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Edição 1907, 1â de junho de 2005

Ciências Humanas e suas Tecnologias – Comportamento e Consumo

Por que tantos casamentos se
tornam shows de mídia? Debata

Mostre como as bodas são feitas (e desfeitas) segundo parâmetros de consumo da sociedade do espetáculo

J.F. Diorio/AGE
Daniela Cicarelli e Ronaldo Nazário: um amor
nada infinito. Muito menos imortal


“Meu Casamento É um Show” págs. 94 a 96 de VEJA
“Separados no Divã”, págs. 100 a 102 de VEJA


Duas aulas de 50 minutos


Comportamento social e consumo


Construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para a compreensão de processos sociais


Relacionar elementos do sistema econômico-social capitalista e aspectos da vida contemporânea

Em seu Soneto da Fidelidade, Vinícius de Moraes diz sobre o amor: “Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”. Ao que tudo indica, os belos versos do poeta viraram regra para muitos casais, como demonstram duas reportagens de VEJA. A primeira revela que alguns recorrem a banqueteiros, arquitetos, decoradores e até profissionais de marketing para fazer de suas festas de casamento um espetáculo para ficar gravado na memória dos convidados. O segundo texto, por sua vez, esmiuça as estratégias adotadas pelos cônjuges para evitar o eufemismo escondido no trecho “enquanto dure” do soneto – em outras palavras, a separação.

É inevitável a relação entre os dois textos e os episódios de casa-e-divorcia protagonizados por celebridades brasileiras nos últimos tempos, como Adriane Galisteu, Fábio Júnior, Chiquinho Scarpa e, lógico, o boleiro Ronaldo Nazário e a modelo Daniela Cicarelli. Esses últimos, por sinal, bateram todos os recordes da efemeridade conjugal e se separaram três meses depois de contrair núpcias numa festa ruidosa à qual a imprensa não teve acesso... mas que todo mundo sabe como acabou. Explore as reportagens e pergunte o que leva tantos pombinhos a transformar momentos íntimos em mercadoria. Que valores estão por trás das cerimônias “de arrasar”? E os relacionamentos, por que têm fôlego tão curto? Os adolescentes, que costuma usar a expressão “ficar” para designar seus namoricos sem compromisso, devem ter muito o que dizer.

Chiquinho Scarpa e Carola Oliveira:
o casamento durou seis meses

 

Para debater

Oriente a leitura de VEJA e provoque a turma com algumas questões. Como avaliar a superprodução de alguns casamentos? Ela garante relações estáveis? Que modos de vida e valores instigam esses noivos modernos que recorrem a carros-fortes, festas carnavalescas, batucadas e até figurinos do cinema para transformar o momento do sim num show? Por que as celebridades tornam públicos detalhes que dizem respeito exclusivamente à vida privada?

Lembre aos jovens que, antes de tudo, não há explicações simples e imediatas para tais comportamentos, pois muitas pessoas são expostas a determinados preceitos e estilos de vida sem que se dêem conta. Essa perspectiva, deixe claro, tem como um dos seus pilares o consumismo, elemento-chave do sistema socioeconômico no qual vivemos e cujos mecanismos às vezes contaminam até mesmo as nossas relações pessoais.

Informe que no início do século XX, sobretudo nos Estados Unidos, a promessa de felicidade oferecida às famílias de classe média chegava embalada para presente. Nesse período, com a disseminação do consumo, os lares passaram a ser inundados por eletrodomésticos, automóveis e objetos de uso pessoal. Nas últimas décadas, esse padrão se alterou significativamente. A perspectiva já não é a de que todos sejam consumidores, mas apenas as fatias de renda mais elevada. Pertencem a esse mesmo modelo mecanismos como a propaganda, a moda e a força dos meios de comunicação de massa. Assim, aqueles que têm mais dinheiro consomem com voracidade novidades eletrônicas, roupas da moda, carros e outros veículos ou serviços ligados ao lazer e ao entretenimento.

Ressalte que é próprio da lógica desse sistema que as modas sejam passageiras e que as pessoas sejam levadas a desejar o que os outros indivíduos já possuem. Espera-se também, nessa lógica perversa, que os consumidores fiquem rapidamente insatisfeitos com os novos objetos que adquirem, o que os leva a consumir mais para preencher algo que em tese está faltando. As pesquisas e o marketing também são concebidos para atuar nessas brechas, seja idealizando um novo produto, uma embalagem que chama a atenção ou vendendo um pacote de viagem. VEJA dá pistas de que o momento do casamento é o novo serviço a entrar nesse rol de ofertas. E as terapias de casais, podem ser vistas como algo mais a ser comprado por esposas e maridos em crise? Por quê?

Pergunte se os jovens acham possível que o consumo e a espetacularização de alguns momentos da vida invadam os relacionamentos pessoais. Leia para a classe o texto do quadro ao lado e pergunte como é possível explicar a transformação dos relacionamentos amorosos em eventos descartáveis. Isso também ocorre com a garotada? Como ela se sente quando o namoro ou a amizade dura pouco ou não dá certo?

Ouça os comentários e explique que alguns valores dominantes reforçam a efemeridade das coisas e das relações humanas. Entre eles estão o individualismo, o narcisismo e a competitividade contemporâneos.

Fábio Júnior e Patrícia
de Sabrit:
marido e mulher
por quatro meses

 

Exercícios e outras atividades

Proponha uma análise crítica de propagandas de jornais, revistas e da televisão. Sugira que os estudantes selecionem peças que ofereçam bens e serviços capazes de provocar mudanças de comportamento, fazendo com que as pessoas se sintam melhor por meio do consumo. Oriente a leitura dos textos e das imagens e ajude a garotada a identificar verbos no modo imperativo – explícitos ou não – como compre, experimente, consuma, use etc. Discuta as conclusões e encomende dissertações individuais sobre o assunto.

Adriane Galisteu e Roberto Justus: o enlace acabou em oito meses

 

Para saber mais

A boda das estrelas

A transmutação das bodas – e depois das separações – em espetáculos constitui um prato cheio para os segmentos da mídia cujo foco são os ricos e famosos. O enlace do atacante Ronaldo com a modelo Daniella Cicarelli é um caso emblemático. Em fevereiro, o casal trocou alianças e juras de amor num castelo francês e vetou a entrada da imprensa, o que não impediu que a expulsão da modelo Caroline Bittencourt ganhasse as manchetes no dia seguinte. Três meses depois, o enlace chegou ao fim, num episódio que, segundo a revista Contigo! (abaixo), foi marcado por quebra-quebra de móveis, ciumeira e muitas rusgas. Ao comentar os casamentose as separações das celebridades, o psicanalista Contardo Calligaris escreveu no jornal Folha de S.Paulo: “Sempre há alguém para insinuar que esse ‘heroísmo’ amoroso seja, de fato, uma pose, uma estratégia para se manter no noticiário. (...) Por isso talvez os famosos sejam casamenteiros: não podem parar de acreditar num amor perfeito, num amor em que eles seriam o objeto que faz o outro plenamente feliz. Por isso talvez eles sejam também ‘separamenteiros’: a fé na existência de um amor à altura de sua necessidade vital não tolera os desacertos. Para os outros, eles querem ser tudo. Ou, então, nada”. Estimule os comentários da turma.

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Roteiro desenvovido pelo geógrafo Roberto Giansanti, autor de livros didáticos

 
 
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