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O banco do PMDB

Para a PF, o apartamento que abrigava 51 milhões de reais era um entreposto para guardar e distribuir propina destinada a aliados do partido

A dinheirama continua, oficialmente, sem dono. Desde o último dia 6, os 51 milhões de reais encontrados em um apartamento no bairro da Graça, em Salvador, usado pelo ex-­ministro Geddel Vieira Lima, estão depositados em juízo sem que ninguém tenha reclamado sua posse. O produto da maior apreensão já feita pela Polícia Federal, no entanto, não tem um único proprietário, suspeitam os investigadores, mas pertence à mesma quadrilha. Os indícios coletados até agora apontam para a hipótese de que o apartamento funcionava nos moldes de um banco clandestino que servia aos interesses do PMDB — um bunker de armazenamento e distribuição de dinheiro arrecadado em forma de propina e caixa dois por operadores a mando de caciques do partido.

São dois os elementos-chave que sustentam a linha de investigação. O primeiro é a confissão do advogado Gustavo Ferraz, tido como braço-­direito de Geddel e preso no mesmo dia que seu chefe. Ferraz foi filmado por câmeras do circuito de segurança do edifício da Graça entrando e saindo do imóvel pelo menos doze vezes com malas, mochilas e caixas. Fazia pelo menos seis meses que o advogado vinha sendo monitorado pela polícia por uma suspeita sem nenhuma relação com a fortuna encontrada no apartamento em Salvador — havia sido citado em 2016 num anexo sigiloso da delação de um ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerveró, como intermediário do ex-­ministro para recebimento de propina. Na semana passada, em seu primeiro depoimento após a prisão, Ferraz admitiu ter sido encarregado por Geddel de coletar, periodicamente, em São Paulo, quantias em dinheiro vivo que lhe eram entregues por um assessor de Eduardo Cunha, o ex-presidente da Câmara, preso desde o ano passado.

O segundo elemento a sustentar a hipótese de que o apartamento abrigava um alto fluxo de entrada e saída de recursos ilícitos administrados por integrantes do PMDB é o depoimento do operador Lúcio Funaro. Em agosto, ele declarou à Polícia Federal ter entregue “malas e sacolas” com dinheiro vivo ao ex-ministro Geddel entre 2014 e 2015. Só nesse período, o montante totalizou 11 milhões de reais, afirmou. A polícia acredita que o valor esteja incorporado à dinheirama do imóvel da Graça. Funaro está preso desde julho do ano passado e acaba de ter homologado na Justiça seu acordo de delação feito com a Procuradoria-Geral da República. Ele atuava como o operador financeiro do chamado “PMDB da Câmara”, intermediando o pagamento de propina de grandes empresas ao grupo político ao qual pertenciam, entre outros, Eduardo Cunha e o presidente Michel Temer. Funaro tinha papel fundamental no esquema porque fazia o trabalho de transporte e lavagem de dinheiro para empresas que não tinham um departamento estruturado de propinas, como era o caso da Odebrecht.

Quando “estourou” o apartamento da Graça, a PF já dispunha de imagens de Ferraz entrando e saindo com malas e caixas — e suspeitava que elas pudessem conter dinheiro. Mas não imaginava a magnitude do que iria encontrar. Tanto assim que se dirigiu ao apartamento, no dia da operação, em um grupo de apenas quatro agentes. Quando eles depararam com as malas transbordantes de notas, viram que não conseguiriam contá-las a mão. Ligaram para a delegacia pedindo uma máquina de contagem de cédulas. Ainda assim, calcularam que levariam pelo menos cinco dias para chegar a um valor. Depois de uma hora de conferência, a PF resolveu contratar uma empresa especializada, que escalou oito funcionárias e seis máquinas de conferir dinheiro.

“Banqueiros” do crime – Fernando Baiano e Nelma Kodama: confissões sobre a gerência de “bancos” de propina (Pablo Jacob / Agência O Globo e Geraldo Bubniak/Estadão Conteúdo)

A PF analisa cerca de 1 000 horas de gravações das câmeras de segurança do edifício para tentar identificar outros indivíduos que tenham entrado e saído com malas do apartamento — uma movimentação que começou há pelo menos um ano, segundo as investigações. Além de Geddel e Ferraz, mais seis pessoas, das quais a polícia não revela o nome, foram filmadas. Os policiais já sabem também que, por mais de uma vez, lotes de caixas chegaram ao apartamento da Graça por meio de empresas transportadoras.

Agora, a polícia pretende convocar para novos depoimentos a doleira Nelma Kodama e o lobista Fernando Baiano. Hoje delatores, os dois também eram administradores de “bancos informais”. Quando Nelma foi presa no Aeroporto de Guarulhos, em 2014, tentando embarcar para a Europa com 200 000 euros na calcinha, confessou à PF que mantinha um banco clandestino em um dos cômodos do seu apartamento em São Paulo. Nos momentos de pico, sua “instituição financeira” chegou a ter 22 milhões de reais em espécie — dinheiro vindo de comerciantes estrangeiros em situação irregular e que não podiam abrir conta bancária no Brasil, e de políticos que a usavam como ponte para enviar dinheiro sujo ao exterior. Nelma contou que ganhava dinheiro cobrando um porcentual pelos depósitos, que variava conforme o valor e o risco embutido na operação.

Dinâmica parecida era praticada por Fernando Baiano, o operador do esquema de propina dos senadores peemedebistas na Petrobras. Baiano confessou ter operado, no auge do esquema do petrolão, mais de 50 milhões de reais em propina guardados em um bun­ker particular. Declarou que, em uma única operação para Eduar­do Cunha, retirou do seu “banco” 4  milhões de reais, entregues ao ex-­deputado em dinheiro vivo.

O banco do PMDB, suspeitam os investigadores, é mais rudimentar: ainda que nem Ferraz nem o ex-ministro Geddel tenham dado mostras de suspeitar que estavam próximo de ser descobertos, não deixaram no apartamento nenhum vestígio de transação financeira, como um livro contábil detalhando entradas e saídas. Mas as peças que faltam para traçar o caminho percorrido pelo dinheiro antes de chegar ao edifício podem estar perto de se encaixar. O advogado Ferraz já deu sinais de que sua boca está longe de ser um cofre-forte.


Na papuda, choro e reclamações

Dor nas costas – Preso, o ex-ministro reclamou do “colchão muito fino” (Dida Sampaio+/Estadão Conteúdo)

Ao entrar na ala principal do presídio da Papuda, na sexta 8, algemado e acompanhado de agentes penitenciários, o ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMBD-BA) não conseguiu segurar as lágrimas. Ele já permanecera lá uma curta temporada em julho, quando foi preso por dez dias, acusado de obstruir a Justiça. Desde então, estava em prisão domiciliar, mas a descoberta da dinheirama no apartamento da Graça levou-o de volta ao regime fechado. Ao atravessar o corredor central do presídio, foi vaiado pelos detentos. Passou por eles de cabeça baixa e entrou no Bloco 5, onde estão os presos com curso superior. O ex-­ministro foi posto na mesma cela em que havia ficado da primeira vez, a de número 1 da Ala A. Com 12 metros quadrados, ela abriga agora nove presos, que dormem em camas de três andares e tomam banho frio.

Já no primeiro dia de prisão, Geddel parou de chorar, mas não saiu da cama. Recusou o banho de sol e a marmita com arroz, feijão, salada e carne. No fim da tarde, aceitou o lanche, composto de café com pão. Só no segundo dia é que o ex-ministro recebeu a visita de três de seus advogados. No parlatório, voltou a chorar. Na segunda-feira 11, queixou-se de estar com febre. Um agente penitenciário foi até sua cela e o levou, algemado, para a enfermaria, onde foi atestado que a pressão dele estava alta (19 por 10).

Ao médico, Geddel reclamou de dores nas costas, disse que o beliche reservado para ele tinha o colchão muito fino e que precisava fazer uma consulta com seu médico particular. Aos advogados, pediu que tentassem uma petição para que ficasse em um hospital, como havia conseguido o ex-­médico Roger Abdelmassih, em São Paulo. Mas seus defensores não acharam adequado entrar com esse recurso. No terceiro dia em cana, Geddel já parecia mais resignado. Tomou banho de sol e parou de recusar a comida. O ex-ministro foi preso por determinação do juiz Vallisney de Souza Oliveira em caráter preventivo, o que significa que não há prazo determinado para sua libertação.

 

Publicado em VEJA de 20 de setembro de 2017, edição nº 2548