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Machismo nada virtual

Mesmo sendo modernas e avançadas, as empresas do mundo digital ainda replicam o preconceito com as mulheres — mas, atenção: as mudanças estão começando

“Você entende mesmo disso?”

A pergunta, feita por um executivo à empresária paulistana Giovanna Chiavelli no início de uma reunião de negócios, não era apenas grosseira e inconveniente. Trazia consigo um preconceito explícito: não, aquele não era um lugar para mulheres. Como assim?! Formada em publicidade, com ênfase em economia, Giovanna, de 30 anos, é a única representante do sexo feminino entre os quatro sócios que dirigem o Invoop, site que atua na área de fusão e aquisição de empresas. “Jamais vi alguém questionar os conhecimentos dos meus colegas. Já chegaram ao absurdo de questionar se meu cabelo loiro me permitia trabalhar nesse campo”, relata a executiva. À empresária e psicóloga paulistana Rosângela Casseano, de 49 anos, criadora do site Rent a Bag, que aluga malas para viagens, já indagaram, no início de encontros de trabalho, se não seria melhor aguardar a chegada de seu sócio ou de seu marido antes de abrir a reunião — sem saber se ela tinha sócio ou marido.

As histórias de Giovanna e Rosângela são um péssimo cartão de visita para uma área que se gaba de pertencer à vanguarda da economia — as startups do mundo digital. Não é novidade que, a exemplo do que acontece no mundo real, ofensas à mulher inundam a internet. Uma pesquisa capitaneada em 2016 pela agência de publicidade nova/sb revelou que a misoginia ocupava a segunda colocação entre os assuntos mais mencionados nas redes sociais, ficando atrás somente de política — sendo negativas nada menos do que 88% das referências às mulheres. Ocorre que, para além do mundo on-­line, também o ambiente off-line das startups se encontra tomado pelo preconceito contra a mulher. No quesito machismo, os ventos soprados do Vale do Silício — a região americana que reúne os gigantes do universo digital — ainda não foram capazes de varrer do mapa a ideia aviltante e retrógrada de que o mundo é dos homens, como se fosse possível a eles ditar as regras apenas porque vestem terno e gravata, mesmo quando têm cabeças ocas como as de um balão prestes a murchar.

 

“Sempre me perguntam se entendo do assunto, mesmo eu tendo um diploma de publicidade, com ênfase em economia. Até já me questionaram se o meu cabelo loiro me ‘permitiria’ trabalhar.”

“Nós sabemos que os homens continuam governando o mundo. E não está tudo bem assim”, constata a chefe operacional do Facebook, Sheryl Sand­berg, autora de Faça Acontecer, lançado em 2013 e que se tornou um best-­seller no debate feminista. Nele, Sheryl conta casos de machismo com os quais teve de lidar em sua carreira, inclusive como alta executiva da companhia fundada e dirigida por Mark Zuckerberg. Não por acaso, no início deste ano, o bilionário Zuckerberg publicou em seu perfil no Facebook um texto no qual conclama as mães a incentivar suas filhas a atuar no campo da inovação. Afinal, essa seria uma área receptiva a elas. Na verdade, precisa ser receptiva a elas, pois ainda não é. A própria companhia de Zuckerberg fechou 2016 com apenas 33% dos funcionários do sexo feminino. Dos seus postos de comando, só 25% são ocupados por mulheres. Na Apple, outro gigante do setor, os números são, respectivamente, 32% e 28%. No Google, o indefectível site de buscas, quase a mesma coisa: 31% e 25%. No Twitter, 37% e 30%. Como se vê, nem essas companhias tão modernas chegam perto de ter mulheres em metade de sua mão de obra, e o retrato ainda piora nos altos postos.

(//VEJA)

É verdade que, num levantamento feito em 2015 pelo United States Bu­reau of Labor Statistics, 46,9% dos empregos no campo tecnológico estavam sendo ocupados por mulheres. Entretanto, segundo a consultoria americana PayScale, somente 21% dos postos de comando eram delas. E já foi pior, muito pior, em todos os campos do empreendedorismo. Até os anos 1970, era quase impossível para uma mulher abrir um negócio nos Estados Unidos sem o apoio de um homem. Até a prática bancária exigia a assinatura dele na concessão de empréstimos. A mudança veio em 1974, com a aprovação da Lei de Igualdade de Oportunidade de Crédito.

No Brasil, de acordo com o Sebrae, a mulher representa somente 30% do empresariado em todas as áreas, e não apenas nas digitais. Mais desalentadora é a revelação da consultoria americana Bain & Company: a ala feminina comanda somente 2% das 250 maiores companhias brasileiras, de variados segmentos. Quando o foco se fecha nas startups, os casos das paulistanas Giovanna Chiavelli e Rosângela Casseano, citados no início desta reportagem, dão a exata medida do problema. Um levantamento da americana Startup Genome, realizado neste ano, revelou que em São Paulo — considerado o mais maduro ecossistema de startups da América do Sul — só 14% das companhias foram abertas por mulheres, contra a média mundial de 16%. Além disso, o shopping virtual Taggli constatou que, embora oito em cada dez pessoas que compram produtos em sites sejam do sexo feminino, não passa de 20% o total dessas mesmas lojas vir­tuais dirigidas por mulheres.

“O ramo digital, apesar de ser um campo inovador, é dominado pelo universo masculino porque ainda se ensina às meninas, desde pequenas, que essa não é uma área para elas”, acredita a publicitária e empreendedora paulistana Ana Fontes, de 50 anos. “Trata-se de um erro histórico, que precisamos superar.” Para fazer essa constatação, diz ela, basta olhar para as salas de aula das faculdades brasileiras. Na USP, por exemplo, apenas dois de cada dez ingressantes nos cursos de ciências exatas são do sexo feminino. Com o objetivo de transformar tal realidade, Ana fundou, em 2009, a Rede Mulher Empreendedora, organização cujo objetivo é apoiar aquelas que ambicionam montar um negócio próprio no campo da tecnologia — como fez ela mesma, dois anos antes, com o site ElogieAki, pelo qual clientes podem eleger suas marcas preferidas. Ana vendeu a empresa em 2011 a fim de ter o tempo que considerava necessário para se dedicar à Rede — que, em oito anos, já auxiliou 300 000 empreendedoras.

Rosângela Casseano – 49 anos, psicóloga paulistana, criadora do Rent a Bag, site de aluguel de malas para viagens. Inaugurado em 2014, faturou 400 000 reais em 2016 (Lailson Santos/VEJA)

“Investidores já me perguntaram, mais de uma vez, se eu estava sozinha ao chegar a uma reunião ou se meu sócio — que não cuida dos negócios, só da parte de engenharia — iria me acompanhar. Isso, antes de saberem que havia um sócio na startup. O absurdo é que parece que passam a confiar mais em mim quando tem um homem na sala.”

A programadora paulistana Camila Achutti, de 25 anos, é uma dessas raras mulheres que se aventuraram no campo das exatas. Em 2013, ela foi a única representante em uma turma de trinta formandos do curso de ciência da computação da USP. Estarrecida com a ausência de mulheres em sua profissão, Camila abriu um blog para debater o assunto e aconselhar as que quisessem seguir uma profissão nesse ramo. “Eu me senti na obrigação de mostrar que esse mundo também é para nós”, diz a programadora. Em 2015, a proposta se tornou mais ambiciosa com a criação da Mastertech, uma startup de educação tecnológica que realiza cursos presenciais e on-line. À frente da iniciativa, Camila fez questão de inverter o quadro típico das faculdades de ciências exatas do país: de seus 3 000 estudantes, 61% são do sexo feminino. “É preciso demolir a ideia de que não somos boas em contas”, diz ela.

A falta de confiança de executivos do campo tecnológico em seus pares femininos fica bem evidente quando as mulheres saem em busca de capital. Um estudo realizado no ano passado na Inglaterra pela ONG britânica Diversity VC constatou que somente 9% do financiamento dado a startups daquele país é destinado a empresas dirigidas por mulheres. Uma das explicações seria o fato de existirem muito mais investidores do sexo masculino, 87%, que do feminino, 13% — números esses, eles mesmos, já um reflexo do funil do preconceito. No Brasil, a plataforma de investimentos EqSeed identificou que 85% dos donos de start­ups cadastrados em suas páginas são homens. Para o criador do site, o matemático inglês Greg Kelly, esse cenário desfavorece os próprios empreendimentos: “Como uma empreitada 100% masculina pode atingir as preferências do conjunto dos consumidores, que obviamente inclui mulheres?”, questiona ele. A ironia é que, segundo levantamento do Instituto Peterson de Economia Internacional, dos Estados Unidos, empresas ancoradas no novo mundo digital com pelo menos 30% de seus cargos de liderança ocupados por diretoras elevam seus lucros, na média, em 15%. A pesquisa, que avaliou, em 2016, dados de 22 000 companhias de 91 países, revelou que a presença delas em funções-chave encoraja a formação de equipes mais equilibradas. “Os mercados administrados por mulheres e voltados para elas representam uma oportunidade perdida por todos nós. Marcas que queiram continuar a crescer terão de acordar para isso”, sentencia Greg Kelly. Um rápido exame sobre a performance de companhias administradas por mulheres seria suficiente para desfazer qualquer dúvida quanto ao desempenho delas à frente dos negócios. Para ficar apenas em dois exemplos de empresas mencionadas anteriormente: no ano passado, a Rent a Bag, fundada em 2014 por Rosângela Casseano, faturou 400 000 reais e hoje é avaliada em mais de 4 milhões de reais. O site Invoop, de Giovanna Chiavelli, aberto em 2016, que mantém sigilo sobre seu faturamento, planeja fechar 3 000 negócios em 2017.

Roberta Bento – 51 anos, pedagoga paulista, de São José dos Campos, dona do BrainBento, aplicativo de educação voltado para aprimorar a interação entre professores, pais e alunos. A empresa, criada em 2015 em sociedade com a filha, Taís, de 27 anos, faturou 600 000 reais em 2016 (Lailson Santos/VEJA)

“O machismo está impregnado no ambiente dos escritórios. Quando tomei a decisão de deixar o cargo de diretora numa multinacional em que trabalhava havia dezoito anos para me tornar empreendedora, chamaram-me de louca. Tenho certeza de que era só por eu ser mulher. Pois um colega, do sexo masculino, tomou a mesma decisão, na mesma situação, e foi elogiado como corajoso e ousado.”

A boa notícia é que a discussão acerca da inclusão feminina no empreendedorismo, de um modo geral, vem ganhando corpo — o que deixa margem para a reavaliação da presença da mulher na área mais específica das startups. Em abril, realizou-se na Alemanha o encontro Women 20, promovido pelo G20. Liderado pela chanceler Angela Merkel, o evento pôs na mesa o debate de questões feministas relacionadas ao mercado de trabalho. Um dos pontos destacados é o fato de que, em comparação com os homens, as mulheres costumam ralar, em média, nove horas a mais por semana. Para tentar mudar o ambiente desfavorável a elas, os países do G20 concordaram, ainda sem medidas efetivas, em formular planos de treinamento voltados às empreendedoras. “Nós já falamos sobre como a participação política e econômica das mulheres não reflete a proporção delas na sociedade. Hoje, 50% das mulheres no mundo possuem um emprego remunerado, enquanto entre os homens o índice é de 76%. Queremos, até 2025, acabar com esse desequilíbrio”, discursou Merkel. Ana Fontes, da Rede Mulher Empreendedora, vê com otimismo esse tipo de compromisso: “Quando comecei, mal se falava dos desafios que existiam para a mulher. Os ares de mudança são bem recentes, mas já progredimos. Todos ganharão quando houver mais mulheres em posições importantes, pois isso representa uma variedade maior de visões de mundo — e, claro, de formas de empreender”.

Isabela Abreu – 32 anos, administradora fluminense, de Niterói, fundadora do Taggli, site que agrega lojas de vários tipos. Aberta em 2015, a página conta com 30 000 clientes (Lailson Santos/VEJA)

“Tenho um sócio. Quando chego a reuniões sozinha, me dão pouca bola, principalmente se há apenas homens no local. Quando ele vai só, ou comigo, concedem maior atenção e, assim, tudo costuma render mais. É óbvio que há misoginia nisso.”

Grandes empresas da área digital parecem mesmo dispostas a mudar o atual cenário. Em 2015, a Intel lançou um programa, de 300 milhões de dólares, cuja meta é aumentar o número de funcionárias. Já o Google promete desembolsar 150 milhões de dólares em um plano para promover a igualdade de gêneros. Eis aí algumas informações que valem uma “curtida”. Decididamente, o machismo não merece ser compartilhado — nem no ambiente on-line, nem no off-line. Afinal, “empreender” não é um verbo que só se conjugue no masculino.

Publicado em VEJA de 2 de agosto de 2017, edição nº 2541