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Ministro mais próximo de Temer, Eliseu Padilha deixará o governo

Movimento é interpretado como a possibilidade de os aliados mais próximos do vice-presidente tentarem se desvincular da presidente

O ministro da Secretaria de Aviação Civil Eliseu Padilha deve deixar o governo nos próximos dias. A decisão, tomada depois da abertura do processo de impeachment contra Dilma na última quarta-feira, vinha sendo amadurecida depois de Padilha reclamar nos bastidores que não conseguia mais interlocução com o Palácio do Planalto nem destravar a nomeação de Juliano Noman para a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

Sem explicações a Padilha, a indicação de Noman foi retirada pela Casa Civil e a sabatina do atual secretário de Aeroportos, ligado também ao ex-ministro Moreira Franco, foi cancelada. Nos últimos dias, Padilha tentou, em vão, destravar a indicação com os ministros Ricardo Berzoini (Secretaria de Governo) e Jaques Wagner (Casa Civil), mas ele não foi recebido pelos dois auxiliares de Dilma. Ambos sequer retornaram os telefonemas de Padilha. O episódio, segundo aliados, foi a gota d’água para o pedido de demissão, mas os efeitos políticos da decisão podem ser devastadores.

Diante do esgarçamento da crise política no governo, que agora tentará cabalar votos para derrubar em Plenário as chances de a presidente Dilma Rousseff sofrer um processo de impeachment, a saída de Padilha do governo é interpretada como a possibilidade de os aliados mais próximos do vice-presidente Michel Temer tentarem se desvincular da presidente Dilma e articular nos bastidores a destituição da petista. O impeachment da presidente levaria Michel Temer ao poder.

“É claro que essa saída vai ajudar a agravar o quadro. Isso magoou também o Michel, Padilha é muito próximo a ele e vai fazer que ajude a incendiar a ala da bancada mais rebelde”, relatou um interlocutor do PMDB. “Agora o Padilha vai navegar contra, assim como o Moreira Franco, que também deixou o governo porque estava magoado”, completou.

Também próximo a Temer, o ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves, agora passa a sofrer pressão da bancada peemedebista para seguir os mesmos passos de Padilha. “É um gesto político e cada um toma o seu. A decisão de Padilha é uma referência. Agora, cada um, de acordo com a sua avaliação política, vai escrever seu próprio caminho”, afirmou o ex-ministro Moreira Franco, que é ligado ao vice-presidente. Moreira, no entanto, evitou opinar se Alves deve ou não entregar o posto.

Padilha atuou como braço direito do vice-presidente quando Temer acumulou a função de articulador político do governo no Congresso. Cabia a ele elencar em tabelas as demandas políticas de cada aliado para contabilizar os apoios em votações importantes. É exatamente o trânsito político que ele tem com deputados que preocupa o Palácio do Planalto.

Tesoureiro de Michel Temer na campanha à reeleição, Eliseu Padilha também é um dos patronos da tese jurídica segundo a qual o vice-presidente poderia ser poupado caso o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) casse o mandato de Dilma por abuso de poder político e econômico.

O próprio Temer recebeu nos últimos dias parlamentares de oposição instantes antes de o presidente da Câmara Eduardo Cunha ter recebido denúncia contra Dilma por crime de responsabilidade. Embora mantenha articulação com políticos oposicionistas, publicamente a estratégia de Temer é ficar recluso para evitar ser alvo de um ataque especulativo sobre sua participação na tramitação do processo de impeachment de Dilma.

Eliseu Padilha deve falar com a presidente Dilma ainda nesta sexta-feira para comunicar a saída do governo.