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O sul rebelde

O Gov’t Mule, a maior banda do novo rock sulista americano, distancia-se dos ideais confederados no disco (excelente) que critica Trump

Canção de 1970, Southern Man, de Neil Young, é um incisivo protesto contra o racismo e a desigualdade social no sul dos Estados Unidos, definido como uma região de “grandes mansões e pequenos barracos”. Young nasceu bem mais ao norte — é canadense —, mas talvez possa ser o patrono do atual southern rock, o novo rock’n’roll sulista apimentado por longos solos e improvisos. Sim, o sul costuma ser identificado com o racismo e o conservadorismo tosco, porém a música que se faz lá não segue a toada retrógrada. Expoente do movimento, o quarteto Gov’t Mule, que está lançando Revo­lu­tion Come... Revolution Go (no Brasil, disponível apenas em plataformas de streaming), é radical opositor de certos valores locais. Eles se recusam, por exemplo, a autografar a bandeira confederada, símbolo da luta contra a abolição. “Eu explico que não compactuo com a bandeira e peço para assinar qualquer outra coisa”, diz a VEJA Warren Haynes, guitarrista e vocalista do grupo, surgido em 1994. Não existe, entretanto, polarização que afaste a banda de seu público: “Temos uma intimidade tão grande com nossos fãs que podemos falar de preferências políticas. Muitos não concordam, mas gostam da música que fazemos”.

O novo álbum reforça o viés político do Gov’t Mule (traduz-se o nome da banda literalmente como “governo mula” — mas parece ser uma gíria do Mississippi que se refere ao traseiro feminino). As gravações começaram, muito simbolicamente, em 8 de novembro, dia da eleição presidencial americana. Donald Trump venceu com folga nos estados sulistas. Para o cantor da banda, Hillary Clinton também estava demasiado à direita: “Meu candidato era Bernie Sanders. Se ele fosse à disputa no lugar de Hillary, venceria a eleição”, especula Haynes. “O novo mestre chega num cavalo branco / acompanhado por reis com pés de barro”, prega a faixa-título.

Haynes integrou a maior expressão do rock sulista, a Allman Brothers Band, dissolvida em 2014. O Gov’t Mule tem muito em comum com esse grupo veterano, mas não é um mero derivativo. Embora o quarteto faça ótimos discos de estúdio, seu poder revela-se sobretudo nas apresentações ao vivo, sempre longas. “Nosso mínimo é de três horas”, decreta Haynes. Além de tocar repertório próprio, a trupe sulista realiza tributos a bandas como AC/DC e Led Zeppelin — ou, um tanto mais distante do seu rock básico, ao Pink Floyd (o Gov’t Mule regravou, ao vivo, o clássico The Dark Side of the Moon).

Revolution Come... Revolution Go será ouvido com prazer por qualquer fã de rock, sejam quais forem suas inclinações ideológicas. O barulho básico da banda tem vários tons: a influência da guitarra de Jimi Hendrix se faz presente em canções como Easy Times; a balada Sarah, Surrender puxa para o soul; e o country Traveling Tune homenageia a matriz do Gov’t Mule — é dedicada a dois integrantes do Allman Brothers mortos em 2017: o líder da banda, Gregg Allman, e o baterista Butch Trucks. A música do Gov’t Mule é um exercício de tolerância e ecletismo.

Publicado em VEJA de 19 de julho de 2017, edição nº 2539

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