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A elite revolucionária

Noção de que mudanças radicais na sociedade só podem ser alcançadas por pessoas que se dedicam integralmente à causa sobrevive entre ativistas do século XXI

Em 10 de outubro de 1917, uma estranha figura cruzou Petrogrado para uma reunião secreta num apartamento situado em um edifício de estilo art nouveau. Tinha o rosto bem barbeado e ostentava um boné de maquinista de trem sobre uma peruca grisalha feita por um artesão que costumava produzir figurinos para o Teatro Mariinski. O cabelo falso escorregava na cabeça calva de Vladimir Lenin (1870-1924), o líder do Partido Bolchevique, mas ele não estava mais ridículo do que os onze companheiros com quem se encontrou naquele dia: todos usavam disfarces. Fazia apenas sete meses que o czar Nicolau II abdicara, o que havia permitido aos bolcheviques voltar do exílio para tomar parte no poder dual que passou a comandar a Rússia: o governo provisório, de maioria liberal, e o Soviete de Petrogrado. Lenin regressara da Suíça em abril e ficara os três meses seguintes conspirando às claras contra o governo, com o lema “todo o poder aos sovietes”. Apesar disso, ele e seus companheiros foram pegos de surpresa quando cerca de meio milhão de pessoas, segundo testemunhas da época, tomaram as ruas da capital em julho, insatisfeitas principalmente com a demora do governo provisório em encerrar a participação russa na I Guerra Mundial. O movimento foi interpretado como uma tentativa de insurreição bolchevique, e uma ordem de prisão foi decretada contra Lenin. Novamente na clandestinidade, ele se refugiou na Finlândia e só retornou a Petrogrado dias antes da reunião de 10 de outubro, quando os bolcheviques concluíram que chegara a hora de tomar o poder. Isso ocorreu dezesseis dias depois, às vésperas do encontro do II Congresso dos Sovietes. A revolução de outubro, que resultou num governo de partido único, tomou as ruas em nome da classe operária. E, de fato, os bolcheviques foram os que mais conquistaram adeptos entre os operários no período de frustrações e vácuo de poder dos primeiros meses pós-czarismo.

Uma revolução feita nas sombras por uma liderança de vanguarda apoiada pelo proletariado — eis um desenlace que Lenin planejara por pelo menos quinze anos e que sobreviveu no imaginário de militantes de esquerda e autointitulados revolucionários pelos 100 anos seguintes, até a atualidade. “A Revolução Bolchevique de 1917 foi a primeira feita intencionalmente por revolucionários profissionais”, diz Karl Qualls, professor de história russa no Dickinson College, em Carlisle, nos Estados Unidos. “A Revolução Americana, de 1776, e a Francesa, de 1789, também contaram com ativistas empenhados em produzir discursos e panfletos, mas ambas foram em grande parte acidentais e seus líderes dedicavam-se, antes de mais nada, a atividades convencionais, como as de comerciantes, fazendeiros, clérigos, entre outras”, afirma Qualls. Já os líderes bolcheviques, ainda que tenham recebido formações profissionais comuns, empregavam todo o seu tempo em pensar e escrever sobre a revolução — e, principalmente, em planejá-la.

Filho de um inspetor de escola e irmão de um radical populista que foi executado por planejar o assassinato do czar Alexandre III, Lenin formou-se em direito, entrou em contato com as obras de Marx e, em 1893, iniciou-se na agitação revolucionária, distribuindo panfletos na porta das fábricas de São Petersburgo (mais tarde Petrogrado). A experiência provou-se decepcionante, pois os operários não estavam interessados em política. As atividades subversivas renderam-lhe uma condenação de três anos de exílio na Sibéria. Lá, em 1901, Lenin escreveu Que Fazer?, um de seus textos mais influentes, no qual argumenta que o proletariado, por si só, não é capaz de fazer a revolução, pois consegue no máximo desenvolver uma consciência sindical, de acomodação ao sistema capitalista, e não uma consciência de classe, que incita à luta. Somente um partido revolucionário atuando na clandestinidade, com uma disciplina rígida e hierarquizada, pode conduzir os trabalhadores rumo ao socialismo. “A organização dos revolucionários deve consistir, antes de mais nada, em pessoas que fazem da atividade revolucionária sua profissão”, escreveu Lenin.

Base – Soldados do Exército Vermelho na guerra civil: sem eles e os operários, a vanguarda bolchevique fracassaria (Biblioteca Nacional de Moscou//)

Evidentemente, quem tinha os instrumentos para assumir essa função era uma elite intelectual emergente (a intelligentsia), da qual fazia parte o próprio Lenin. Cabia a ela “educar” o proletariado sobre o seu papel e o seu futuro. Essa ideia pode ser encontrada até hoje, de maneira mais ou menos explícita, nos textos de divulgação na internet, na forma de organização e nos discursos de diversos movimentos sociais de matizes distintos, de grupos de sem teto a coletivos feministas. Ademar Bogo, um dos líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), escreveu em um de seus livros: “Nossa preocupação deve ser a de organizar corretamente os ‘seres assentados’ para que venham a ter correta consciência social”. As massas, portanto, não estão preparadas para definir seu rumo enquanto não aparece um guia supremo que funcione como farol do povo.

A maioria das revoluções do século XX, bem-sucedidas ou não, foi encabeçada por revolucionários profissionais na concepção leninista. Incluem-se aí, entre outras, a Revolução Chinesa, de 1949, e a Cubana, de 1959. O mais conhecido revolucionário profissional foi sem dúvida o argentino Ernesto Che Guevara (1928-1967), que, depois de ajudar os irmãos Castro a tomar o poder em Cuba, tratou de liderar insurreições armadas no Congo e na Bolívia. “Contudo, ao contrário de Lenin, que dizia que o revolucionário profissional não pode operar sozinho, mas sim na vanguarda de um partido disciplinado e organizado, Che Guevara acreditava que bastava empregar seu entusiasmo na causa certa para alcançar o sucesso”, diz Jack A. Goldstone, um estudioso da história das revoluções da Universidade George Mason, nos Estados Unidos. O voluntarismo de Guevara foi um fenômeno que acometeu boa parte dos militantes, em sua maioria de classe média, que se enfronharam na luta armada durante a segunda metade do século XX na América Latina, inclusive no Brasil. Ainda que fossem revolucionários profissionais, pois se dedicavam integralmente à causa, financiando-se com sequestros e assaltos (as “expropriações”, eufemismo que já era usado por socialistas russos antes de 1917), esses militantes distanciaram­-se das massas. Atualmente, a situação se inverteu. “Os revolucionários profissionais de hoje são ativistas de esquerda que vão a campo para ‘educar’ as pessoas a respeito do funcionamento do capitalismo. Já a ideia de reunir um grupo de pessoas para derrubar o governo imediatamente, à força, para promover mudanças radicais foi abandonada”, diz o cientista político Justin Murphy, da Universidade de Southampton, no Reino Unido. A elite revolucionária do século XXI é mais elite do que revolucionária.

Publicado em VEJA de 11 de outubro de 2017, edição nº 2551