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Ex-secretário nacional de Segurança avalia como “um desastre” a ação da polícia carioca

José Vicente da Silva analisa os erros cometidos na operação que resultou em tiroteio e invasão de hotel de luxo no Rio

“A hipótese de uma ação planejada não é totalmente afastada. Mas a polícia só reconhecerá isso em último caso. Porque, se for verdade, foi uma ação totalmente desastrosa, incompetente, de pessoal despreparado para agir nesse tipo de situação”

O coronel José Vicente da Silva fez carreira na Polícia Militar de São Paulo e, desde que se reformou, dedicou-se ao estudo das questões ligadas à segurança pública. Foi secretário nacional de Segurança Pública no governo de Fernando Henrique Cardoso e é um requisitado consultor nas questões relativas à segurança. A pedido de VEJA.com, ele analisou os erros cometidos pela polícia no enfrentamento com traficantes que resultou no tiroteio em São Conrado e na invasão do hotel InterContinental, nas duas hipóteses: a de uma ação planejada e a de um confronto estabelecido a partir de um encontro casual entre policiais e traficantes. “Foi um desastre”, resume.

Na entrevista, ele diz também que as Unidades de Polícia Pacificadora têm que ser “um remédio dentro de um grande esquema de tratamento da violência.” E afirma que o governo do Rio de Janeiro comete um grave erro ao basear sua política de segurança nas UPPs.

HIPÓTESE 1 – AÇÃO PLANEJADA

Um sistema de inteligência capacitado deveria ser capaz de identificar uma movimentação de criminosos como a que aconteceu na manhã de sábado. Porque para chamar todo mundo, arrumar esse monte de veículos, é preciso uma logística que despertaria a atenção de qualquer setor sensível de inteligência. A hipótese de uma ação planejada não é totalmente afastada. Mas a polícia só reconhecerá isso em último caso. Porque se for verdade foi uma ação totalmente desastrosa, incompetente, de pessoal despreparado para agir nesse tipo de situação.

HIPÓTESE 2 – CONFRONTO AO ACASO

A polícia tem o compromisso de não dar tiro no cidadão. Mas o bandido não tem. Por isso, não pode existir na polícia a ideia de confronto aberto em áreas habitadas. A polícia só atira quando há uma evidência de que uma bala vá atingir uma pessoa: o próprio policial ou um terceiro.

Nesse caso, pelo menos 30 bandidos fugiram (e dez foram rendidos depois de invadir o hotel InterContinental). Teria sido melhor deixar fugir os 40 de uma vez, para evitar exposição da população a risco. Comandei policiamento durante muito tempo, e tinha uma orientação muita clara: deixar fuigir é opção operacional. Ah, mas o bandido está atirando. Se a polícia atirar, só vai continuar.

O que a polícia tem que fazer é acompanhar e, com uma quantidade adequada de homens, cercar e forçar os criminosos a se entregar. Se não for possível agir desta forma, a fuga é opção. Não existe isso de impedir a fuga a qualquer preço, incluindo vítimas inocentes num tiroteio.

Essas armas, fuzil, metralhadora, têm alcance de dois quilômetros, têm uma penetração infernal. Balas que podem atingir pessoas longe dali. Polícia não dá tiro a esmo. Ali, no caso, foi a esmo: contra criminosos, em locais em que a população estava exposta.

O RESGATE DOS REFÉNS: A polícia só agiu bem quando os bandidos estavam confinados no hotel. Isso é de praxe: cercar, negociar, prender. Em 99% das vezes, eles se entregam. Não há nenhum heroísmo policial nisso.

COPA: Com relação à Copa, o problema é muito mais amplo. Ultimamente, a gente só tem ouvido o discurso da UPP. Mas a UPP é um remédio dentro de um grande esquema de tratamento da violência. Ela não pode ser entendida como o principal. Afinal de contas, no início do governo Sérgio Cabral, o principal foi o enfrentamento. Depois, foi mudando. E agora a UPP parece uma solução. Não é.

Até porque a previsão de UPP para locais importantíssimos como a Rocinha e o Alemão é para daqui a dois e até quatro anos. Que programa de segurança é esse que está só baseado em UPP? E o resto? Muito antes de 2014 deverá ter uma estrutura de segurança que contemple não só algumas das favelas mais complicadas do Rio, mas como todo o estado. São 180 000 pessoas que vivem em área pacificada. E os outros 16 milhões?

GARGALO: Fala-se que para fazer o resto (das UPPs) precisaria de mais 12.500 PMs. Se até 2016 devem se aposentar uns 8 000 policiais no Rio, estamos falando de uns 20.000 policiais. O Rio vai demorar 10 anos para formar um contingente desse tamanho. O Rio não tem capacidade de formar bem mais do que 2 000 policiais por ano. É mais ou menos essa a capacidade que uma polícia tem de formação, em torno de 5% a, no máximo, 6% do seu efetivo por ano. Normalmente, se aposentam 3% por ano. Mal dá para repor esses 3% e ainda fazer outros tantos.