| |

Edição
1907, 1â de junho de 2005
Ciências
Humanas e suas Tecnologias Comportamento e Consumo
Por
que tantos casamentos se
tornam shows de mídia? Debata
Mostre como as bodas são feitas (e
desfeitas) segundo parâmetros de consumo da sociedade
do espetáculo
|
J.F.
Diorio/AGE
|
 |
|
Daniela
Cicarelli e Ronaldo Nazário: um amor
nada infinito. Muito menos imortal
|

|
|
 |

Comportamento
social e consumo


Construir
e aplicar conceitos das várias áreas
do conhecimento para a compreensão
de processos sociais


Relacionar
elementos do sistema econômico-social
capitalista e aspectos da vida contemporânea |
|
|
Em
seu Soneto da Fidelidade, Vinícius de Moraes diz sobre
o amor: Que não seja imortal, posto que é
chama / Mas que seja infinito enquanto dure. Ao que
tudo indica, os belos versos do poeta viraram regra para muitos
casais, como demonstram duas reportagens de VEJA. A primeira
revela que alguns recorrem a banqueteiros, arquitetos, decoradores
e até profissionais de marketing para fazer de suas
festas de casamento um espetáculo para ficar gravado
na memória dos convidados. O segundo texto, por sua
vez, esmiuça as estratégias adotadas pelos cônjuges
para evitar o eufemismo escondido no trecho enquanto
dure do soneto em outras palavras, a separação.
É
inevitável a relação entre os dois textos
e os episódios de casa-e-divorcia protagonizados por
celebridades brasileiras nos últimos tempos, como Adriane
Galisteu, Fábio Júnior, Chiquinho Scarpa e,
lógico, o boleiro Ronaldo Nazário e a modelo
Daniela Cicarelli. Esses últimos, por sinal, bateram
todos os recordes da efemeridade conjugal e se separaram três
meses depois de contrair núpcias numa festa ruidosa
à qual a imprensa não teve acesso... mas que
todo mundo sabe como acabou. Explore as reportagens e pergunte
o que leva tantos pombinhos a transformar momentos íntimos
em mercadoria. Que valores estão por trás das
cerimônias de arrasar? E os relacionamentos,
por que têm fôlego tão curto? Os adolescentes,
que costuma usar a expressão ficar para
designar seus namoricos sem compromisso, devem ter muito o
que dizer.
 |
|
Chiquinho
Scarpa e Carola Oliveira:
o casamento durou seis meses
|
Para
debater
Oriente
a leitura de VEJA e provoque a turma com algumas questões.
Como avaliar a superprodução de alguns casamentos?
Ela garante relações estáveis? Que modos
de vida e valores instigam esses noivos modernos que recorrem
a carros-fortes, festas carnavalescas, batucadas e até
figurinos do cinema para transformar o momento do sim num
show? Por que as celebridades tornam públicos detalhes
que dizem respeito exclusivamente à vida privada?
Lembre
aos jovens que, antes de tudo, não há explicações
simples e imediatas para tais comportamentos, pois muitas
pessoas são expostas a determinados preceitos e estilos
de vida sem que se dêem conta. Essa perspectiva, deixe
claro, tem como um dos seus pilares o consumismo, elemento-chave
do sistema socioeconômico no qual vivemos e cujos mecanismos
às vezes contaminam até mesmo as nossas relações
pessoais.
Informe
que no início do século XX, sobretudo nos Estados
Unidos, a promessa de felicidade oferecida às famílias
de classe média chegava embalada para presente. Nesse
período, com a disseminação do consumo,
os lares passaram a ser inundados por eletrodomésticos,
automóveis e objetos de uso pessoal. Nas últimas
décadas, esse padrão se alterou significativamente.
A perspectiva já não é a de que todos
sejam consumidores, mas apenas as fatias de renda mais elevada.
Pertencem a esse mesmo modelo mecanismos como a propaganda,
a moda e a força dos meios de comunicação
de massa. Assim, aqueles que têm mais dinheiro consomem
com voracidade novidades eletrônicas, roupas da moda,
carros e outros veículos ou serviços ligados
ao lazer e ao entretenimento.
Ressalte
que é próprio da lógica desse sistema
que as modas sejam passageiras e que as pessoas sejam levadas
a desejar o que os outros indivíduos já possuem.
Espera-se também, nessa lógica perversa, que
os consumidores fiquem rapidamente insatisfeitos com os novos
objetos que adquirem, o que os leva a consumir mais para preencher
algo que em tese está faltando. As pesquisas e o marketing
também são concebidos para atuar nessas brechas,
seja idealizando um novo produto, uma embalagem que chama
a atenção ou vendendo um pacote de viagem. VEJA
dá pistas de que o momento do casamento é o
novo serviço a entrar nesse rol de ofertas. E as terapias
de casais, podem ser vistas como algo mais a ser comprado
por esposas e maridos em crise? Por quê?
Pergunte
se os jovens acham possível que o consumo e a espetacularização
de alguns momentos da vida invadam os relacionamentos pessoais.
Leia para a classe o texto do quadro ao lado e pergunte como
é possível explicar a transformação
dos relacionamentos amorosos em eventos descartáveis.
Isso também ocorre com a garotada? Como ela se sente
quando o namoro ou a amizade dura pouco ou não dá
certo?
Ouça
os comentários e explique que alguns valores dominantes
reforçam a efemeridade das coisas e das relações
humanas. Entre eles estão o individualismo, o narcisismo
e a competitividade contemporâneos.
 |
Fábio
Júnior e Patrícia
de Sabrit:marido
e mulher
por quatro meses
|
Exercícios
e outras atividades
Proponha
uma análise crítica de propagandas de jornais,
revistas e da televisão. Sugira que os estudantes selecionem
peças que ofereçam bens e serviços capazes
de provocar mudanças de comportamento, fazendo com
que as pessoas se sintam melhor por meio do consumo. Oriente
a leitura dos textos e das imagens e ajude a garotada a identificar
verbos no modo imperativo explícitos ou não
como compre, experimente, consuma, use etc. Discuta
as conclusões e encomende dissertações
individuais sobre o assunto.
 |
Adriane
Galisteu e Roberto Justus: o enlace acabou em oito
meses
|
|
A boda das estrelas
A transmutação das bodas
e depois das separações
em espetáculos constitui um prato cheio para
os segmentos da mídia cujo foco são os
ricos e famosos. O enlace do atacante Ronaldo com a
modelo Daniella Cicarelli é um caso emblemático.
Em fevereiro, o casal trocou alianças e juras
de amor num castelo francês e vetou a entrada
da imprensa, o que não impediu que a expulsão
da modelo Caroline Bittencourt ganhasse as manchetes
no dia seguinte. Três meses depois, o enlace chegou
ao fim, num episódio que, segundo a revista Contigo!
(abaixo), foi marcado por quebra-quebra de móveis,
ciumeira e muitas rusgas. Ao comentar os casamentose
as separações das celebridades, o psicanalista
Contardo Calligaris escreveu no jornal Folha de S.Paulo:
Sempre há alguém para insinuar que
esse heroísmo amoroso seja, de fato,
uma pose, uma estratégia para se manter no noticiário.
(...) Por isso talvez os famosos sejam casamenteiros:
não podem parar de acreditar num amor perfeito,
num amor em que eles seriam o objeto que faz o outro
plenamente feliz. Por isso talvez eles sejam também
separamenteiros: a fé na existência
de um amor à altura de sua necessidade vital
não tolera os desacertos. Para os outros, eles
querem ser tudo. Ou, então, nada. Estimule
os comentários da turma.
|
topo

Roteiro
desenvovido pelo geógrafo Roberto Giansanti, autor
de livros didáticos
|
|