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VEJA NA SALA DE AULA
     
 


Edição 2016, 1º de agosto de 2007

Linguagens e Códigos e suas Tecnologias - Língua Portuguesa

Eu, você, ele, ela, nós...

Mostre que a relação entre autor e leitor depende de vários fatores, como a pessoa em que o texto é criado


Um Grande Lamento
Sugestões

Largue Esse Vício Logo

Será que Vai Pegar?


Três aulas de 50 minutos


Leitura


Analisar funções da linguagem, identificar marcas de variantes lingüísticas e explorar relações entre os discursos coloquial e formal

Quando redigem, jornalistas e articulistas optam por estabelecer com os leitores uma relação aparentemente próxima ou afastada, conforme a finalidade de seus textos: seduzir, entreter, informar, persuadir, submeter etc. Este roteiro propõe o exame de dois artigos e duas reportagens de VEJA. O objetivo é mostrar de que forma certos recursos de linguagem criam a impressão de intimidade ou distanciamento entre o emissor e o receptor de uma mensagem.


Atividades

1ª aula - Reflita com a garotada sobre as estratégias que regem a produção escrita. Para não se perder na imensidão do tema, é aconselhável levar em conta que os interlocutores costumam balizar sua relação com os textos e com a situação em que os produzem a partir das instâncias de tempo, espaço e pessoa gramatical. Nesta aula, vamos concentrar nossa atenção na última instância.
Diga que, ao lançar mão da língua, o autor pode se apresentar como aquele que fala e escreve - a chamada primeira pessoa - ou ainda simular sua ausência do discurso, que flui como que por si mesmo na terceira pessoa. Há também a possibilidade de o emissor incluir diretamente o receptor em sua mensagem, utilizando para isso a segunda pessoa, que, em algumas situações, como a representada pelos pronomes de tratamento, manifesta-se de forma indireta (usam-se as formas de terceira pessoa, mas elas são dirigidas à segunda).
Supõe-se que os textos em primeira pessoa sejam impregnados de subjetividade, em segunda voltem-se ao convencimento do leitor ou ouvinte e em terceira sejam objetivos e impessoais. Para perceber como é enganosa essa conclusão, basta comparar dois enunciados em terceira pessoa:

  • O governo é muito incompetente; e

  • O governo é muito competente.


  • Por trás da terceira pessoa aparentemente impessoal, ocultam-se opções políticas, conflitos de poder, interesses pessoais e vários elementos que só se tornam compreensíveis quando identificamos os responsáveis pelas frases e a situação em que foram produzidas (de acordo com o contexto, o sentido dessas assertivas pode ser inverso ao que sugerem). Não é preciso antepor às frases o mais que surrado "eu acho que..." para impregná-las de subjetividade.

    Explique que outra noção inconcebível é aquela segundo a qual todo texto persuasivo deve ser elaborado em segunda pessoa. Basta uma rápida olhada em anúncios publicitários para notar que se apresentam em todas as pessoas do discurso, mas mantêm o firme propósito de persuadir os consumidores.

    Escolher uma pessoa do discurso no momento de produzir um texto é adotar uma estratégia específica em relação ao leitor ou ouvinte. Modificar a pessoa ao longo da mensagem pode ser um recurso complementar bastante eficiente. Tais gestos de linguagem quase sempre se pretendem imperceptíveis. São negaceios de quem deseja criar uma determinada imagem de si e espera que o receptor se veja representado no texto como quem ele (o leitor ou ouvinte) acredita que é. Redator, locutor, leitor e ouvinte são, assim, enredados numa trama de sentidos que resultam de diversos fatores - inclusive os perfis individuais e sociais dos envolvidos, o meio em que o texto transita, a intenção com que ele é produzido, o domínio dos recursos lingüísticos e o projeto político de que o discurso participa. À capacidade persuasiva do bom emissor deve contrapor-se a capacidade crítica e interpretrativa do bom receptor, capaz de discernir no íntimo do texto aquilo que de fato tem valor e deve ser levado em consideração.

    2ª aula – Antes de partilhar os conteúdos de VEJA, converse sobre as táticas de convencimento que os alunos adotam quando atuam como interlocutores. Eles devem relembrar momentos em que se valem da primeira pessoa do plural a fim de incluir aqueles a quem falam em seus projetos. Também vão mencionar situações em que usam a segunda pessoa com o objetivo de persuadir alguém, seja com energia ou delicadeza.

    Proponha-lhes o exame de mensagens que explicitam a relevância da pessoa do discurso como parte da estratégia de interlocução adotada. Aqui cabem, entre outros:

  • Textos publicitários, jornalísticos e didáticos;

  • Letras de canções;

  • Bordões humorísticos; e

  • Discursos políticos.


  • Incentive-os a pensar em obras que circulam não apenas em meios impressos, mas também na internet, na televisão e nas rádios. Vale extrair, ainda, mensagens do universo da oralidade cotidiana no qual os adolescentes se relacionam entre si. Leve-os a ver que a opção por essa ou aquela pessoa do discurso é uma estratégia que todos utilizam no dia-a-dia e que é sempre empregada em relação a eles. Aprender a explorá-la em textos escritos em linguagem formal é uma habilidade que a escola precisa ajudar a desenvolver. Oriente, então, a leitura da revista.
    3ª aula – Pergunte por que, na opinião dos jovens, Lya Luft optou pela primeira pessoa do plural no artigo "Um Grande Lamento". Como eles associam esse "nós" e o encaminhamento do texto, de orientação fortemente emocional? A repetição de uma frase graficamente destacada no final de cada parágrafo cria qual efeito de sentido sobre o leitor? Que tipo de contribuição o ensaio oferece à discussão de um tema tão importante?
    Estimule a moçada a identificar, na argumentação de Millôr Fernandes, as "flutuações" de pessoas gramaticais. Essas oscilações têm alguma ligação com o tom coloquial do ensaio? Demonstre que o texto enumera vários disparates como solução para a crise aérea brasileira. É possível traçar um paralelo entre o caos da aviação e a suposta desordem das pessoas gramaticais?

    Ao examinar as reportagens "Largue Esse Vício Logo" e "Será que Vai Pegar?", os estudantes podem reconhecer a conexão entre as pessoas gramaticais adotadas e o perfil do leitor a que os textos são dirigidos? De que maneira a segunda e a terceira pessoas são abordadas pelas autoras?
    Separe outras edições de VEJA e analise com a turma diversos artigos assinados por Lya Luft e Millôr. Avalie o emprego das pessoas do discurso como estratégia discursiva e também a coerência de opiniões e procedimentos dos escritores. Ensine que os articulistas de jornais e revistas estabelecem com seu público uma relação que se consolida (ou não) ao longo do tempo, pois somente a sucessão ritmada de textos configura uma biografia intelectual confiável. Ironicamente, essa mesma biografia muitas vezes aprisiona o autor, que, para satisfazer os leitores, repete-se infinitamente.
    Por fim, organize a classe em grupos e sugira a realização da atividade descrita no quadro ao lado.


     
    Para seus alunos

    O diálogo das capas

    Reprodução


    Observe com seus colegas as imagens que ilustram este quadro. Elas reproduzem as capas de VEJA lançadas, respectivamente, em 12 e 26 de agosto de 1998. A primeira estampa o rosto de Francisco de Assis Pereira, assassino serial que ganhou fama como o Maníaco do Parque. Capturado pela polícia de São Paulo, ele confirmou à reportagem da revista que cometeu todos os crimes bárbaros de que foi acusado. A outra capa exibe o semblante do então presidente norte-americano Bill Clinton, na época envolvido num escândalo sexual com Monica Lewinsky, estagiária da Casa Branca.

    Notem que a publicação escolheu a dedo as fotografias dos dois personagens. Ambos aparecem na mesma posição, olham para o lado e ocupam porções similares da página. Reparem, ainda, que a manchete das duas edições é uma só: a confissão em primeira pessoa, a admissão da culpa cuja suspeita já pairava sobre eles. Vale destacar uma sutil diferença entre os textos - o primeiro está entre aspas e o outro não. Isso significa que o matador pronunciou a frase "Fui eu", enquanto o ex-mandatário dos Estados Unidos disse outra coisa, mas de teor equivalente.

    Cabe a seu grupo avaliar o efeito de sentido que as coincidências (propositais) entre as capas produzem no leitor. Que tipo de comparação os editores de VEJA pretenderam criar ao pôr um psicopata e o homem mais poderoso do planeta em contextos tão próximos?
    Você e sua equipe devem pesquisar o significado de metalinguagem e explicar, por escrito, como ela funciona nesse caso. Apresentem suas conclusões num debate com o conjunto da classe.



    VEJA TAMBÉM

    Bibliografia
  • As Astúcias da Enunciação, José Luiz Fiorin, Ed. Ática, tel. (11) 3990-2100

  • Roteiro criado por Ulisses Infante, autor de livros didáticos de Língua Portuguesa e Literatura


     
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