Nas mãos do gigante

Vinte anos depois de sua devolução à China pelos ingleses, Hong Kong enfrenta a corrosão das liberdades democráticas

O dia 1º de julho marca os vinte anos da devolução de Hong Kong à China, depois de um século e meio como colônia britânica. Sob a perspectiva do governo do presidente chinês Xi Jinping, há muito a festejar: a data simboliza o retorno do território aos braços pátrios, o que lhe permitiu ser governado com autonomia pelo próprio povo. A realidade, no entanto, é vista de outra forma por uma parcela da população de Hong Kong, sobretudo os jovens. Um deles é Joshua Wong, 20 anos, figura central do Movimento dos Guarda-Chuvas, que tomou as ruas da cidade em 2014 cobrando eleições livres. “É difícil, para mim, entender que sou parte de um país governado por uma ditadura de um partido, porque isso não é democracia”, disse Wong a VEJA, horas antes de ser detido por participar de um protesto às vésperas de uma visita de Xi à cidade. “O mundo está vendo. Só Xi Jinping que não”, gritavam os manifestantes.

Para os jovens do Movimento dos Guarda-Chuvas, o governo de Pequim descumpriu a promessa, feita em 1984, de manter “um país, dois sistemas” por cinquenta anos após a devolução do território. Por esse conceito, Hong Kong teria algumas de suas características democráticas e um estilo de vida próprio (dois sistemas) preservados, ao mesmo tempo que estaria sob a supervisão da ditadura chinesa (um país). Em 1997, quando foi devolvida à China — 156 anos depois de os ingleses terem conquistado a área do império Qing, na Guerra do Ópio —, Hong Kong era uma cidade moderna. Tinha uma economia que representava quase um quinto da chinesa, um sistema judiciário independente e uma imprensa livre. Atualmente, seu peso na economia nacional é menor, mas ainda conta com liberdades inexistentes na China continental. Não há restrição, por exemplo, para acessar o Google e o Facebook e, oficialmente, as manifestações de rua são permitidas.

NOBEL PRESO -  Liu Xiaobo recebe tratamento contra câncer, em vídeo divulgado pelo governo chinês na semana passada

NOBEL PRESO –  Liu Xiaobo recebe tratamento contra câncer, em vídeo divulgado pelo governo chinês na semana passada (EYE PRESS NEWS/AFP)

O grau de liberdade dos moradores de Hong Kong, porém, tem sido corroído de diversas maneiras pelo governo de Xi Jinping, iniciado em 2013. Há dez anos, a China havia prometido que em 2017, pela primeira vez na história, seriam realizadas eleições universais para a chefia do governo de Hong Kong. Até então, apenas um grupo de 800 pessoas podia votar. Em 2014, porém, Pequim estabeleceu que os candidatos teriam de ser pré-aprovados pelo governo central chinês. A peneira oficial foi recebida com revolta, e centenas de milhares de jovens ocuparam as principais ruas da cidade por 79 dias munidos com guarda-chuvas, que eram usados para protegê-los dos sprays de pimenta da polícia. “A ocupação de 2014 e o movimento de independência que surgiu na sequência demonstram que existem visões divergentes a respeito do futuro de Hong Kong: há os que aceitam ser parte da China, mas estão frustrados com a falta de reforma política, e os que querem uma democracia que vá além do que diz a lei”, diz Tim Summers, professor de relações internacionais da Universidade de Hong Kong.

(ARTE)

Ao reprimir o movimento por democracia, Xi pretende evitar que a rebeldia seja replicada nas regiões autônomas do Tibete, com sua maioria budista, e de Xinjiang, que tem uma maioria muçulmana. “Xi assumiu dizendo que o partido e o governo deveriam reforçar a disciplina interna e seu poder sobre o país, sob o risco de perderem o controle. Isso levou a um amplo endurecimento em toda a China, incluindo Hong Kong”, afirma Maya Wang, pesquisadora da Human Rights Watch, entidade de defesa dos direitos humanos. O recrudescimento da repressão é demonstrado pelo caso de Liu Xiaobo, escritor chinês que participou dos protestos pacíficos que culminaram no massacre da Praça da Paz Celestial, em Pequim, em 1989. Liu ficou preso durante dois anos logo após aquele episódio. Em 2009, foi novamente condenado à cadeia por assinar um manifesto pró-democracia e a favor dos direitos humanos. No ano seguinte, ganhou o Nobel da Paz, mas continuou preso até a semana passada, quando foi liberado para se tratar de um câncer avançado de fígado.

Os cidadãos de Hong Kong temem, com razão, que no futuro sejam submetidos ao mesmo regime rígido do restante da China. “Depois do fracasso parcial dos protestos, as pessoas começaram a ficar pessimistas. Se uma mobilização daquele tamanho não obteve a democracia, o que mais poderia ser feito?”, diz Mathew Wong, professor da Universidade de Hong Kong. Os ventos de Pequim formam tempestades para os frágeis guarda-chuvas de Hong Kong. 


“UM PAÍS, UM SISTEMA E MEIO”

VEJA conversou por telefone com o estudante Joshua Wong, de 20 anos, que lidera o movimento pela democracia em Hong Kong, na manhã da quarta-feira 28, no fuso chinês. Em 2014, seu rosto franzino se destacou no meio das manifestações em defesa do voto direto que ficaram conhecidas como Movimento dos Guarda-Chuvas. Doze horas depois da entrevista a VEJA, quando liderava mais de trinta jovens em um protesto junto a um monumento à devolução de Hong Kong pelo Reino Unido, Wong foi detido pela polícia e libertado 32 horas mais tarde. Neste ano, Wong teve sua história registrada no documentário Joshua: Adolescente Versus Superpotência, disponível na Netflix. A seguir, sua entrevista.

O que mudou depois de vinte anos da devolução de Hong Kong? Quando o território foi entregue pela Inglaterra, a promessa era que teríamos “um país, dois sistemas”. Em Hong Kong, nós ainda temos acesso livre à informação e não somos afetados pela censura da China continental. Mas o que temos hoje é “um país, um sistema e meio”. O que havia de democracia foi reduzido porque a China tem violado constantemente os direitos humanos. Quando Pequim fala em “um país, dois sistemas”, está mentindo.

Qual é o objetivo do Movimento dos Guarda-Chuvas? Democracia e autonomia. Em vez de o regime comunista selecionar os candidatos, as pessoas de Hong Kong desejam participar de eleições livres. Queremos o direito de escolher livremente o líder do nosso Executivo. Determinar o próprio destino. Mas o governo chinês ignorou a promessa feita na declaração conjunta assinada em 1984. Ele tem uma interpretação própria do que é sufrágio universal.

O que acontecerá daqui a trinta anos, quando termina o conceito de “um país, dois sistemas”? Minha esperança é que os moradores de Hong Kong possam decidir sobre a autonomia em um referendo.

Os moradores de Hong Kong estão cientes da importância da democracia? Acredito que sim. Se não fosse assim, eles não teriam se juntado ao Movimento dos Guarda-Chuvas. A geração mais nova provou que pode gerar mudanças na sociedade e ganhou apoio. Nas legislativas, a maioria votou em candidatos pró-democracia.

Em algum momento, você achou que perdeu sua adolescência por ter se envolvido tão jovem na política? Hong Kong é o lugar em que nasci, em que vivo e que amo. Vale a pena lutar pelo que queremos mesmo que tenhamos de pagar um preço por isso.

Você se considera chinês? É difícil, para mim, entender que sou parte de um país que é governado por uma ditadura de um partido, porque isso não é democracia. Eu me reconheço como etnicamente chinês, mas não me vejo como um cidadão chinês, como alguém que possa ser perfilado em uma lista negra na China continental.

Publicado em VEJA de 5 de julho de 2017, edição nº 2537