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VEJA NA SALA DE AULA
     
 


Edição 1954, 3 de maio de 2006

Linguagens e Códigos e suas Tecnologias - Língua Portuguesa

Mas, afinal, o que Millôr quis dizer?

A análise do artigo do humorista pode ajudar a moçada a escrever melhor


Eu não disse?


Duas aulas de 50 minutos


Leitura e compreensão de textos, vocabulário, neologismos e ditados populares


Perceber a intenção do autor e conhecer recursos lingüísticos que enriquecem a escrita

VEm seis parágrafos aparentemente esquizofrênicos, Millôr Fernandes se vale de ditos populares, neologismos, estrangeirismos e muito bom humor para tratar de assuntos que não ficam bem claros em nenhuma passagem da argumentação. Convide a garotada a ler o ensaio e deduzir o tema central. O exame do texto vai revelar recursos que podem inspirar a turma a escrever melhor.

Preparação da aula

Separe na biblioteca da escola bons dicionários do nosso idioma e leve-os para a sala de aula.

 

Atividades

1Ù aula – Reproduza os desenhos que ilustram este roteiro e distribua as cópias para os estudantes, previamente organizados em grupos. Desafie-os a descobrir a que provérbios as imagens fazem referência. Caso ninguém consiga acertar, diga que todos terão outra oportunidade de fazê-lo no final da aula.

Em seguida, promova a leitura atenta do artigo de VEJA. Concluída essa etapa, pergunte se o significado de cada palavra empregada por Millôr foi compreendido. A resposta provável é não. Devem ser mencionados, entre os vocábulos que deixaram dúvidas, aqueles menos usuais nas conversas cotidianas – caso de olhifechados, refestelados, mouquíssimos, alamares, bocca e chiusa. Se não for citado, acrescente à relação o termo nave. Mostre que, com uma breve contextualização, é possível inferir o sentido de alguns vocábulos. Olhifechados, por exemplo, permite uma analogia com boquiabertos, que o precede nas considerações do autor. Não é difícil perceber que quer dizer "de olhos fechados, cerrados".

Entregue, então, um dicionário para cada equipe e peça que sejam pesquisadas as palavras mencionadas até o momento. A tarefa pode revelar que:

  • Mouquíssimos, superlativo de moucos, equivale a surdíssimos, parvíssimos, maluquíssimos. Para o texto em questão, apenas o primeiro sinônimo parece válido.
  • Alamares está há tempos em desuso e dificilmente voltará a ser uma expressão corriqueira. O próprio humorista reconhece o fato.
  • Nave, aqui, não diz respeito a uma embarcação ou um veículo espacial. Trata-se do “espaço central, geralmente comprido e estreito, que atravessa a igreja do pórtico até o altar”, segundo o Dicionário Houaiss.
  • Olhifechados, bocca e chiusa não constam do léxico da língua portuguesa. Explique que a primeira configura um neologismo criado por Millôr. As outras duas fazem parte do repertório italiano e significam, respectivamente, boca e fechada.

    Proponha que os alunos extraiam do texto quatro ditados populares. Chame a atenção para o fato de que nem todos esses provérbios aparecem de forma completa ou na ordem direta. Espera-se que sejam encontrados os seguintes trechos:

  • "Pão-pão, queijo-queijo".
  • "A do palhaço é mesmo ver ele, circo, pegar fogo?", alusão a "Alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo".
  • "O hábito não faz o monge".
  • "Bocca chiusa, pra não entrar mosca", que remete a "Em boca fechada não entra mosca".

    Questione o sentido de cada expressão. Depois, volte a mostrar as ilustrações apresentadas no início da aula. Agora, ficou fácil reconhecê-las, não?

    2Ù aula – Retome a leitura do ensaio e pergunte qual é o seu tema central. Ele guarda alguma relação com as três imagens estampadas na página de VEJA ou são todos elementos independentes?

    Explique que Millôr, com seu estilo personalíssimo, compõe uma estrutura bastante próxima da dissertação clássica, com introdução (ou tese), desenvolvimento (ou argumentação) e conclusão (que confirma a tese). E aborda, ainda que de modo indireto, acontecimentos da história recente do país. O que há por trás do comentário irônico sobre as roupas de dona Lu Alckmin? Uma breve pesquisa no noticiário da internet pode desvendar o mistério: a ex-primeira-dama do Estado de São Paulo se viu envolvida num escândalo sobre a doação de vestidos de grife a uma instituição de caridade. Vale conferir.

  • Outra alfinetada do autor relembra a época em que os generais, antes de mostrar as credenciais, paravam o avião e colocavam as pessoas "em cana". O sarcasmo do articulista inclui informação com conhecimento de causa: ele esteve entre os perseguidos pela ditadura militar que se prolongou no Brasil de 1964 a 1985. Teve amigos presos, torturados, deportados e mortos – considerados subversivos por discordar da ordem então vigente.

    Mas, afinal, quais são os "pequenos ruídos" sobre os quais o escritor alertou? Que construção é essa, devastada por um desabamento, uma inundação e um incêndio? Trata-se mesmo de uma igreja, com nave, abóbada, sótão, porão, cozinha e pelo menos três andares – e cujas missas são celebradas às sextas-feiras? Que tragédia nesse templo deixou soterrados, afogados e queimados?

    Conte que Millôr pode estar fazendo troça das agruras que assolam a administração do presidente Lula: denúncias de corrupção, desmantelamento da cúpula do PT, instalação de CPIs, cassação de parlamentares governistas etc. Uma consulta rápida à seção do humorista nas edições anteriores de VEJA vai comprovar que o assunto não sai da pauta. Assim, resta perguntar qual a intenção do autor ao transferir a tragédia política para um cenário religioso.

    Por fim, leve os jovens a utilizar ditados, neologismos e outros recursos observados nesta lição para criar redações em que o assunto principal não seja explicitado, mas apenas sugerido.


    Para seus alunos

    Qual é o ditado?

    Sua equipe está desafiada a identificar, em cada uma das ilustrações, o provérbio a que se refere. Vocês têm cinco
    minutos para cumprir a tarefa...

    Ilustrações Jardim


    Roteiro sugerido por Angelo Masson Neto, professor de Lingüística das FIAM, em São Paulo

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