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Lula diz a Moro desconhecer documento apreendido em sua casa

Ex-presidente afirmou que contrato de opção de compra de imóvel em São Paulo, pago pela Odebrecht, deve ter sido encontrado em cômodo 'de jogar tranqueira'

Em seu depoimento ao juiz federal Sergio Moro, nesta quarta-feira, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi confrontado com um documento apreendido pela Polícia Federal em seu apartamento, em São Bernardo do Campo (SP), e disse ao magistrado que não o conhecia, nem nunca o tinha visto. O contrato apresentado ao petista por Moro é a opção de compra de um imóvel em São Paulo que, conforme a acusação do Ministério Público Federal, foi adquirido pela Odebrecht para ser a sede do Instituto Lula.

O documento (veja abaixo) mostra como interessado no imóvel o pecuarista José Carlos Bumlai, amigo de Lula, representado no contrato pelo advogado Roberto Teixeira, compadre do ex-presidente. Segundo a denúncia do MPF, a negociação com os proprietários do prédio foi conduzida por Bumlai e Teixeira e a compra, por 12,4 milhões de reais, concretizada pela DAG, construtora indicada pela Odebrecht e reembolsada pela empreiteira. Lula nega conhecer a DAG: “Eu não sei se quem pagou foi a DAG, o Itaú, o Bradesco, Bamerindus…”.

(Reprodução/Reprodução)

Ao apresentar o documento a Lula, Moro mencionou apenas os nomes do pecuarista e do advogado, sem citar que ele fora apreendido na residência do ex-presidente. “Doutor, até queria fazer uma sugestão para o senhor. Essas coisas feitas aí por Bumlai e qualquer outra pessoa que eu não participei, é melhor você perguntar para eles porque eu não sou obrigado, nem o José Carlos Bumlai tinha qualquer obrigação de apresentar qualquer projeto para mim, ou o Roberto Teixeira. Como eu não tinha que prestar contas a eles do que eu fazia. Então quando eles vão prestar depoimento, acho que o Ministério Público deveria perguntar a eles”, respondeu o ex-presidente.

Diante da afirmação de Lula, o magistrado perguntou se o petista conhecia ou já tinha visto o contrato de opção de compra. Com as respostas negativas do ex-presidente, Moro informou a ele que o documento fora recolhido em sua casa. Lula foi alvo de mandados de busca e apreensão e condução coercitiva na Operação Aletheia, 24ª fase da Lava Jato, deflagrada em março de 2016.

Ao reforçar que não conhecia o contrato firmado por dois de seus amigos, o petista citou um cômodo de sua casa em que ele disse nunca ter entrado. “Não sei o que eles encontraram na minha residência, doutor. Eles entraram seis horas da manhã na minha casa, entraram em um escritório na minha casa que faz exatamente 20 anos que eu moro naquela casa e 20 anos que eu não entro naquele escritório. Eu diria que é quase um lugar de jogar tranqueira, de jogar papeis e mais papeis. O fato de terem encontrado isso em um escritório na minha casa não significa que eu tenho conhecimento e que eu tenha visto. Até porque eu não sou obrigado a acreditar que encontraram na minha casa”, esbravejou.

Nas cerca de duas horas em que falou a Sergio Moro, Lula afirmou que o imóvel oferecido ao Instituto Lula era “inadequado”, “um prédio velho que precisaria ser demolido se fosse adquirido” e não estava em uma região onde “transita realmente o povo de São Paulo”. O prédio acabou descartado para a instalação da instituição, que funciona no bairro do Ipiranga, na capital paulista.

Após ouvir do juiz federal que José Carlos Bumlai citou, em depoimento, tratativas sobre a compra da sede do Instituto Lula com a ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva, o ex-presidente declarou que proibia familiares e aliados próximos de tratarem sobre suas atividades depois de deixar a presidência. “Ninguém no meu governo, nem muito menos na minha casa, discutia comigo qualquer coisa de instituto porque eu dei uma ordem: não quero discutir o futuro do Lula antes do dia 31 de dezembro de 2010”.

Além da compra do imóvel ao Instituto Lula, o processo que tem o ex-presidente Lula entre os réus apura se ele foi beneficiado pela Odebrecht por meio da compra de um apartamento vizinho ao dele, no ABC paulista. O MPF sustenta que o dinheiro da suposta propina teria sido retirado pela empreiteira de contratos firmados com a Petrobras.