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A luta nas empresas

Ampliar a presença de negros nas companhias é um objetivo que não será alcançado sem o engajamento dos presidentes e demais executivos

A luta contra o racismo nas empresas precisa contar com a participação mais ativa dos executivos que estão nos principais cargos. Isso é fundamental para que o Brasil possa avançar como país e como sociedade. Se um profissional branco busca um emprego e não o consegue, nunca vai cogitar a hipótese de que isso aconteceu porque ele é branco. E o negro sabe que essa é uma possibilidade para ele. Assumi a presidência da Bayer do Brasil em 2011. Pensei: “Preciso tomar alguma atitude para ampliar a presença de negros aqui, mas não sei como começar”. Eu me lembro do dia em que tomei um café com dois funcionários negros da companhia e perguntei a eles o que poderia fazer para aumentar o número de negros na empresa, especialmente em cargos mais altos. Perguntei também como se sentiam na Bayer. Eles disseram que eram bem tratados, mas entendiam que tinham de se esforçar muito mais para alcançar reconhecimento profissional e conquistar uma promoção. Levei isso como mensagem. Naquele momento, percebi claramente que, se não me engajasse mais, não haveria grandes mudanças no tratamento dispensado aos negros.

O governo já estabeleceu uma cota nas universidades. Falta agora às empresas do setor privado ser mais proativas nesse tema. Antigamente, as companhias só se preocupavam com o lucro financeiro. Mas hoje, cada vez mais, elas e os executivos olham também para o legado, que é o lucro deixado para a sociedade e o meio ambiente. Não acho necessário que haja uma cota estabelecida por lei, porque nós podemos fixar metas morais: “Assumimos o compromisso de ampliar a presença de negros em tais áreas até determinado ano”. Na Bayer, planejamos adotar a meta de ter 20% de estagiá­rios negros até 2020. Iniciando pelo estágio, vamos conseguir atrair os talentos que estão saindo da faculdade. Ou seja, pouco a pouco podemos alterar esse quadro. As mudanças são graduais, mas precisam começar em algum momento; do contrário, a situação nunca vai melhorar como queremos. Em alguns casos de recrutamento, é preciso flexibilizar as exigências, como falar inglês. Candidatos negros podem aprender a língua com o tempo, como todos podem. Os negros não querem favores, querem oportunidades. Muitas vezes, para chegar aonde chegaram e participar de um processo de seleção, precisaram se esforçar muito mais do que outros candidatos que tiveram privilégios na vida, como a oportunidade de fazer um intercâmbio ou estudar em uma escola de línguas. Se o candidato tem potencial, sempre merecerá uma chance.

Criamos um grupo de afinidades que promove workshops para organizar o pensamento sobre o assunto dentro da Bayer. Esse grupo também discute quais as melhores maneiras de disseminar entre os gestores da companhia a consciência sobre a importância do tema. O departamento de recursos humanos sempre foi o meu maior aliado na busca pelo aumento da representação dos negros na empresa, mas eu dependo muito dos gestores. São eles os profissionais que contratam efetivamente, porque o departamento de recursos humanos só dá encaminhamento para a contratação de pessoas que foram pré-selecionadas. Não achamos que a Bayer é uma ilha perfeita e que o problema está apenas fora daqui. Entendemos que precisamos ser mais atuantes. Segundo o último levantamento que fizemos, os negros representam apenas 15% dos funcionários da companhia; nos cargos mais elevados, a representatividade é menor, de 4%. Sabemos que não vamos mudar essa situação de um dia para o outro. Mas devemos procurar meios para transformar esse quadro. Por exemplo, fizemos uma parceria com uma empresa que tem um banco de candidatos negros.

No início do ano, publiquei um post no LinkedIn denunciando um caso de racismo contra um executivo que é meu amigo e ouviu do recrutador: “Não entrevisto negros”. Foi um desabafo. Jamais imaginei uma repercussão tão grande. Recebi várias mensagens de profissionais negros que não quiseram se identificar publicamente com medo de perder o emprego. Recebi mensagens de mulheres negras, que são o maior alvo de discriminação. Conheci também gente fantástica de fora da Bayer: juízes, empresários, advogados, executivos, pessoas de altíssimo nível, todas bem qualificadas. Por outro lado, chamou-me atenção o fato de que poucos executivos tenham comentado o episódio. Mas eu sabia que não estava fazendo nada de errado, muito pelo contrário. Os funcionários da Bayer me apoiaram. Eles se mostram orgulhosos por trabalhar em uma empresa que abraça a causa da diversidade. O reconhecimento é gratificante.

Defendo essa questão faz alguns anos. Há executivos que dizem me apoiar, e pergunto a eles: “Se vocês concordam comigo, por que fazem tão pouco? Ou por que transformar essa situação não é uma prioridade para vocês?”. O CEO delega a causa à área de RH e entende que basta afirmar: “Temos políticas contra o racismo e isso está com o RH”. Mas, na verdade, é uma questão de presidente, senão a mudança não vai avançar. Digo a qualquer presidente que esteja pensando em adotar políticas semelhantes: “Faça-o, porque será uma experiência pessoal maravilhosa. E você conhecerá profissionais muito competentes, dentro e fora da sua empresa”. Percebo que os executivos no Brasil não são contra essas medidas, mas eles não sabem como abordar o assunto. Recomendo-­lhes que conversem mais com os funcionários negros de suas empresas. Podem começar com um grupo pequeno e depois ampliar o diálogo. A maior ajuda que recebi foi de profissionais negros que trabalhavam na Bayer.

Para cada crítica que fazem a mim em alguma rede social em virtude da minha iniciativa de defender a causa, recebo dezenas de comentários de gente que me dá força e diz que eu tenho de prosseguir. O que me inspira a continuar também é saber que estou praticando o bem. Sou brasileiro, nasci e cresci aqui e quero fazer o bem ao meu país. Sou também cidadão holandês e poderia morar na Holanda, mas a minha opção foi viver aqui. O Brasil é um país maravilhoso, mas temos de fazer algo para lutar contra a discriminação dos negros. No mundo corporativo, cabe a nós, presidentes e executivos, tomar as iniciativas.

* Theo van der Loo é presidente executivo da Bayer do Brasil

Publicado em VEJA de 16 de agosto de 2017, edição nº 2543