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O sonho ficou mais longe

O projeto de imigração apoiado por Trump pode prejudicar brasileiros que pretendiam levar familiares para os EUA ou que não sabem falar bem o inglês

Um indivíduo laureado com o Prêmio Nobel poderia se candidatar a viver nos Estados Unidos pelo projeto de lei de imigração que há duas semanas contou com a aprovação do presidente Donald Trump. Mas, ainda assim, faltariam a ele 5 pontos para atingir os 30 exigidos para que alguém tenha a papelada aprovada. Um campeão olímpico também poderia usar a condecoração para levar alguma vantagem, mas sua medalha só lhe garantiria a metade dos pontos necessários para a permissão. Entre os critérios do projeto que poderiam favorecer os candidatos ao “sonho americano” estão ainda a fluência no inglês, para evitar a entrada de imigrantes de baixo poder aquisitivo que possam sobrecarregar os programas sociais, e a promessa de uma boa remuneração na cidade de destino.

A proposta que vem sendo estudada foi formulada por dois senadores republicanos, Tom Cotton e David Perdue, e pretende imitar o sistema de pontuação já em vigor no Canadá, na Austrália e na Nova Zelândia. Apesar de ter recebido o nome Raise (elevar, em inglês), a legislação, se aprovada, reduzirá o número de imigrantes legais pela metade em dez anos. Entre os prováveis prejudicados, certamente estarão muitos brasileiros.

A maioria dos brasileiros que pretendem emigrar para os Estados Unidos o faz por caminhos tortos. “Eles entram com visto de turista ou estudante e procuram alguém para se casar. Anos depois, começam a levar para lá o resto da família”, diz o advogado Witer DeSiqueira, especializado em imigração. Para reunir os parentes, até agora a alternativa era solicitar os vistos conhecidos como green cards para fazer o que os americanos chamam de “imigração em cadeia” — quando um forasteiro puxa o outro. Ocorre que o projeto dos republicanos prevê uma mudança precisamente na regra que hoje prioriza a concessão dos green cards a familiares de imigrantes que já vivem nos Estados Unidos. Atualmente, os filhos adultos, pais e irmãos do morador têm preferência na hora de se candidatar. Com a nova regra, somente seu cônjuge e filhos com menos de 18 anos conservariam a prioridade. Mais: se um brasileiro tentar entrar em território americano de qualquer jeito, por ter perdido a esperança de obter um ­green card, poderá ser vítima da nova política de deportação expressa, anunciada em fevereiro.

A categoria que não será prejudicada em caso de aprovação do projeto é a dos jovens com idade entre 26 e 35 anos, bom domínio do inglês, qualificação nas áreas científicas e oferta de emprego nas mãos. A alteração na legislação também não afetaria os empresários brasileiros que buscam um lugar para investir suas reservas ou iniciar um empreendimento. “Pensando nos clientes que procuram visto para investir lá ou que receberam propostas de trabalho, a maioria conseguiria os 30 pontos exigidos no projeto. Na média, esses brasileiros são mais qualificados do que muitos outros imigrantes”, diz Alexandre Piquet, do escritório Piquet Law Firm, nos Estados Unidos.

O projeto de lei para reduzir a imigração ainda não foi avaliado pelo Congresso. Ao apoiá-lo, Trump reforça uma de suas principais promessas de campanha: reduzir o número de imigrantes no país. Vários dos itens da proposta contam com a aprovação popular. Cerca de 60% dos americanos apoiam o uso de um sistema de pontuação. Aproximadamente 50% estão de acordo com a ideia de reduzir a imigração pela metade em dez anos. Para uma boa parcela dos americanos, os imigrantes são indesejáveis porque competem pelas mesmas vagas de trabalho, um argumento ainda controverso.

“Em economias com baixas taxas de natalidade, os imigrantes menos qualificados têm um papel importante”, diz John Skrentny, sociólogo da Universidade da Califórnia em San Diego. A maior parte deles desempenha trabalhos que os americanos não querem fazer. Essa lógica, todavia, pode mudar, já que muitos empregos tendem a ser substituídos por computadores ou robôs. Ou seja: se os imigrantes foram fundamentais para estimular a economia no passado, no futuro esse trunfo pode desaparecer. “A automação e a inteligência artificial vão remodelar o mercado de trabalho na próxima década”, diz Skrentny. Nesse caso, as fronteiras estarão se fechando para os menos qualificados em geral, brasileiros ou não.

Publicado em VEJA de 16 de agosto de 2017, edição nº 2543