Farsa na CPI foi combinada com assessores do Planalto

Número dois das Relações Institucionais ajudou a elaborar plano de trabalho da comissão. Sua função: blindar Dilma e a cúpula da Petrobras, informa jornal

Reportagem publicada na edição desta quarta-feira do jornal Folha de S. Paulo reforça as evidências de envolvimento do Planalto na farsa montada por governistas e pelo PT para impedir investigações na CPI da Petrobras no Senado – revelada por VEJA nesta semana. Segundo o jornal, Luiz Azevedo, secretário-executivo das Relações Institucionais, ajudou a elaborar o plano de trabalho apresentado pela comissão em maio, que incluía um roteiro para a investigação e sugestões de perguntas. A pasta é chefiada por Ricardo Berzoini, que presidia o PT à época do escândalo dos aloprados. E foi alçado ao ministério por Dilma em abril deste ano, um mês antes do início da CPI. O vídeo que comprova a fraude – ao qual VEJA teve acesso – revela que Paulo Argenta, outro assessor das Relações Institucionais, foi um dos responsáveis pela preparação das questões antecipadas aos depoentes. Azevedo é o número dois da pasta responsável pela articulação do governo com o Congresso. Azevedo e Argenta coordenaram a atuação da cúpula Petrobras e da liderança do PT no Senado ao longo dos trabalhos da comissão.

VEJA revelou nesta semana que governistas engendraram esquema para treinar os principais depoentes à comissão de inquérito, repassando a eles previamente as perguntas que seriam feita na CPI e indicando as respostas que deveriam ser dadas. Paulo Argenta; Marcos Rogério de Souza, assessor da liderança do governo no Senado; e Carlos Hetzel, secretário parlamentar do PT na Casa, formularam perguntas aos depoentes e atuaram para que as respostas, tal qual um gabarito de prova, fossem entregue às pessoas que falariam à comissão. O kit de perguntas e respostas foi distribuído ao ex-presidente da estatal José Sergio Gabrielli e ao ex-diretor Nestor Cerveró, apontado como o autor do “parecer falho” que levou a estatal do petróleo a aprovar a compra da refinaria de Pasadena, no Texas, um negócio que causou prejuízo de quase 1 bilhão de dólares à empresa. A atual presidente da companhia Graça Foster também recebeu as perguntas da CPI por meio do chefe do escritório da empresa em Brasília, José Eduardo Barrocas.

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Segundo a Folha, Azevedo foi escalado pelo governo para blindar a presidente Dilma Rousseff e evitar que o trabalho da CPI atingisse a atual diretoria da estatal. Cabia a ele fazer a interlocução com a cúpula da Petrobras e afinar a tática governista na CPI. Já Argenta era o responsável por evitar que as investigações saíssem do controle ou causassem dissabores ao governo. Ainda segundo a reportagem, o Planalto discutiu com assessores do PT no Senado e o chefe do escritório da Petrobras em Brasília a conveniência da aprovação de requerimentos pelo colegiado. Assessores do governo pediram ainda que a CPI não votasse vários deles, uma vez que poderiam provocar embaraços ao Planalto. O jornal informa também que mais de cem perguntas preparadas para a CPI foram compartilhadas pelo PT com o governo. Os lotes com os questionamentos foram entregues por Marcos Rogério, assessor da liderança do PT na Casa.

O governo afirma que qualquer parlamentar tem o direito de inquirir depoentes. Já a Secretaria de Relações Institucionais informa que “faz parte das atribuições da pasta, portanto dos servidores mencionados, acompanhar as atividades legislativas, inclusive as Comissões Parlamentares de Inquérito”.

Nesta terça-feira o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), afirmou que a Casa vai criar uma comissão de sindicância para investigar a fraude na CPI da Petrobras. “A CPI é uma instituição que não pode sair arranhada. É um instrumento fundamental de fiscalização e de cumprimento do papel do Legislativo. Então é preciso esclarecer tudo na forma do que foi denunciado”, disse. A criação da sindicância foi solicitada pelo presidente da comissão de inquérito, senador Vital do Rêgo Filho (PMDB-PB). Vital também solicitou que a Polícia Federal investigue o caso.

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A esta altura, está claro que a farsa armada na CPI da Petrobras no Senado, que envolveu parlamentares do PT, o governo e o comando da Petrobras, constitui uma grave agressão à democracia, ao Poder Legislativo e ao estado de direito. Tenham clara uma coisa, leitores: da forma como se deu a tramoia, estamos diante de algo inédito. O PT desce a um novo patamar da degradação institucional a que submete o país há 12 anos. A direção do Senado mandou abrir uma sindicância para apurar o caso. Nesta terça, surgiram novas evidências de que o comando da operação esteve mesmo no Palácio do Planalto, mais especificamente aos cuidados de dois assessores diretos do ministro Ricardo Berzoini, da Secretaria de Relações Institucionais: Luiz Azevedo e Paulo Argenta. Tudo conforme denunciou reportagem da VEJA, que veio a público no sábado.