Feminismo de passarela

O desfile de Victoria Beckham na Semana de Moda de Nova York uniu em elogios dois mundos incompatíveis: o da mulher liberada e o da futilidade fashion

Victoria Beckham, feminista — eis uma boa definição do que mais marcou a Semana de Moda de Nova York. Quando surgiu de jeans e camiseta na passarela, no encerramento do elogiado desfile de vestidos, saias e blazers simples, elegantes e sofisticados na medida certa, a estilista inglesa reforçou o tom de suas intenções — seriíssimas, por sinal — ao desenhar a coleção. “Ela mostra os muitos poderes da feminilidade”, explicou. “Delicadeza também quer dizer força.” Discretamente, como é de seu feitio, Victoria enlaçava naquele momento duas retas que, por princípio, não se encontram: a mulher liberada e a frivolidade fashion. Nada mau para a ex-­spice girl que, até outro dia mesmo, explodia as curvas em calças grudadas à pele e em corseletes que espremiam o torso.

“É minha coleção mais honesta, comigo mesma e com minhas clientes”, diz Victoria, que se apresenta como mulher trabalhadora e mãe dedicada, que vive na correria entre Londres, onde mora a família, e Nova York, onde está seu negócio, sem jamais perder a classe. É para mulheres como ela, afirma, que desenhou “roupas leves e confortáveis”, traduzidas em saias e vestidos de seda, blusas e blazers folgados e tons pastel misturados a uma ou outra cor mais forte, além de pouco preto, ao contrário do que se viu em desfiles anteriores. “O trabalho de Victoria Beckham é sempre muito feminino e muito pé no chão. Tem bastante de seu gosto pessoal, e as mulheres se identificam”, avalia a jornalista Iesa Rodrigues, especializada em moda.

Uma espantosa metamorfose, impulsionada pelo faro afiado para o marketing pessoal, alçou Victoria da mediocridade de integrante de banda pop de garotas e wag — a sigla em inglês para mulher ou namorada de jogadores de futebol, no caso dela o craque aposentado David Beckham — para o respeitável patamar de profissional competente e símbolo de mulher bem-sucedida. Agora, recebe elogios pela coleção integrada aos “novos tempos” da causa feminista. É Victoria colhendo os louros da vitória. Só não dá para acreditar que a dupla “jeans com camiseta” — assessorados por um salto poderoso — tenha sido obra do acaso. “Eu não tive tempo para pensar no que ia usar”, disse ela em uma entrevista. Ah, Victoria, conta outra.

Publicado em VEJA de 20 de setembro de 2017, edição nº 2548