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Reengenharia comunista

A renovação de quadros esperada para o congresso do PC, marcado para o dia 18, é essencial para os planos do presidente chinês de dar impulso à economia

A próxima semana será de teste para o presidente chinês Xi Jinping. Na quarta-feira 18, precisamente 2 287 delegados do Partido Comunista, quase todos com os cabelos tingidos de preto, vão se reunir em Pequim para o congresso da agremiação que controla o país desde 1949. Do encontro, que ocorre a cada cinco anos, sairão as novas lideranças comunistas — e, por consequência, da China. O desafio de Xi, que deverá assegurar seu segundo mandato como secretário-geral do partido, é pôr no topo seus camaradas mais leais e capazes de guiar o país em tempos de transição econômica.

Apesar de o congresso não alterar a estrutura do governo e de suas definições serem orquestradas de antemão, é possível que haja uma renovação política superior a 40% nas instâncias decisórias mais poderosas do partido: o Politburo, hoje com 25 integrantes, e seu Comitê Permanente, de sete membros. “A composição aprovada há cinco anos ainda tem grande influência dos líderes anteriores, Jiang Zemin e Hu Jintao. Os eleitos se mostraram mais conservadores e menos propensos a reformas do que Xi”, diz Douglas H. Paal, especialista em Ásia da Fundação Carnegie para a Paz Internacional, com sede em Washington, nos Estados Unidos. “Xi teve de lidar constantemente com certa ‘resistência passiva’ dos integrantes que são de outro tempo e acostumados a outros desafios. Xi precisa de pessoas novas.”

Há pelo menos um integrante das antigas que Xi deve querer manter no Comitê Permanente: Wang Qishan, chefe da comissão responsável pela temida campanha anticorrupção, que puniu mais de 1,3 milhão de membros do partido nos últimos cinco anos, tirando de cena, inclusive, desafetos do presidente. Vítimas recentes desse expurgo, que por variados motivos caíram em desgraça, foram Sun Zhengcai, visto como possível futuro premiê, e os generais Fang Fenghui e Zhang Yang. Para manter Wang no posto, porém, Xi terá de descumprir uma regra não escrita, conhecida como “sete sobe, oito desce”, segundo a qual podem ser eleitas para o Comitê pessoas com até 67 anos, mas deve deixar o cargo quem tiver 68 ou mais.

(Arte//Reengenharia comunista//)

Aos 64 anos, formado em engenharia química, Xi é considerado o líder chinês mais forte desde Mao Tsé-tung, que comandou o país com mão de ferro de 1949 até sua morte, em 1976. Desde que assumiu a secretaria-geral do partido, em 2012, e a Presidência do país, no ano seguinte, Xi deu vários passos para amealhar poder no PC, nas Forças Armadas e na sociedade civil. Há um ano, ganhou o simbólico título de “líder central”, que apenas Mao, Deng Xiaoping e Jiang tinham recebido. “É difícil saber se todo esse esforço para mostrar que ele é muito poderoso reflete uma robusta consolidação do poder ou insegurança”, diz Susan Shirk, especialista em política chinesa da Universidade da Califórnia, em San Diego.

Outra medida do poder acumulado por Xi está relacionada à sua sucessão, esperada para 2022. Até aqui, ao contrário do que ocorreu no passado, não foram dadas pistas de quem será o próximo líder. É possível que surja um ou mais nomes no congresso. Caso contrário, ganhará ainda mais impulso a desconfiança de que Xi pretende estender sua temporada no poder, prolongamento que gera insegurança num país que sofreu graves consequências econômicas e sociais durante as décadas sob Mao e seu culto à personalidade.

Obtendo ainda mais legitimidade no congresso, Xi deve intensificar as reformas econômicas. “Ele finalmente vai ter condições de manter a política de rebalanceamento econômico e continuar com ela, ou seja, aumentar o consumo interno como força motriz do crescimento do PIB, muito dependente das exportações”, diz Roberto Dumas Damas, professor de economia chinesa do Insper, de São Paulo. A redução das expectativas de crescimento econômico, agora que acabou a era dourada da exportação de manufaturas, as greves de trabalhadores, os acidentes ambientais e o movimento democrático em Hong Kong podem dificultar o intenso controle do PC sobre o 1,4 bilhão de chineses, mas não muito. “O partido é forte o suficiente para se manter no poder, principalmente porque tem o monopólio de dinheiro e das armas”, diz a americana Sophie Richardson, diretora para a China da Human Rights Watch. Por isso, ninguém espera uma guinada no sistema político da China nos próximos cinco anos sob Xi Jinping.

Com reportagem de Luiza Queiroz

Publicado em VEJA de 18 de outubro de 2017, edição nº 2552