Eles não estão nem aí

Em meio à crise política, o mercado permanece em paz. Motivo: para os executivos, o essencial é a agenda de reformas, e não a manutenção do atual presidente

O mercado não está nem aí para o presidente Michel Temer. Pouco importa se o ocupante do Palácio do Planalto é Temer ou o deputado Rodrigo Maia, candidatíssimo à sucessão. Na avaliação de empresários e executivos do mercado financeiro, o fundamental é perseverar nas reformas (e é isso que deverá ocorrer caso Maia assuma o comando do Planalto). Enquanto as políticas de ajustes continuarem sendo aplicadas, o país contará com uma boa dose de complacência dos investidores. Essa percepção explica a tranquilidade dos agentes financeiros nos últimos dias, a despeito do desgaste diário a que foi submetido o presidente. Sem dúvida, o mercado, antes dependente de Temer, descolou-se dele.

(Arte/VEJA)

Logo depois das denúncias de Joesley Batista, em maio, a primeira reação dos investidores foi negativa. A bolsa de valores despencou, e o dólar subiu, como pode ser visto no gráfico abaixo. Nas semanas seguintes, com a situação de Temer ficando cada vez mais precária, o pânico foi se dissipando. A cotação do dólar voltou ao valor pré-Joesley. (Contribuiu para a queda do dólar e a recuperação da Bovespa a condenação de Lula pelo juiz Sergio Moro, na quarta-feira.)

Embora concreta, a placidez do mercado financeiro não significa que a economia tenha se desvinculado por completo do noticiário político. Quer dizer apenas que, apesar das agitações e convulsões de Brasília, não se vê sinal, ao menos no curto prazo, de reedição de uma política econômica à moda Dilma Rousseff. A administração das estatais foi aprimorada, o Banco Central voltou a combater a inflação e os tempos de  pedaladas e manobras contábeis ficaram para trás. “Há duas coalizões no Congresso. Uma em defesa das reformas e a outra em defesa de Temer”, diz o analista João Augusto de Castro Neves, diretor da consultoria Eurasia. “Essas coalizões não andam necessariamente juntas.”

Na semana passada, por exemplo, a reforma trabalhista foi aprovada pelo Senado. É o tipo de notícia que contribui para a relativa boa vontade com a qual o Brasil é visto hoje, tanto entre investidores brasileiros como estrangeiros, ainda que seja cedo para antecipar uma retomada vigorosa do crescimento. Muito mais do que Temer, são tidos como fiadores da estabilidade o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn. Resume o estrategista-chefe da XP Investimentos, Celson Plácido: “O mercado entende que o importante é manter a equipe econômica, principalmente Meirelles e Ilan, e preservar o comando das estatais. Maia já sinalizou que deve fazer isso, então não houve nenhuma reação significativa nos últimos dias”.

Reservadamente, executivos comentam que, nas atuais circunstâncias, Temer se tornou na verdade um obstáculo para as reformas econômicas. Sua prioridade tem sido a própria defesa no processo de corrupção aberto pelo procurador-geral, Rodrigo Janot. É aí que o presidente gasta o seu capital político, e não na articulação de projetos espinhosos, como é o caso da reforma da Previdência. Mesmo que ele sobreviva à primeira denúncia, a ser avaliada pelos deputados, Janot disse que fará pelo menos outras duas denúncias, o que poderá arrastar o impasse até outubro. “Não há a menor possibilidade de retomar a tramitação desse projeto enquanto não houver definição sobre a situação de Temer”, diz um banqueiro.

Conta a favor do Brasil o atual cenário externo. A economia mundial passa por um período de aceleração do crescimento, o que ajuda na valorização dos produtos locais no mercado internacional. Os juros nos países ricos, ao mesmo tempo, permanecem historicamente baixos. Esse conjunto de fatores contribui para a entrada de dólares por aqui.

Olhando mais adiante, existem duas visões distintas sobre a economia brasileira. Para alguns observadores, há um risco elevado de o país voltar às políticas populistas, especialmente no caso de uma eventual vitória de Lula em 2018. Se for esse o caso, haverá uma reversão instantânea dos mercados. A benevolência chegaria ao fim, o que significaria um tombo da bolsa e a disparada do dólar. Outra corrente, entretanto, acredita que a situação fiscal brasileira é tão grave que não existe espaço para populismo. “A própria Dilma, antes de perder o cargo, tentou fazer o ajuste”, afirma Tony Volpon, economista do banco UBS Brasil. “Existe um equilíbrio político que favorece a realização de reformas. Algumas, como a da Previdência, poderão ficar para 2019.”  Mas, para o mercado, isso pouco importa. Hoje existe uma convicção de que o Brasil passará por um processo lento de ajustes e reformas — com ou sem Temer.

Publicado em VEJA de 19 de julho de 2017, edição nº 2539