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A infância vendada

A maior favela do Rio de Janeiro há um mês convive com um brutal confronto de duas quadrilhas de traficantes

Seja qual for a idade de uma criança, sua infância começa a acabar quando ela é obrigada a se espremer contra as paredes de uma viela para se desviar de corpos ensanguentados. A rotina macabra tem sido uma lastimável constante na Rocinha, a maior favela do Rio de Janeiro, que há um mês convive com um brutal confronto de duas quadrilhas de traficantes, entremeado de incursões da polícia. As famílias fazem o que podem para preservar os pequenos, como a senhora da fotografia acima, mãe e avó dos alunos a caminho da escola, que tapou os olhos dos menorzinhos para que não vissem os cadáveres na rua — dois homens fuzilados na cabeça sob lençóis colocados por moradores. De novo: cobrem-se os olhos dos pequenos a caminho da escola para que não vejam os cadáveres. A mulher não quis se identificar, como é comum entre as vítimas do medo em morros conflagrados, das quais o falido Rio de Janeiro está cheio. Sabe-se apenas que ela sustenta filhos e netos vendendo artesanato e reciclando latinhas de alumínio. Tenta, como em tantas outras famílias, manter as crianças estudando, mas, por causa dos tiroteios, as nove escolas da Rocinha mais fecharam do que abriram nas últimas semanas. Desde que a carnificina explodiu, em setembro, o balanço de mortos a bala é de, em média, um por dia na favela encravada na Zona Sul carioca. Embora 1 150 homens das Forças Armadas e da Polícia Militar tenham sido despachados para o morro, a batalha entre chefões do tráfico não dá sinais de arrefecer. Fica a pergunta: até quando a infância continuará a ser interrompida por tiro e sangue?

Publicado em VEJA de 18 de outubro de 2017, edição nº 2552