Os pecados da carne

A crise da JBS e o risco de embargos na Europa e nos EUA ameaçam o futuro da pecuária brasileira

Operação Carne Fraca, delação de Joesley Batista, embargos às importações. Em poucos meses, uma sequência de péssimas notícias fustigou um dos setores mais promissores da economia brasileira. Apenas em 2016 a venda de carnes para o exterior somou quase 13 bilhões de dólares. Mas agora todo o setor foi posto sob suspeita. Os Estados Unidos barraram os cortes bovinos in natura, e existe o sério risco de a Europa tomar uma decisão semelhante. De uma hora para outra, uma atividade que festejava a conquista de novos mercados passou a enfrentar uma crise duríssima. Em maio, o tombo no preço do boi gordo foi o maior em vinte anos. As cotações estão 20% abaixo dos valores registrados no ano passado.

O abalo teve início em março, depois da Carne Fraca. Muitas das alegações iniciais de contaminação não passaram de sensacionalismo policial e foram prontamente refutadas. Ainda assim, expôs-se ao mundo que o sistema de controle sanitário operava na base da propina e troca de favores. Para os europeus, foi o suficiente para acirrar a fiscalização. Desde então foram rejeitados 108 carregamentos de carne do Brasil, a maior parte deles devido à contaminação por bactérias. Em maio, técnicos europeus fizeram uma auditoria nos frigoríficos. Na sequência, apresentaram à Comissão Europeia um relatório intitulado meat fraud (fraude da carne), em que afirmam que o Brasil não seguiu recomendações de auditorias anteriores. Agora exigem, entre outras ações, que 100% da carne embarcada passe por análise microbiológica. Nova auditoria será feita em breve. Se o Brasil não adotar as medidas elencadas, poderá sofrer sanções.

O governo americano também apertou a fiscalização. Resultado? O anúncio, em junho, do bloqueio à importação de carne brasileira bovina in natura. A razão seria a presença de abscessos (nódulos e infecções) acima do tolerável. Segundo as autoridades, 11% das amostras analisadas apresentavam esse problema, contra 1% das de produtos originários de outros países. Em resposta, o Ministério da Agricultura informou que os abscessos foram provocados pela reação à vacina contra a febre aftosa. Para reduzir as ocorrências, orientou os pecuaristas a alterar o procedimento de uso do medicamento. Na próxima semana, representantes brasileiros estarão em Washington para dar explicações e tentar derrubar o bloqueio.

(Arte/VEJA)

O lobby dos pecuaristas americanos, naturalmente, atua para que o embargo seja mantido. Os criadores locais nunca aceitaram o fato de a carne brasileira in natura ter sido liberada em 2016, depois de mais de uma década de proibição. Com Donald Trump na Casa Branca, esperam tirar os cortes brasileiros das prateleiras. “Não há como negar que a credibilidade da carne brasileira esteja em xeque”, afirma o pecuarista Pedro de Camargo Neto, vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira. “Os europeus e os americanos possuem sistemas de fiscalização que servem de referência para o mundo. Se o Brasil for reprovado por eles, poderá perder outros mercados na sequência.”

Não bastassem as ameaças externas, os pecuaristas enfrentam a crise da JBS, responsável por metade das exportações de carne bovina. Outros frigoríficos estão ampliando as operações, mas a empresa dos irmãos Joesley e Wesley é, em algumas regiões, a única grande compradora. Com o risco de falência da JBS, os pecuaristas temem levar um calote gigantesco. “A preocupação é entregar o boi e não receber o dinheiro”, diz Normando Corral, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso.

Suspeita – Coutinho (à esq.), ex-presidente do BNDES: perda em operação com a JBS (Wilton Junior/Estadão Conteúdo)

Essa crise não deixa de ser um reflexo de ações do BNDES, durante os anos Lula, que visavam a criar um gigante mundial da carne. As operações do banco com os Batista estão agora sob investigação. Na semana passada, o Tribunal de Contas da União decidiu que Luciano Coutinho, ex-presidente do BNDES, e Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda, poderão ser responsabilizados por prejuízos de 126 milhões de reais causados em operação com a JBS na compra do frigorífico americano Swift. Joesley também poderá ser condenado, a despeito do acordo firmado com o Ministério Público. Em resposta, a JBS disse que o TCU “viola as cláusulas protetivas do acordo de colaboração”. Pecuaristas pressionam o governo para que a nova gestão do BNDES assuma as rédeas da JBS, escanteando os irmãos Batista — e parte do governo adoraria fazer isso. A pendenga jurídica vai se arrastar por um bom tempo, e ninguém ousa fazer apostas sobre o futuro da JBS. De todo modo, é uma má notícia para o rebanho brasileiro.

Em nota, a JBS informa que a possibilidade de a empresa entrar em falência ou deixar de pagar seus fornecedores é inexistente. “A JBS conta com situação financeira robusta –seu faturamento superou R$ 170 bilhões em 2016–, e as operações em todo o mundo continuam em ritmo regular, conforme plano de negócios da companhia.”

Sobre as considerações ao mercado de pecuária no Brasil, a empresa diz que “trata-se de um mercado de relevante diversidade de empresas, pulverizado, onde opera com a oferta de excelência de qualidade em seus produtos e com resultados importantes nas exportações para todo o país.”

Publicado em VEJA de 12 de julho de 2017, edição nº 2538