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Leonardo Picciani: ‘Nunca fui dependente de Eduardo Cunha’

Antes fiel escudeiro do presidente da Câmara, o líder do PMDB na Casa ensaia "carreira solo" e acena ao Planalto, o que tem provocado irritação na bancada

A CPMF é uma alternativa para o fechamento das contas públicas. É imprescindível que seja absolutamente compartilhada com Estados e municípios, que em alguns casos têm mais dificuldades que a União. É um imposto justo: paga mais quem tem mais, e é revertida em benefício da saúde

Ao assumir a presidência da Câmara, em fevereiro, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) trabalhou pessoalmente pela eleição de um sucessor na liderança do PMDB para ajudá-lo a ditar o ritmo da Casa e pavimentar um amplo e multipartidário apoio à sua gestão, que desde o início prometia turbulências para o Planalto. Com a bênção do peemedebista, assumiu a cadeira seu conterrâneo Leonardo Picciani, deputado da ala rebelde do partido que, em 2014, votou pela ruptura da aliança do PMDB com o governo e fez campanha pela eleição do tucano Aécio Neves à Presidência. A parceria deu certo e Picciani se tornou o fiel escudeiro de Cunha na Câmara, o que resultou em sucessivas derrotas ao governo. Mas, sete meses depois, a relação entre os correligionários dá sinais de estremecimento. Com o aval do ex-governador fluminense Sérgio Cabral e do governador Luiz Fernando Pezão, Picciani tem feito sucessivos acenos ao Planalto, inclusive reunindo-se a sós com a presidente Dilma Rousseff, o que causou irritação em setores independentes do partido – que já falam em isolá-lo. O líder peemedebista ainda surpreendeu ao apoiar o retorno da CPMF, o imposto do cheque, criticado por Cunha e pelo vice-presidente Michel Temer, e ao publicar nota em que deixava em aberto o apoio ao chefe da Câmara após Cunha ter sido denunciado por envolvimento no petrolão.

Picciani pondera que tem agido como interlocutor da bancada e manda um recado aos críticos: “Se há uma minoria que se incomoda com isso, eu sugiro que procure um psicólogo ou faça qualquer coisa”, afirmou. E continua: “Eu nunca tive, seja em relação a Cunha ou a qualquer líder do PMDB, nenhuma interdependência. Sempre exerci meus mandatos com independência e sigo da mesma forma na liderança. A única dependência que eu tenho é a decisão majoritária da bancada. Fora isso, eu não tenho nenhuma subordinação nem compromisso de segmento com nenhum tema ou com quem quer que seja”, disse. Confira outros trechos da entrevista ao site de VEJA:

Parlamentares reclamam que a Dilma está passando ao Congresso a responsabilidade pelo déficit no Oorçamento. O senhor tem a mesma percepção? Eu não acho que seja uma tentativa de empurrar o problema para o Congresso. São as circunstâncias. De fato, o problema existe e precisa ser enfrentado. Evidentemente o Executivo tem de fazer o seu dever de casa, e isso significa cortar despesas, sobretudo do custeio. O Congresso viu com bons olhos o anúncio de redução do número de ministérios e de cargos em comissão. Isso agora precisa ser detalhado e implementado. Achamos que fazendo isso e o Congresso debatendo sobre uma peça que traz um quadro duro, mas que é real, é possível fazer os ajustes necessários, como cortar despesas e discutir novas fontes de receita.

A CPMF, talvez? A CPMF é uma alternativa para o fechamento das contas públicas. É imprescindível que seja absolutamente compartilhada com Estados e municípios, que em alguns casos têm mais dificuldades que a União. É um imposto justo: paga mais quem tem mais, e é revertida em benefício da saúde. Quem utiliza a saúde publica é quem tem menos. Se fizermos uma conta, mais de 75% da população ganha até 2.000 reais. Essa pessoa pagará 7,60 reais de CPMF, mas terá um investimento de 80 bilhões na saúde. Quem pagará mais é quem movimenta mais e faz cheques mais altos. Evidentemente o Brasil tem uma alta carga tributária que precisa ser discutida, mas a CPMF, especificamente, é um imposto justo.

Esse posicionamento contraria o de Michel Temer e o do Eduardo Cunha. Houve algum tipo de mal-estar interno? De forma alguma. Cada um tem o direito de ter a opinião que acha mais apropriada. A minha é essa. Quem tiver uma opinião contrária, que a explicite. Esse tema não foi objeto de debate na bancada, até porque não está em tramitação no Congresso.

Nos corredores do Congresso corre a informação de um desgaste entre o senhor e o presidente da Câmara. Em absoluto. A relação pessoal, partidária e política continua a mesma que nós sempre tivemos. Quem diz isso certamente tem o objetivo de criar cizânia e intriga dentro da bancada do PMDB.

Foram citados casos como o apoio à CPMF e encontro com a Dilma para negociar cargos e liberação de emendas. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Não existe esse clima. Cabe ao líder da bancada fazer a interlocução em nome da bancada e evidentemente a maioria da bancada deseja interlocução com o governo e a presidente da República. Se há uma minoria que se incomoda com isso, eu sugiro que procure um psicólogo ou façam qualquer coisa.

O senhor não corre o risco de ficar isolado? Ao contrário. Eu estou representando a posição da maioria da bancada, que deseja o diálogo. E o diálogo deve ser institucional. Eu converso tanto com o governo quanto com a oposição. O presidente Eduardo tem esse papel institucional e acho que ele e a Dilma fizeram bem em conversar. Afinal de contas, são chefes de Poderes e o país precisa que todos que o dirigem se entendam bem para encontrar a solução dos problemas.

Sua aliança com o Cunha hoje é inquebrável ou o senhor avalia que é possível ter uma autonomia e ditar novos rumos enquanto ele está rompido com o governo? Eu nunca tive, seja em relação a Cunha ou a qualquer líder do PMDB, nenhuma interdependência. Eu sempre exerci meus mandatos com independência e sigo da mesma forma na liderança. A única dependência que eu tenho é a decisão majoritária da bancada. Fora isso, eu não tenho nenhuma subordinação nem compromisso de segmento com nenhum tema ou com quem quer que seja.

Em votações de bandeiras de Cunha, então, o senhor pode não seguir a indicação dele? Eu vou seguir a indicação da bancada. Qualquer tema, independentemente de quem seja o defensor, é debatido na bancada. Quem define a minha posição enquanto líder não sou eu nem o Eduardo nem outro deputado qualquer, é a posição majoritária da bancada. Posições minoritárias não serão encaminhadas.

O senhor defende o rompimento do PMDB com o governo? Antes de tudo, o congresso do partido tem de ser marcado. Eu defendo um único caminho possível. O que definiu a entrada do partido no governo foi a Convenção Nacional, que é o órgão máximo do partido. Eu inclusive votei contrário à aliança no ano passado, e perdi a votação. Mas agora eu defendo a posição de dialogo e de recomposição da base.

É uma mudança de tom? Eu perdi na Convenção. Tenho convicção de que eleição se deve disputar ate às 17 horas do dia da eleição, depois vale o resultado das urnas. Como a população decidiu, acho que em benefício do país o PMDB tem um papel importante com a governabilidade. Evidentemente tem de manter a sua prerrogativa de dar opiniões e eventualmente discordar e fazer sugestões. Mas acho que buscar o diálogo com o caminho de convergências que ajude na solução de temas nacionais é o que nós devemos fazer neste momento, até porque a decisão do partido que está válida é essa. Eu não defendo a ruptura. O PMDB pode discutir, mas eu não creio que nesse momento seja o melhor para o partido fazer em função da necessidade de se garantir a governabilidade.

Mesmo que isso sacrifique as pretensões de 2018? Eu não vejo nenhum prejuízo para 2018. Ao contrário. Está claro que o PMDB deseja apresentar um nome e um projeto ao país e isso será feito. Quando o partido apresenta uma candidatura não quer dizer que é contra ninguém, e sim que é a favor das teses que defende e do seu projeto.