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Sufocados e famintos

VEJA acompanhou por uma semana os protestos contra Nicolás Maduro, nos quais quase noventa pessoas foram mortas em pouco mais de três meses

NA CAPITAL da Venezuela, a pichação hambre (fome, em espanhol) substituiu “Chávez vive” como a mais comum nas deterioradas ruas e viadutos. As filas para comprar comida tornaram-se raras, já que não há mais produtos a preços subsidiados nas prateleiras dos supermercados e a inflação tornou os itens básicos proibitivos para a maioria. Muitos buscam comida no lixo, pedem restos em restaurantes ou vivem de sopas distribuídas por quem ainda tem algo em casa. “Atirem pão porque temos fome”, diz um dos slogans na Praça Altamira, onde os opositores costumam concentrar-se. Somente no último ano, os venezuelanos perderam, em média, 9 quilos de peso.

Pelo menos três vezes por semana protestos contra o governo do presidente Nicolás Maduro dominam Caracas. Para evitar a repressão, que costuma aparecer no fim da tarde, o destino das manifestações é revelado na véspera. A linha de frente é jovem. Um em cada quatro manifestantes tem entre 18 e 24 anos, mas é comum deparar com meninos de 16 anos preparando coquetéis molotov em praças e debaixo de pontes. Eles amontoam areia, pedras, paus, pneus e lixo em vários trechos do percurso. Alguns recorrem a armadilhas, como o derramamento de garrafas de óleo no asfalto, em que pessoas e motoqueiros desavisados podem cair facilmente. Na tentativa de defender-se das balas de borracha, do gás lacrimogêneo e dos tiros com armas de fogo, os meninos da primeira fila empunham escudos feitos de madeira, skates e latas. Alguns deles são pintados com as cores da bandeira do país ou com as palavras “Deus” ou “Venezuela livre”. O kit de defesa inclui garrafas com antiácido líquido para amenizar os efeitos dos gases lacrimogêneos, máscaras cirúrgicas e capacetes de bicicleta e de moto.

NAS ALTURAS – O professor Hector Monterola, da favela do Petare, protesta: “Constituinte é comunismo” (Manu Quintero/VEJA)

Entre os milhares de pessoas que se movem lentamente, grupos de voluntários com capacete de segurança andam em fila indiana para prestar primeiros socorros em caso de confronto. São bombeiros, médicos e estudantes da área de saúde. Atrás dos jovens da linha de frente, avistam-se os universitários, que, algumas vezes, são acompanhados por políticos. Muitos dos deputados eleitos na última eleição legislativa, vencida pela oposição, em 2015, eram líderes estudantis e se juntam aos manifestantes. Eles também acabam sendo agredidos pelos diferentes órgãos de repressão. Essas duas primeiras camadas de manifestantes formam a chamada zona roja, ou área vermelha, que se choca diretamente com a polícia, a Guarda Nacional Bolivariana (GNB) e grupos paramilitares conhecidos como colectivos.

Em três meses de protestos contra o regime, foram 89 os mortos pela repressão, metade deles atingida por disparos. Na quarta-feira 5, os colectivos invadiram e sitiaram a Assembleia Nacional, sob o olhar cúmplice de membros uniformizados da GNB — em nova prova de desrespeito à independência dos poderes. Com bonés vermelhos, eles atiraram morteiros e fogos de artifício. Ao menos doze deputados foram agredidos. Um deles, Leonardo Regnault, foi atacado com uma pedra, teve os óculos arrancados e depois foi golpeado com tubos e paus. Ficou com metade do rosto banhada em sangue. Jornalistas tiveram seus equipamentos destruídos.

INVASÃO - Os deputados Luis Stefanelli (à esq.) e Leonardo Regnault, que estavam na Assembleia invadida (Carlos Garcia Rawlins/Reuters)

A terceira e última camada de manifestantes, que anda mais devagar, reúne venezuelanos de todas as idades e classes sociais. Sem a abundância de recursos que permitia ao seu antecessor Hugo Chávez investir alto em programas sociais, Maduro perdeu apoio nos setores populares que foram a base do chavismo. “Meus vizinhos são apertados pelo estômago e têm medo do Sebin (serviço de inteligência), que começou a circular pelas favelas para ameaçar opositores nos últimos dois meses”, diz a auxiliar administrativa Katiuska Camargo, de 40 anos, de Petare, a Rocinha venezuelana. De acordo com um estudo da Universidade Católica Andrés Bello (Ucab), 14% da classe E, 17% da classe D e 22% da C estão participando das manifestações. “Aos poucos, os jovens das classes mais baixas começaram a entender que a democracia já foi liquidada”, diz Hector Monterola, de 48 anos, que dá aulas de história em uma escola de Petare. A faixa etária dos participantes ampliou-se. “Tudo o que eu quero é ver a Venezuela livre outra vez. Se tivesse forças, caminharia com eles”, diz a aposentada Ana de Barroso, de 87 anos, à porta de seu edifício, enquanto bate palmas para os manifestantes.

Os venezuelanos voltaram às ruas em março, quando Maduro ordenou que as funções dos deputados da Assembleia Nacional fossem transferidas para os juízes do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), a mais alta corte do país. A decisão foi revertida em seguida, mas a trégua durou pouco. Em maio, o presidente convocou eleições para uma Assembleia Constituinte. Seus membros não serão eleitos da forma convencional. Várias cadeiras serão dadas a representantes de categorias que são dominadas pelo oficialismo. Para os venezuelanos, a Constituinte será a pá de cal no que resta de democracia. As eleições estão marcadas para 30 de julho. “A Constituinte enterrará qualquer poder que não esteja submetido à Presidência e, em seguida, Maduro eliminará de uma vez por todas as eleições”, diz o historiador Agustín Blanco Muñoz, da Universidade Central da Venezuela. Maduro tem dito que seu objetivo é a criação de um “Estado comunal”, em que a democracia representativa será substituída por um governo comandado pelos conselhos comunitários criados na época de Chávez e controlados pelo governo. À revelia do poder, a oposição convocou uma consulta popular sobre a Constituinte para o dia 16. “Temos uma Constituição chavista e comunista que não me agrada, mas prefiro defendê-la a viver o que está por vir”, diz Blanca Rosa Mármol, ex-juíza do STJ.

CORAGEM - Voluntários se organizam para prestar os primeiros socorros aos feridos durante os protestos (Manu Quintero/VEJA)

O anúncio da Constituinte fraturou ainda mais o chavismo, que vinha acumulando dissidentes desde a morte de Chávez, em 2013. O mais novo movimento político dos seguidores de Hugo Chávez atende pelo oximoro “chavismo democrático”, que reúne aqueles que continuam defendendo as ideias do socialismo mas são contrários à Constituinte de Maduro. A figura máxima desse grupo é a procuradora-geral da República, Luisa Ortega Diaz, que se voltou contra o governo e está sendo perseguida por seus ex-­companheiros. “Apesar de todo o caos, a popularidade de Chávez subiu para 55%. Temos um país potencialmente chavista que não está com Maduro”, diz o cientista político Nicmer Evans, uma das principais figuras do partido Marea Socialista, que reúne chavistas dissidentes.

Apenas 5% dos venezuelanos acreditam que a eleição para uma Assembleia Constituinte é positiva para o país. Pelo menos oito em cada dez rejeitam o governo e sabem que uma nova Carta não alimentará um país faminto, onde cerca de 80% dos habitantes vivem em estado de pobreza. A expectativa é que a inflação supere os 720% previstos pelo FMI até o fim do ano. “O governo foi eficiente em eliminar as filas de comida, mas o consumo não aumentou. Os itens da cesta básica foram desviados para as bolsas de comida, mas elas contêm a cada dia menos produtos e demoram mais para aparecer”, diz o economista Alejandro Grisanti, diretor da consultoria Ecoanalítica, em Caracas. Essas bolsas de comida foram batizadas de Clap, sigla de Comitê Local de Abastecimento e Produção. Autoridades oficiais decidem onde farão a distribuição dos alimentos e avisam os vizinhos. Geralmente, os pontos de distribuição ficam na casa de um chavista ou em um dos antigos supermercados com produtos subsidiados.

Sem alternativas democráticas e constitucionais no horizonte, os políticos de oposição passaram a contar com os militares para retirar Maduro do poder. A maioria sofre como os demais venezuelanos. Os soldados estão descontentes e despreparados. Os de patente mais baixa da Guarda Nacional, que deveriam receber dois anos de treinamento, mal completam seis meses nos quartéis antes de sair às ruas. Muitos recebem apenas treinamento ideológico em Cuba. “As tropas não reclamam por medo, mas rejeitam Maduro como comandante-­chefe. O descontentamento deixou de ser sussurrado e já é assunto recorrente nos corredores”, diz um general das Forças Armadas, sob a condição de anonimato. Nas unidades militares, soldados se alimentam de arepas com queijo no café da manhã e no jantar e um prato de macarrão com queijo no almoço. Para economizar, todos tiram folga nos fins de semana. Muitos têm vergonha de sair à rua fardados. Quem quer ter mais de um uniforme ou botas precisa comprá-los com o próprio dinheiro. As deserções aumentaram. Se em 2014 o índice de abandono do serviço militar girava em torno de 5%, hoje chega a 40%. “A insatisfação é tão grande que toda a proteção do presidente é feita por cerca de 100 oficiais cubanos”, diz o general.

A aposta militar, contudo, é pequena porque Maduro se antecipou e deu poderes políticos e econômicos aos generais, a exemplo do que tem acontecido em regimes totalitários pelo mundo. “É ingenuidade da oposição manter os apelos para que os militares mudem de lado. Isso não vai acontecer”, diz o coronel aposentado José Machillanda, cientista político da Universidade Simón Bolívar. Cerca de 40% dos postos do gabinete são ocupados por membros das Forças Armadas. Onze dos 23 governadores são militares. A elite militar está envolvida em lucrativos negócios com o governo que vão desde a importação de alimentos até o comando de empresas petroleiras. “Há uma minoria nas Forças Armadas disposta a defender Maduro. No caso de um golpe, morreria muito mais gente do que atualmente”, diz o general da reserva Clíver Alcalá, que foi companheiro de Hugo Chávez no passado e hoje é um dissidente. Um dos jovens que estavam entre os manifestantes na semana passada era Andres Eduardo Zapata, de 16 anos. Ele largou a escola para estar nas ruas e aprendeu táticas de combate com os amigos que fez nas manifestações. “Se não impedirmos a Constituinte, nós nos tornaremos a nova Coreia do Norte”, diz ele, com uma garrafa cheia de gasolina nas mãos.

Publicado em VEJA de 12 de julho de 2017, edição nº 2538