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Caraquenhos receberam como piada a notícia de que um policial tentou dar um golpe no presidente lançando de um helicóptero quatro granadas sobre o Supremo

Os moradores de Caracas, na Venezuela, estão habituados com um alto nível de brutalidade na repressão aos protestos contra o governo de Nicolás Maduro que ocorrem quase todas as tardes. Em três meses, 75 pessoas morreram nas manifestações. Por isso, os caraquenhos receberam como piada a notícia de que um policial tentou dar um golpe no presidente lançando de um helicóptero quatro granadas sobre o prédio do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), na terça-feira 27. Só uma explodiu. Ninguém se feriu. Falou-se em tiros de fuzil, mas não há marcas dos disparos. Em seu Instagram, o “golpista” Oscar Pérez, de 36 anos, cercado por homens encapuzados, divulgou um vídeo em que pede a renúncia de Maduro — que não perdeu tempo e foi logo acusando a CIA, o serviço de espionagem americano, de estar por trás de tudo. Depois de abandonar o helicóptero fora de Caracas, Pérez teria fugido de barco para um destino desconhecido. Além de membro das forças de segurança, ele é ator de filmes de ação: foi protagonista de Muerte Suspendida, de 2015, uma superprodução para os padrões locais. Maduro já se disse tantas vezes vítima de tentativas de golpe (mais de uma dezena, na última contagem) que ninguém lhe dá crédito. “Não acreditamos mais nessas fantasias. Isso foi um show para ofuscar todo o resto”, diz Raissa Lopez, 53 anos, durante mais um dia de protestos. De fato, os juízes do STJ usaram a oportunidade do ataque para prolatar duas sentenças que reduzem os poderes da procuradora-geral Luisa Ortega Díaz, crítica da insistência de Maduro em enfiar uma Assembleia Constituinte goela abaixo dos venezuelanos. Um policial-ator tenta derrubar o governo sem ferir ninguém e desaparece misteriosamente? Conta outra.

Publicado em VEJA de 5 de julho de 2017, edição nº 2537