Carta ao Leitor: Retrato do Brasil

Um balanço da política de cotas nas universidades públicas permite concluir que ela está cumprindo seu papel

Em 1933, a pintora paulista Tarsila do Amaral, um dos expoentes do modernismo nacional, concluiu sua tela Operários, na qual retrata a enorme diversidade étnica dos brasileiros que chegavam aos magotes para trabalhar nas fábricas de São Paulo nos anos 30. Hoje, mais de oito décadas depois, a tela de Tarsila poderia trazer alguns brasileiros humildes usando um chapéu de formatura, para simbolizar que até filhos de operários, em certos casos, podem concluir um curso universitário.

A mudança na paisagem é resultado da adoção da política de cotas raciais e sociais, que vem sendo implantada no país nos últimos quinze anos, com o objetivo de abrir as portas das universidades públicas a negros, pardos, índios e pobres — e acaba de ganhar a adesão da Universidade de São Paulo, a melhor do Brasil.

Hoje, finalmente, é possível fazer um balanço dessa política, e a conclusão, que o leitor pode conferir em reportagem na página 78, é inequívoca: do ponto de vista acadêmico, as cotas estão cumprindo seu papel. Além disso, todos aqueles mitos — segundo os quais as cotas derrubariam a qualidade do ensino universitário, estimulariam a evasão, acirrariam conflitos raciais — acabaram mostrando-se apenas isso: mitos. É um feito a comemorar num Brasil tão carente de notícias positivas. Entre o 1,1 milhão de brasileiros que estão nas universidades públicas federais atualmente, 430 000 são alunos que chegaram lá com o apoio das cotas. São 430 000 brasileiros que, de outro modo, possivelmente jamais conheceriam um câmpus universitário e jamais teriam um diploma de ensino superior para pendurar na parede.

Dito isso, é preciso não perder de vista que a política de cotas não é uma boa solução. Na verdade, é lamentável que tenha de ser adotada. Afinal, sua implantação é a expressão cabal da profunda desigualdade étnica e social do Brasil. As cotas, raciais ou sociais, são portanto um atalho para com­pensar um descaminho. O desejável, mesmo, é que elas sejam temporárias e, em seu lugar, o país abra escolas de qualidade para todos, negros e brancos, pobres e ricos, de tal modo que as oportunidades sejam iguais para todos — e o mérito de cada um, apenas o mérito, torne-se a medida do triunfo individual. Enquanto isso não ocorre, e infelizmente estamos muito distantes dessa conquista radiosa, as cotas raciais e sociais vão tentando tapar um pedaço ínfimo do abismo que ainda separa brancos e negros, ricos e pobres — um abismo que desonra o Brasil.

Publicado em VEJA de 16 de agosto de 2017, edição nº 2543