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VEJA NA SALA DE AULA
     
 


Edição 1945, 1é de março de 2006

Interdisciplinar – Matemática e Língua Portuguesa

Da arte de camuflar informações

Desvende os segredos envolvidos na produção e decifração das mensagens criptografadas

Jardim
Cítala espartana: método de transposição em que a chave é o diâmetro do cilindro


"e-CPF, Como Funciona a Assinatura Digital", págs. 90 a 92 de VEJA

Duas aulas de 50 minutos


Assinatura digital; criptografia e decifração


Examinar os métodos que permitem cifrar e decifrar mensagens e informações

UM4 PO3S14 D3 GO3TH3, N4 V3RSÃO OR1G1N4L, 3M AL3MÃO, S1GN1F1C4 MU1TO POUCO OU QU4S3 N4D4 P4R4 QU4LQU3R P3SSO4 QU3 NÃO DOM1N3, 3 B3M, O 1D1OM4 G3RMÂN1CO. C3RTOS G3STOS, NO 3NT4NTO, COMO O 4C3NO 3 O SORR1SO, POD3M S3R F4C1LM3NT3 COMPR33ND1DOS POR TODO MUNDO. QU4L É 4 3XPL1C4ÇÃO? 3X1ST3, 4F1N4L, UM4 L1NGU4G3M UN1V3RS4L?

Códigos semelhantes, assim como línguas específicas e exclusivas, são usados há muito tempo pelos exércitos americano, russo e brasileiro, entre outros. Numa situação militar de emergência, esse expediente permite transmitir informações com rapidez e baixo risco de interceptação e tradução por parte das tropas inimigas. A criptografia de dados é o recurso que garante a segurança da assinatura digital, destrinchada na reportagem de VEJA. O texto configura um estímulo oportuno para a turma conhecer e pesquisar mais sobre a arte, a ciência e a técnica de cifrar e decifrar mensagens.

 

Para começo de conversa

A curiosidade dos jovens vai ficar aguçada com a criptografia — a expressão vem dos vocábulos gregos kriptos, que significa oculto, e grapheis, que quer dizer escrita. Diga que certas técnicas são bem simples, caso da cítala espartana empregada pelos gregos antigos. Ela incluía um bastão sobre o qual se enrolava uma fita de pergaminho ou papiro. A mensagem era escrita no sentido do comprimento do bastão e a fita era então retirada e enviada ao destinatário — que possuía uma cópia idêntica do bastão. Uma vez enrolada a fita nele, ressurgia a mensagem. Outro exemplo válido é a língua do pê, comum entre as crianças. Todas as técnicas, porém, podem ser classificadas segundo determinados critérios. Apresente algumas aos estudantes.

A cítala e os anagramas de Galileu (descritos no final deste roteiro) utilizam o método da transposição, em que apenas a posição das letras do alfabeto é alterada. Já o Código Morse, as linguagens dos computadores e a máquina Enigma, de criação alemã, exploram criptografias por substituição — cada símbolo representa uma letra, um número ou uma instrução. Uma sofisticação desses processos consiste em combiná-los, gerando uma criptografia mista.

Lembre que, ao lidar com esses métodos, tanto para criar a criptografia como para traduzi-la, é necessário conhecer uma "chave" — como o diâmetro do cilindro no caso da cítala espartana ou as tabelas de correspondência para ler os hieróglifos egípcios ou o Código Morse. A chave é sempre a mesma (denominada simétrica) para cifrar ou decifrar. Uma forma interessante de criptografar um texto consiste em perfurar criteriosamente uma folha em branco sobre certa página de um livro, formando janelas onde aparecem apenas as palavras selecionadas da mensagem. O processo pode ser aperfeiçoado pela substituição da folha perfurada por uma seqüência de números que indicam a página, o parágrafo, a linha e a posição de cada palavra.

Conte que as técnicas mais modernas, surgidas a partir da década de 1970, empregam o método de chaves assimétricas: uma para criptografar e outra para decriptografar. Esse tipo de codificação apresenta uma vantagem sobre a de chave simétrica: permite que várias fontes enviem mensagens para um único receptor usando uma chave, a de criptografia, conhecida publicamente por qualquer um (chave pública), e outra, a de decriptografia, conhecida apenas pelo receptor (chave privada). Praticamente todos os sistemas de comunicação de segurança civilizados usam esse tipo de criptografia. O algoritmo de criptografia de chave assimétrica mais difundido e que tem se mostrado mais eficiente é o sistema RAS, termo que deriva das iniciais de Rivest, Adlerman e Shamir, seus inventores.

O sistema de assinatura digital pode ser entendido simplesmente pela inversão do uso das chaves pública e privada na geração e decodificação da mensagem. Dessa forma, se uma mensagem for criptografada com uma chave privada, poderá ser lida por todos que tenham a chave pública. É importante destacar o fato de que a leitura só será possível se tiver sido gerada pelo possuidor da chave privada correspondente. Isso é a assinatura digital que garante a confiabilidade do e-CPF.

François Lo Presti/ AFP
Máquina Enigma alemã: virtualmente indecifrável, teve sua arquitetura desvendada pelas tropas inglesas

 

Para saber mais

Galileu Galilei muitas vezes teve de se comunicar de maneira obscura com seus contemporâneos. Numa ocasião, enviou a Johannes Kepler o seguinte recado: "Haec immatura a me jam frustra legunturoy". O astrônomo austríaco leu: "Macula rufa in Jove est gyratur mathem etc." (Em Júpiter há uma mancha vermelha que gira matematicamente). O planeta citado apresenta de fato essa característica, cuja primeira referência objetiva é um desenho de 1831 feito pelo cientista alemão Heinrich Samuel Schwabe. Mais tarde, Galileu esclareceu o significado pretendido com a mensagem: "Cynthiae figuras aemulatur mater amorum" (A mãe dos amores emula as formas de Cynthya). Galileu queria dizer que Vênus apresenta fases, como a Lua, o que para ele implicava que o Sol, e não a Terra, era o centro do Universo. Quase foi parar na fogueira por proferir tal heresia.

 

Atividades

Organize os alunos em quatro grupos. Cada um deve gerar e trocar mensagens criptografadas para que os outros decodifiquem. Vale usar tudo o que foi visto em aula e também conhecimentos da cultura popular, como gírias, jargões, variações de língua do pê etc. Para que a atividade seja produtiva, convém estabelecer limites de tempo — cerca de 30 minutos devem ser suficientes — e de complexidade para a mensagem (por exemplo, no máximo 40 palavras que façam sentido em bom português). Depois, avalie com a garotada os métodos de criptografia e criptoanálise usados pelas equipes. Inquira os participantes sobre os critérios empregados para a escolha dos métodos. Vale ressaltar: mais importante que conseguir decifrar as mensagens é compreender as dificuldades e os métodos envolvidos nos dois processos.

Jardim
Hieróglifos: sistema para decifrá-los teve como base a substituição


Plano de aula desenvolvido por Renato da Silva Oliveira, professor de Física e coordenador do Planetário Móvel AsterDomus, de São Paulo

 
 
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