentar ou horrorizar-se? Ao apresentar
anúncios de TV, ajude a classe a questionar a convicção
de estar informada e pergunte por que a publicidade nos leva
a perder, ou a não adquirir convenientemente, o que
podemos chamar de visão integradora e crítica
das situações cotidianas.
É habitual, na família dos alunos, que a mãe
ou a irmã se dispam ao girar intencional de uma garrafa
de cerveja? É moralmente legítimo que alguém
saia agredindo os outros por não tomar determinado
refrigerante? Se os pais dos alunos não têm o
padrão televisivo de beleza, como foi que suas famílias
nasceram? Que critério os uniu? Como podem ter a permissão
para a proliferação de outros espécimes
que enfeiam e desequilibram a harmonia estética vigente?
Quanto ao fenômeno da reprodução das mensagens
publicitárias, analise a afirmação do
nazista Josef Goebbels, segundo o qual “para convencer
é preciso repetir e dar exemplos”. Diferencie
essa postura e o que está havendo na aula: argumento
e uso das evidências da razão. Conte que Goebbels
foi o paradigma da propaganda oculta, mascarada, do entretenimento
convertido em doutrinação. Ao investigar o cartaz
a sangue dos All Blacks, a turma deve pensar no contexto neozelandês
e nos pressupostos do ministro do III Reich.
Lição de casa: buscar a razão por que
o sexo é tão explorado na publicidade.
3ª
aula – Organize a classe em grupos e proponha
que todos criem anti-propagandas com base nas análises
que desenvolveram nas aulas anteriores, juntando a acidez
da imagem à argumentação formal. Um bom
ponto de partida são as ilustrações destas
páginas, de evocação imediata.
Para finalizar, estabeleça um “Tribunal de Nuremberg”
contra certas peças publicitárias. Dê
a cada equipe o poder de acusação por diferentes
óticas: crime de desperdício colossal de dinheiro,
crime de inutilidade social, crime de falsidade, crime contra
a inteligência, crime de persuasão oculta, crime
de indução à idolatria da necessidade,
crime de segregação e racismo, crime contra
a paz civil, crime contra a linguagem, crime de pilhagem,
crime de malversação da criatividade etc. Que
todos tragam farto material comprobatório. Você,
professor, não vai julgar. Seu papel será abrir
os trabalhos com a apresentação de seu discurso:
“A liberdade de expressão não é
mercadoria”.
Sex
Appeal
Por que a publicidade recorre
à temática sexual com tamanha freqüência?
Papai sorri orgulhoso enquanto seu rebento folheia revistas
eróticas em que modelos popozudas espelham a estética
vigente. Mas as virtudes da filhinha são resguardadas
com energia, em nome da moral e dos bons costumes
| Ilustrações
Jardim |
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Roteiro criado por Angelo Masson Neto, professor
de Lingüística das FIAM, de São Paulo
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