O terror perde terreno

Com a vitória sobre o Estado Islâmico, os iraquianos engalfinham-se num clima de acusações e denúncias — que pode incentivar a volta dos terroristas

No centro velho da cidade de Mossul, no norte do Iraque, todos os prédios importantes foram derrubados. Hospitais, escolas, áreas comerciais e mesquitas usadas pelo grupo terrorista Estado Islâmico (EI) como base estão em ruínas e terão de ser reconstruídos. Por ser essa uma região de edifícios próximos e apertados, a zona central tornou-se o palco de uma batalha feroz entre os terroristas e as forças iraquianas — e, enfim, o governo do Iraque venceu, reconquistando a cidade depois de três anos de domínio terrorista. Ou o que era uma cidade. Os sistemas de água e de luz foram destruídos. O cheiro onipresente é o de corpos apodrecendo. Mosquitos estão por todos os lados.

E já começaram as delações de guerra, como VEJA constatou recentemente. Soldados e policiais iraquianos se encontraram com um grupo que sobreviveu à guerra, e logo alguém apontou para um homem e o acusou de pertencer ao EI. Os policiais o amarraram e colocaram uma venda em seus olhos. O encarregado da tarefa, então, sacou um celular do bolso e fez uma selfie com o seu prisioneiro ajoelhado, como mostra a foto à esquerda. O gesto, banal para o Ocidente, tem outra conotação em uma terra em que milhares de pessoas morreram. Em Mossul, as redes sociais são fundamentais para as pessoas mandarem sinais de vida e se conectarem com parentes.

Vestindo uniforme cor de laranja cedido pela Cruz Vermelha, os prisioneiros capturados deixam as prisões improvisadas e andam em fila indiana para os tribunais, que funcionam em um punhado de cidades. “O Iraque tem uma longa tradição de aplicar a pena de morte, que é apoiada pela população para os casos mais graves”, diz Michael Scharf, da escola de direito da Universidade Case Western, nos Estados Unidos. Muitos prisioneiros têm feridas na pele por causa das péssimas condições do cárcere. De frente para os juízes, sem o auxílio de advogados de defesa, eles tentam convencê-los de que não mataram ninguém. Se ao menos duas testemunhas afirmam o contrário, são enviados para a forca. “Essas pessoas são muito mais do que terroristas, elas cometeram crimes contra a humanidade. São genocidas. Se há testemunhas oculares, então estas devem ser levadas em conta”, diz o americano Michael Newton, professor de direito da Universidade Vanderbilt, especialista em justiça internacional, que já visitou os tribunais iraquianos.

JUSTIÇA – Com uniforme laranja, doado pela Cruz Vermelha, membros do EI caminham para o tribunal (Andre Liohn/VEJA)

Os que foram capturados e são de outros países não têm nem direito a julgamento. São executados na hora. Por não falarem árabe, são considerados de pouca utilidade para os que precisam colher informações e evidências. Além de ter brechas como essa, que até são esperadas em uma situação de guerra, o sistema é obviamente falho. Em Mossul, um homem libertado por um magistrado voltou a ser preso sob a acusação de ter pertencido ao Estado Islâmico. Suspeitou-se que ele fora libertado por influência de um parente, que trabalhava no governo.

Pelas ruas da cidade ainda há combates esparsos. Nas localidades em que as batalhas já cessaram, os civis saem aos poucos, levando o que podem com eles. Quando encontram um soldado, a reação de muitos é ajoelhar-se e agradecer, com as mãos para os céus — sinal para avisar que são inocentes. Muitos, no entanto, são parentes dos soldados do Estado Islâmico ou eram seus cúmplices. Em dado momento, uma mulher parou em frente a um dos corpos e, ao reconhecer o marido, começou a gritar seu nome e chamá-lo. Os soldados, inabalados, pediram a ela que seguisse seu rumo.

Nesse ambiente de delações e vínculos ocultos, é fácil perceber que um dos principais problemas para o futuro de Mossul é a desconfiança entre a população. É comum escutar pessoas acusando outras de ter pertencido ou dado acolhida ao Estado Islâmico. Como é improvável que uma nova autoridade iraquiana ganhe a simpatia dos que tentarão voltar para casa, é possível que uma nova versão do Estado Islâmico se aproveite dessas fissuras sociais.

ALÍVIO – Ao deixarem a cidade de Mossul, civis ajoelham-se e erguem as mãos para o céu: sinal de que são inocentes (Andre Liohn/VEJA)

A reconquista quase completa de Mossul terá um papel fundamental nas finanças do grupo. Sem se aliar a outros países da região (o EI se opõe tanto à monarquia saudita quanto aos aiatolás iranianos), a organização obteve recursos principalmente da extorsão da população e das empresas locais. Sem Mossul, que já teve 2 milhões de habitantes, o grupo perde a principal fonte de sustento. Além do fim da batalha na cidade, a luta contra o EI ganhou impulso com a morte do clérigo Abu Bakr al Bagh­dadi. Ele foi abatido por aviões russos no norte de Raqqa, a capital síria do EI. Também conhecido como Abu Rolex, por ter ostentado um relógio no discurso em que proclamou as ambições mundiais de seu califado, ele era a maior autoridade religiosa do grupo.

Ainda que tenha perdido seu principal mentor e boa parte de seu sustento, o EI não está totalmente subjugado. Sua ideologia ganhou adeptos em vários lugares do mundo e hoje domina algumas cidades no sul das Filipinas. Também é provável que seus membros continuem adotando os métodos que conhecem, como ataques suicidas e extorsão, nos territórios que foram reconquistados pelo governo iraquiano ou pelas coalizões de países, lideradas pelos Estados Unidos ou pela Rússia. Diz o cientista político Jacob Shapiro, da Universidade Princeton, nos Estados Unidos: “Eles poderão cobrar pagamentos em troca da promessa de não atacar a população”.

Com reportagem de Luiza Queiroz

Publicado em VEJA de 19 de julho de 2017, edição nº 2539