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Analfabetismo e hipocrisia

Alfabetizar requer mais que boa vontade e grande compaixão

HÁ UM NOVO CENSO demográfico na rua, com as lamentações de sempre. A imprensa se indigna com a “chaga do analfabetismo”, cujas taxas recuam, porém a um ritmo glacial. O Plano Nacional de Educação (PNE) previa uma queda bem maior, mas baseou-se em anseios, e não em estudos. No início dos anos 70, foi criado o Mobral, com muito dinheiro, boa gestão e material didático de primeira classe.

Pouco depois, preparei um relatório para o Ipea, em que antecipava que, a despeito do foguetório, não melhorariam os números. E isso por várias razões. Já então, como poucos jovens deixavam de entrar na escola, os analfabetos eram cada vez mais velhos. Portanto, mais desinteressados em tais programas. Diante da dificuldade de encontrar alunos, o Mobral passou a matricular muitos contados como alfabetizados pelo Censo.

Naquela época, a experiência internacional com programas de alfabetização de adultos permitia várias conclusões. Para a vasta maioria, programas curtos (poucos meses) não resolvem. Como exemplo de sucesso era citado Israel, cujo programa, de um ano, tinha aulas durante o dia inteiro. Também se verificava que a maioria abandonava o curso ou se formava sem aprender a ler e escrever. E que, por não ter como usar o aprendido, grande parte regredia ao analfabetismo. Ademais, muitos se ajustavam à situação e temiam repetir sua malsucedida aventura escolar anterior, quando jovens. Dito e feito. O Censo seguinte negava os avanços que o Mobral trombeteava.

Tudo o que precisamos saber hoje poderíamos haver aprendido com o Mobral. Mas ignoramos a lição da história. Voltamos à carga, com programas de concepção velha. Alfabetizar requer mais que boa vontade e uma grande compaixão. É uma técnica a ser aprendida pelos professores, sempre equipados com materiais bem escolhidos.

Hoje, quase todos os jovens frequentam as escolas. Mais que naquela época, o que reduz o analfabetismo é a demografia, com os analfabetos ficando cada vez mais velhos e desaparecendo. Dos que sobram, poucos têm o perfil para se beneficiar dos cursos oferecidos. De fato, o analfabetismo de hoje se concentra fortemente nos mais velhos, refratários a tais programas. Pelo desinteresse dos potenciais candidatos, ali ou acolá, chegamos a ter mais alfabetizadores que matrículas.

É insensato e perdulário repetir os programas de massa que sistematicamente falharam. É hipocrisia ou ingenuidade insistir na mesma tecla e, pior, oferecer programas “meias-bocas” e curtos. Gasta-se uma fortuna, criam-se frustrações em todos os azimutes e não aparecem os benefícios tangíveis — como não apareceram antes.

Ao mesmo tempo, as nossas escolas regulares continuam produzindo uma taxa inaceitável de jovens que soletram meia dúzia de palavras, leem qualquer coisinha e rabiscam a assinatura. Pelos testes do MEC, são analfabetos funcionais. Acabar com o analfabetismo desses jovens que passam muitos anos na escola deveria ser a grande prioridade nacional. Essa meta é viável e se materializa dentro das escolas que já existem. Basta melhorar o ensino.

Publicado em VEJA de 30 de agosto de 2017, edição nº 2545

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