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Com quem andas

Coluna publicada em VEJA de 30 de agosto de 2017, edição nº 2545

ATÉ ALGUM TEMPO ATRÁS, o senador Renan Calheiros era um dos Judas preferidos da política brasileira. Por que não era denunciado? Por que não era condenado? Por que não estava na cadeia? Renan tinha pago mesadas a uma ex-companheira com dinheiro de uma empreiteira de obras públicas. Foi acusado de meter-se com notas frias, bois duvidosos e açougues-fantasma para justificar rendas sem origem. Está enrolado há dez anos com denúncias de peculato, falsidade ideológica e uso de documentos falsos. É suspeito de receber propinas e desviar dinheiro público.

Responde, pelas contas mais recentes, a doze investigações no Supremo Tribunal Federal, e é réu desde o fim do ano passado. Um abaixo-­assinado com cerca de 1,5 milhão de adesões foi apresentado contra ele. Poucos políticos brasileiros, em suma, foram tão massacrados pela mídia quanto Renan; durante anos a fio, foi um dos personagens preferidos dos comunicadores, cientistas políticos e formadores de opinião para explicar por que este país não vai para a frente. Mas carreiras políticas no Brasil são obras em aberto — e a do senador está em plena evolução.

O fato é que, de uns tempos para cá, Renan Calheiros foi mudando pouco a pouco de natureza no noticiário político. Deixou, discretamente, de aparecer no espaço reservado à atividade criminal.

Em seguida, passou a ser ouvido mais ou menos como um “político sério”: Renan diz isso, Renan diz aquilo, Renan é a favor, Renan é contra. Seu passado sumiu. Hoje, está a caminho de virar um dos grandes nomes da “resistência” contra o mal, a corrupção e a supressão dos direitos populares. De belzebu foi promovido a anjo, talvez a arcanjo, e conseguiu reconstruir sua imagem na mídia sem ter de gastar um tostão com marqueteiros top de linha como um João Santana, por exemplo — que, por sinal, não está disponível no momento para esse tipo de trabalho. O que houve com ele? Nenhum milagre, e nenhuma surpresa. Renan simplesmente passou para o lado do ex-presidente Lula. É o que realmente resolve, hoje em dia, casos como o seu. Acaba de aparecer aos abraços com ele, na presente excursão de Lula pelo Nordeste; já é um dos gigantes de sua campanha para voltar à Presidência. Do ponto de vista da reputação moral, tal como ela é apresentada ao público no momento, está com a vida ganha.

 

Renan Calheiros simplesmente passou para o lado do ex-presidente Lula

É a velha história: na natureza nada se perde, tudo se transforma. Renan, o Mau, transformou-se em Renan, o Bom. Para isso, bastou aparecer como um aliado de Lula. É um fenômeno que está ao alcance de todos, pois o ex-presidente, até agora, aceitou de tudo — chega a dar a impressão, às vezes, de que só admite na sua comissão de frente quem consiga apresentar uma folha corrida em estado de guerra aberta com o Código Penal. A lista vai longe. Um dos seus nomes mais ilustres é o deputado Paulo Maluf — entraram para a história as fotos de Lula tomando a bênção do ex-inimigo mortal, em cerimônia pública, em troca de apoio eleitoral. Vivem em paz até hoje. Ainda há pouco, Maluf declarou que Lula “é um exemplo para todos os brasileiros” e que sua condenação nos processos na Lava-Jato foi “uma injustiça”. Outro nome espantoso é o ex-governador Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, que está na cadeia há quase um ano, responde a catorze processos penais por corrupção e é tido como uma espécie de ladrão serial; não há notícia de nenhum governador brasileiro que tenha sido acusado de roubar tanto quanto ele em 128 anos de vida republicana. É outro dos grandes heróis do ex-presidente. “Votar em Sérgio Cabral é uma obrigação moral, ética e política”, disse Lula num palanque eleitoral no Rio. Na ocasião, também informou aos eleitores que estava “provado” que Cabral era “um homem de bem”. Sempre vale citar o empreiteiro Marcelo Odebrecht, atualmente cumprindo pena por corrupção num presídio do Paraná.

A última aquisição do elenco parece ser Roberta Luchsinger, descrita como “socialite” e “herdeira de um banqueiro suíço”, que prometeu doar “500 000” reais a Lula — uns 90 000 em cheque e o resto em bugigangas de rico como relógio Rolex etc., para ajudá-lo em suas atuais dificuldades. Não deu certo: a doadora não paga o condomínio do edifício onde mora, em São Paulo, desde dezembro de 2014, está devendo mais de 230 000 reais aos moradores do prédio e responde na Justiça a ações por calote. Diz-me com quem andas e eu te direi se vou junto, ensina o excelente Barão de Itararé. Para andar junto com Lula, hoje em dia, você precisa andar também com Renan, Maluf, Cabral, Marcelo, Roberta e sabe lá Deus quem mais.

Publicado em VEJA de 30 de agosto de 2017, edição nº 2545

 

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