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Carta ao leitor: De costas para o país

Além de ser o primeiro presidente denunciado no cargo, Temer está se transformando num presidente de deputados, e não do conjunto dos brasileiros

Na condição de primeiro presidente da República denunciado por corrupção passiva no exercício do cargo, Michel Temer fez um pronunciamento transmitido ao vivo na terça-feira passada. No dia anterior, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, divulgara a denúncia na qual afirma que Temer “recebeu para si, em unidade de desígnios e por intermédio de Rodrigo Santos da Rocha Loures, vantagem indevida de 500 000 reais”.

Em seu discurso, Temer, cercado de aliados, disse que respondia a um “ataque injurioso, indigno e infamante à minha dignidade pessoal”, pediu “provas concretas” de que havia recebido “valores”, reclamou de estar sendo vítima de uma “denúncia por ilação”, chamou a peça de Janot de “ficção” e atacou o procurador pessoalmente. Só não endereçou as acusações com clareza. Nada disse sobre as razões de ter recebido o empresário-delator Joesley Batista, da J&F, às escondidas no Palácio do Jaburu, nem sequer mencionou o nome de seu ex-assessor Rocha Loures, hoje conhecido como “o homem da mala”.

O aspecto mais claro do discurso de Temer foi também o mais lamentável: o presidente, durante mais de vinte minutos, falou aos deputados que o cercavam, aos deputados que o viam pela televisão ou pelos sites, aos deputados que em breve decidirão se ele fica ou cai. Em nenhum momento dirigiu-se ao país, ao povo, à população, aos eleitores, aos cidadãos brasileiros. O país queria ouvir uma explicação para as acusações. Queria argumentos plausíveis, críveis, lógicos, razoáveis. Em vez disso, ouviu um discurso concebido para soar como sinfonia graciosa a deputados, não a todos, mas àqueles que precisam de proteção contra violações da lei.

Com isso, além de ser o primeiro presidente denunciado no cargo, Temer está se transformando, com espantosa rapidez, num presidente de deputados, e não do conjunto dos brasileiros. Segundo a pesquisa mais recente, apenas 7% dos eleitores confiam no governo de Temer. É claramente difícil falar a tal plateia, mas essa é a plateia que acorda cedo todos os dias, trabalha duro, paga impostos e merece respeito e atenção. Esse é o país que deseja ouvir de seu presidente palavras que se projetem além de uma catilinária. Ao não se defender, ao dirigir-se apenas aos que vão votar sua denúncia e virar as costas para o país, Temer acabou por robustecer a peça de Janot e obscurecer suas falhas, como mostra a reportagem da página 48.

Publicado em VEJA de 5 de julho de 2017, edição nº 2537

Comentários

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  1. Só uma coisa, senhores refinados e educados: honrem suas melhores tradições, devolvam nosso dinheiro e parem de debochar dos que pagam seus salários, por obséquio!

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  2. Queria saber quem, desembarcou todas essas pestes no país , é muito bandido em um só lugar !

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  3. Passou da hora de acabar com a paz desses bandidos , se a justiça não toma atitude , o povo tem que tomar !!!

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  4. O homem da MALA, foi libertado ou fugiu da cadeia?

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  5. Gerador emprego

    Por isso Doria ou outro empresário melhor saída todos POLÍTICO estão devendo além deverem pra outros politicos aí só indica nego incompetente além de não ter força corta nada…só um que nunca tenha participado pra poder ter realmente liberdade pra administra

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  6. Tiberio Franca

    Povo tem invadir Brasília,tirar esse Ladrões a ferro e fogo do poder, não dá mais

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  7. José Smigle

    Veja já foi uma publicação decente. Agora está jogando no time da Globo. Mas está apostando nas esquerdas e vai quebrar a cara. Basta ver a quem espera agradar com essa reporcagem…

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