Viver e aparecer

O jornalista João Batista Jr., de VEJA SÃO PAULO, narra em biografia a carreira fulgurante e a luta contra o câncer do cabeleireiro Marco Antonio de Biaggi

“Quero ser importante, ter amizade com atrizes famosas, ganhar muito dinheiro, sentar na primeira fila dos desfiles de moda e aparecer em revistas e programas de TV.” Foi com essa ambição que o então candidato a um curso de cabeleireiro justificou seus motivos para abraçar a profissão. Mal sabia Marco Antonio de Biaggi que estava cometendo um sincericídio que o levaria a ser reprovado para a vaga. Mas, obstinado que era (e continua sendo), voltou tempos depois com novo discurso, mais empreendedor: “Quero montar um salão pequeno, melhorar a situação da minha família e ser um bom profissional”. Bingo, a vaga era dele.

Não demorou para que Biaggi saísse de Pirituba, na Zona Oeste de São Paulo, e conquistasse o elegante bairro dos Jardins, onde estabeleceu, em 2000, seu MG Hair, um dos salões mais badalados do país. Com faturamento anual de cerca de 20 milhões de reais (ele próprio chega a fazer 30 000 num dia) e 125 funcionários, Biaggi atraiu para o endereço as celebridades que penteou para editoriais e capas das principais revistas do país. Anitta, Marina Ruy Barbosa, Sabrina Sato, Fernanda Souza, Danielle Winits, Tais Araújo, Claudia Raia, Carolina Dieckmann, Giovanna Antonelli… A lista poderia ocupar a página inteira.

Até que o destino o pegou de surpresa. Em janeiro de 2015, quando Biaggi descobriu que sofria de um linfoma, sua história de sucesso no competitivo mercado da beleza se tornou uma epopeia de superação de graves problemas de saúde, com provas de fé e determinação. E, como tudo em sua vida, os fatos são hiperbólicos, com fortes ingredientes para rechear uma biografia de sucesso. Assim nasce A Beleza da Vida, de João Batista Jr., jornalista responsável pela coluna Terraço Paulistano em VEJA SÃO PAULO.

A BELEZA DA VIDA,   de João Batista Jr. (Editora Abril; 242 páginas; 36,90 reais)

A BELEZA DA VIDA,   de João Batista Jr. (Editora Abril; 242 páginas; 36,90 reais) (//VEJA)

O livro é uma espécie de coluna estendida, como se cada nota do Terraço se transformasse num capítulo, com celebridades geniosas, reportagem apurada e um leve toque de pimenta (bem ao estilo do biografado). A vida de Biaggi se cruza com as revistas da Editora Abril, que edita VEJA: segundo as contas de Batista Jr., Biaggi é o autor do cabelo das personalidades de 254 capas da Nova/Cosmopolitan, 71 de Claudia, 35 de Boa Forma, quinze de Playboy e dezenove de Máxima (as duas últimas hoje publicadas por outras editoras), além de ter trabalhado em centenas de fotos para ensaios internos.

Quando foi diagnosticado o seu tumor maligno (linfoma do tipo não ­Hodgkin, o mesmo do ator Reynaldo Gianecchini), Biaggi escondeu a informação de clientes, funcionários, amigos e redes sociais (só no Instagram, ele tem mais de 1 milhão de seguidores). Apenas seus pais, irmãs, a sobrinha e o colega e ex-parceiro Juha Antero sabiam o diagnóstico. Ele inventou uma boa história para justificar a queda de cabelos causada pela quimioterapia. Passou 145 dias no hospital, perdeu 34 quilos e, desenganado algumas vezes, chegou a receber a extrema-unção em três ocasiões. Adriane Galisteu — que foi produzida por Biaggi em duas capas de Playboy e é das poucas celebridades do seu círculo íntimo — percebeu que a coisa era séria, quebrou o cerco e foi visitá­-lo. Sem saber se ele a ouvia, disse: “Sou sua irmã e estou aflita”.

Tão vaidoso quanto suas clientes, Biaggi manteve as aparências nas redes sociais. A realidade virtual só correspondeu à vida real quando ele postou uma foto, em janeiro de 2016, agradecendo aos médicos. Uma corrente de solidariedade se formou na sua timeline. O livro conta que, sabendo das preocupações financeiras do concorrente, o arquirrival Wanderley Nunes, do salão Studio W, ofereceu-se para trabalhar um dia por semana no MG Hair e assumir as despesas dos pais de Biaggi, caso ele viesse a lhes faltar. O autor procura evitar as armadilhas sentimentais, preservando a objetividade. Mas não há como não se emocionar com o primeiro banho de chuveiro, ainda sentado, após quarenta dias de coma, ou com a resiliência da irmã Sonia, a quem coube a missão de administrar não só o MG Hair como também a vida hospitalar do cabeleireiro.

Biaggi está de volta ao salão. Trocou a malhação na academia por sessões de fisioterapia. Além de enfrentar o câncer, teve de recuperar a coordenação motora das mãos e reaprende a andar. Com tanta vontade de viver, ajudado por situações dignas de milagre, sua trajetória é realmente uma aula sobre a beleza da vida.

* Lilian Pacce é editora de moda

O livro pode ser encontrado nas redes Fnac, Nobel, Leitura, Livraria Cultura, Saraiva e Travessa e também pode ser comprado pela Amazon com preço especial.

Publicado em VEJA de 16 de agosto de 2017, edição nº 2543